sexta-feira, 9 de março de 2007

 

Seja apenas uma vela!... [artigo completo]



Para todos os que desejam ou praticam um ideal de Fraternidade, de Compreensão, de Amor e de Paz .

Quando vivi na Índia assisti, uma noite, a algo insólito que me deslumbrou: a Festividade Hindu – o “Divali”, ou “Festa da Luz”.

Morava então em Pangim – Goa – numa casa térrea e numa rua estreita de um bairro onde o horizonte era limitado pelas casas próximas e, na noite da festa hindu do “Divali” (que eu jamais tinha visto e de que nunca tinha ouvido falar) cheguei acidentalmente à janela do meu quarto e fiquei estupefacto: o céu estava totalmente iluminado por um estranho e grande clarão róseo-amarelado, que se acendia por detrás das casas baixas, como se fosse um pôr-do-sol.

Olhei ao longo da rua e vi que havia nas janelas de uma e de outra casa uma profusão de pequenas velas acesas, assim como de lamparinas, e percebi, obviamente, que não eram elas que produziam, por si mesmas, aquele clarão luminoso na noite que, sem luar, seria escura.

Saí e fui observar, caminhando pelas ruas do bairro e dos bairros limítrofes, constatando que em cada rua havia geralmente muitas velas e lamparinas de óleo acesas nos parapeitos das janelas, assim como nos alpendres e nos muros de algumas casas térreas.

O que percebi, era surpreendente: cada vela ou lamparina dava uma pequena luz, fraca e trémula pela brisa da noite, que pouco iluminava em seu redor. Todavia, esses milhares de luzes anónimas e isoladas, dispersas por toda a cidade e sem importância individual, iluminavam feericamente a noite tranquila de Pangim, num clarão igual ao de muitos milhares de Watts. E de uma indescritível beleza. Era a festa da Luz contra a Treva.

Em mim, todavia, mais do que o singular aspecto luminoso, uma reflexão imediata sobre o fenómeno suscitou-me uma conclusão de natureza simbólica, a qual, alguns anos mais tarde, compreendi como sendo plenamente filosófica e mística: a de que também a “Luz” interna, singular, intrínseca à consciência de cada um de nós, sendo unida à “Luz” dos semelhantes, poderá aumentar a nossa pequena “Luz”, assim como as débeis luzes dos outros seres humanos, como se fôssemos todos espelhos uns dos outros.

E mais tarde soube que esta festa tradicional simbolizava uma mitológica vitória do Bem sobre o Mal; este representado pelo demónio Narkasur que, em forma de boneco, é queimado quando chega a meia-noite. Estes bonecos, por vezes de grandes dimensões, desfilam em transportes abertos, acompanhados ao som de ruidosos batimentos de tambores, pelos fiéis seguidores E as casas hindus são decoradas com frutas, doces e guloseimas, nas reuniões das famílias que caracterizam estas festas de cariz religioso.

Enquanto escrevo, evocando aquela longínqua noite de miríades de pequenas luzes dispersas, unidas numa só e grande luz, a memória traz-me o nome de Lewis Carrol e do seu livro, lido há muito, “Alice no outro lado do espelho”, onde o autor fala de um espelho mágico, através do qual a alma poderia passar para uma outra dimensão.

Ocorre também à minha memória uma antiga simbologia do espelho como reflexão da pureza e realidade das coisas, usada numa parábola do meu ex-Mestre Baghwan Shree Rajneesh, (Osho) em seu livro “O Segredo dos Segredos” – Vol. I – baseada numa transcendente e antiquíssima obra do Taoísmo – “O Segredo da Flor de Ouro”, de Carl Jung e Richard Wilhelm, manuscrito que este último, sinólogo, remeteu a Jung para que este escrevesse um comentário psicológico. (1)

Rajneesh baptizou-me em sânscrito como “Swami Anand Setu”, traduzindo para inglês o significado “Ponte para a Felicidade”, e ofereceu-me o colar de sementes alegórico desta condição. Sempre ironizei esse baptismo como sendo uma Ponte para a felicidade dos outros… Não a minha. Mas esse facto em nada alterou a minha anterior admiração por esse ecléctico Mestre.

Ao mesmo tempo em que escrevo, tudo se associa e concerta em minha consciência numa ideia simples, quase óbvia e, todavia, profunda: a existência de uma analogia entre a simbologia de lendas antigas (no Xintoísmo, por exemplo) que consideravam o espelho como algo mágico, e o facto de nos reflectirmos magicamente uns nos outros, através de diálogo e de troca de experiências, como se nós fôssemos espelhos.
Por palavras e gestos, quando solidários num ideal, intercambiamos valiosamente a consciência individual das coisas, do mundo e da vida, trocando conhecimento, dúvidas e certezas pessoais, quantas vezes aprendidas dolorosamente, enriquecendo-nos muito mais uns aos outros, interiormente.

No livro citado, Rajneesh conta que uma Imperatriz chinesa perguntou uma vez ao Mestre Fa Tsang se lhe poderia dar um exemplo simples e objectivo do inter-relacionamento de todas as coisas da Criação Universal, assim como destas com os seres viventes e também dos seres entre si.

O Mestre aceitou a tarefa. Colocou 8 espelhos numa sala, dispondo-os em locais correspondentes aos dos Pontos Cardeais e Colaterais. Depois colocou mais um espelho no tecto e outro no chão. Finalmente, suspendeu uma vela acesa no centro da sala, entre os espelhos.

A Imperatriz ficou maravilhada com o efeito do reflexo da chama da vela em cada um dos espelhos – efeito que Fa Tsang descreveu como sendo, simbolicamente, a Luz de Deus reflectida nas suas criaturas. Todavia, a Imperatriz perguntou-lhe como explicava o Mestre a interacção entre cada ser e os outros seres. O Mestre respondeu-lhe que a experiência, sendo ali estática e apenas próxima daquilo que é a Realidade, não mostrava nem o movimento constante e multidimensional nem a qualidade ilimitada do Universo. Mas chamou a atenção da Imperatriz para observar melhor, pois cada espelho reflectia, não apenas a chama da vela suspensa no centro da sala, mas também os reflexos da mesma chama em todos os outros espelhos, acabando cada um deles por conter um número infinito de reflexos da chama única da Unidade.

Terminando, o Mestre Fa Tsang tapou com um pano um desses espelhos, eliminando múltiplos reflexos da luz da vela nos outros, demonstrando assim à Imperatriz como qualquer uma das nossas acções neste mundo vai alterar e interferir no Todo Cósmico.

Voltando ao “Divali” e à parábola dos espelhos, imagine-se, se possível, naquela noite e na Índia iluminada por milhões de velas acesas, num país imenso, da mesma maneira que eu próprio tento imaginar o que seria este mundo se pudéssemos juntar e fazer reflectirem-se umas nas outras alguns milhões de “luzes” individuais, cada uma iluminando e multiplicando fraterna e amorosamente nelas a sua “Luz” interior. Cada qual expandindo a sua personalidade dotada de vivências e conhecimentos singulares, até mesmo de sentimentos únicos, e imbuída do desejo de unificação dos seus valores pessoais e de seus ideais. E emanando para os outros seres as elevadas vibrações devotadas à sua anónima busca de Deus, assim como seus íntimos desejos de maior compreensão e dádiva de Amor e de Paz.

A chama da vela tem um significado metafísico, místico mesmo, considerando-se o Fogo como um dos quatro grandes princípios da Natureza, definidos pelos filósofos pré-socráticos como substratos fundamentais do Universo. Mesmo pondo de lado a simbologia do Logos, em Heraclito, simbolizando a Luz Maior, o Fogo é o grande dissipador da Treva, analogamente afastando da nossa Mente, como “Luz”, a ignorância e permitindo o conhecimento.

É, pois, com esse Fogo e Luz simbólicos que o Homem adquire a percepção mais autêntica do Si mesmo, da importância da sua personalidade humana e da importância dos outros, no seu processo de sobrevivência e de transformação pessoal para a sua evolução. Com o Fogo alcança também o significado mais profundo da Criação e da contínua transformação das coisas, que lhe é inerente. Ele transmuta a natureza vibratória das coisas pela combustão e, por isso, sua luz significa a transformação, mais ou menos consciente, que todos vamos fazendo para atingir a meta final da evolução, ou Luz Maior.

Assim, cada um de nós é necessariamente apenas uma vela! Com “Luz” que se reflecte nos outros, partilhando com eles, e deles recebendo também sua “Luz”.

Se não tinha pensado nisto, é hora de fazer crescer em cada dia a sua chama e iluminar fraternalmente os que o cercam. Seja apenas uma vela, no seu caminho, mas torne a sua “Luz” sempre maior, reflectindo de dentro de si mesmo o Deus que concebe em seu coração e a perfeita réplica dele que você é. Então, não só O sentirá dentro de si como os outros O sentirão também. E, de alguma maneira, o mesmo Deus existente neles o tocará a si também.

Recordo, para finalizar, uma frase simbólica de Gary Zukav, em seu livro “A Dança dos Mestres Wu Li “ (2):
“No céu de Indra, dizem, há uma rede de pérolas dispostas de tal modo que, ao olhar-se para uma delas, se vêem todas as outras nela reflectidas.”

Notas:

(1) Editora Vozes – Petrópolis – RJ – Brasil
(2) ECE Editora – S. Paulo – Brasil

Este texto foi submetido a actual e ligeira revisão à publicação anterior inserida no romance do autor, “A Trajectória do Impensável”, Vol. I – publicado virtualmente na Editora Drica del Nero. – Direitos registados.

VÍTOR DE FIGUEIREDO FRC

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