quinta-feira, 9 de agosto de 2007

 

A Ordem do Templo e os Descobrimentos Portugueses (2ª parte)



[Manuel O. Pina]

O CULTO DO ESPÍRITO SANTO

Vou falar agora um pouco sobre o culto do Espírito Santo, pois ele é importante para o entendimento do espírito de missão que rodeou os Descobrimentos.
A primeira dinastia portuguesa iniciou-se rodeada de uma aura de misticismo, que veio a ser incrementado, especialmente no reinado de D. Dinis, com a divulgação em Portugal das ideias joaquimitas, trazidas essencialmente pelos franciscanos e pelos monges de Cister. Que ideias eram estas?
Estas ideias são da autoria do monge de Cister, Joaquim de Fiora, que estabeleceu os fundamentos de um movimento profético e messiânico que abalou a Idade Média, e que foi adoptado, especialmente, pela maioria dos monges da Ordem de S. Francisco, e que por isso, passaram a chamar-se de “Espirituais”. Para Joaquim de Fiora, as Escrituras não podem ser lidas no seu aspecto literal, mas segundo o espírito; os caminhos que nos conduzem a Deus são como os caminhos marítimos, não deixam vestígios e cada um, deve procurar a sua própria via conforme os “ventos soprarem”.
Joaquim de Fiora estabelecia que o Mundo tem três idades: a primeira, inaugurada com Adão, que era a idade do Pai, representada pelo Antigo Testamento; a Segunda, a idade do Filho, estabelecida a partir de Jesus, o Cristo, e dos seus Apóstolos; a terceira, a idade do Espírito Santo, que frutificará no fim dos tempos, após o regresso de Elias e a derrota do Anti-Cristo. Uma interpretação interessante destas três idades é a que diz que o Pai é o criador do Mundo, o Filho o seu governante e o Espírito Santo a energia e o poder que o transformam.
Para a Igreja, tratava-se de uma heresia, mas quando tentou reagir verificou que a extensão do problema era demasiado vasta, pois estavam envolvidas duas das maiores Ordens religiosas, a dos franciscanos e a dos cistercienses, mais a Ordem dos trinitários, além da Ordem do Templo, e esta aliava à sua condição monástica os objectivos guerreiros – era uma Ordem militar.
Os Templários associavam o “Conhecimento” ao “Amor”, que eram representados em forma de Querubins, assumindo que sem amor não pode haver conhecimento. Eles colocavam-se, não só acima do poder laico, como acima da própria Igreja, consideram esta como a Casa de Deus, mas o Templo era a Casa do Espírito Santo – a Igreja tinha idade, o Templo era intemporal. O Templo era o mundo interior, condição de homens livres e virtuosos, simbolizado pelo Templo de Salomão.
A sua aliança em Portugal com o “joaquinismo”, com os frades franciscanos e cistercienses, e com o comprometimento da monarquia, principalmente D. Dinis e D. Isabel, a Rainha Santa, fez com que se propagasse rapidamente por todo o país o culto do Espírito Santo. O sincretismo deste culto estabelecia que o Pai - a Luz - era a Criação e estava simbolizada no Antigo Testamento; o Filho - a Vida - era a Igreja de Pedro, a preparação; o Espírito Santo - o Amor - era a Igreja de João, cujo Evangelho era o cerne da doutrina secreta dos Templários. Com o advento do Espírito Santo - o Amor - a humanidade atingiria a maioridade espiritual.
Existe um episódio passado com D. Isabel e D. Dinis conhecido como o “Milagre das Rosas”, que não tem sido correctamente compreendido no seu verdadeiro significado, pois foi obscurecido pelas forças que tentaram aniquilar o culto do Espírito Santo. A versão destas forças conta o seguinte: estava D. Isabel entre os pobres distribuindo dinheiro e alimentos, quando foi abordada pelo rei. Este perguntou-lhe: que fazeis aqui, senhora? Ela respondeu que estava passeando. Como mantivesse a mão sobre uma dobra do vestido, parecendo esconder qualquer coisa, o rei perguntou-lhe: que levais aí, no vosso regaço? São rosas, meu senhor. Rosas em Janeiro? Admirou-se o rei. D. Isabel abriu então o regaço e rosas se espalharam no chão à sua frente.
Esta história é contada assim na assunção de que o rei não estava de acordo com as actividades caritativas da rainha, e esta vira-se obrigada a transformar os alimentos que levava em rosas. Na verdade, a história pretende simbolizar o empenho, tanto do rei como da rainha, no culto do Espírito Santo, e a sua adesão às ideias “joaquimitas”. A outra versão desta história conta que, quando o rei lhe perguntou o que fazia ali, D. Isabel respondeu: “vou arrumar o altar do Espírito Santo”.
O resto é igual, e o episódio é considerado milagroso pela simples razão de que em Janeiro, em pleno Inverno, não havia rosas – nessa altura ainda não tinham inventado as estufas. Quanto ao milagre propriamente dito, conta-se que a tia da Rainha Santa, Isabel da Hungria, também tinha o mesmo poder taumatúrgico. No entanto, esta tradição pode ter tido origem pela devoção de ambas ao Espírito Santo, cuja festa maior, o Pentecostes, se chamou outrora Páscoa das Rosas, ou Rosada.
Todo este conjunto, eu diria de energias, parece ter-se condensado em Portugal para dar origem ao que se chamou de “Mística dos Descobrimentos”. Os Templários foram perseguidos, presos e mortos por toda a Europa. Em Portugal, são ilibados de todas as acusações por D. Dinis, que transforma a Ordem do Templo em Ordem de Cristo. A Ordem de S. Francisco vive uma crise institucional, opondo conventuais e espirituais, que toma particular expressão no apoio que os espirituais deram a Frederico I, Imperador da Alemanha, na sua insurreição contra o poder papal. Em Portugal, sob o impulso da Rainha Santa Isabel, assistir-se-á ao reforço da corrente franciscana, privilegiada pela soberana e inspiradora do culto do Império do Espírito Santo, como prelúdio da era de paz e justiça que assinalaria a derrota do Anti-Cristo.

OS DESCOBRIMENTOS

A “Mística dos Descobrimentos” consiste nas expectativas messiânicas colectivas, de cariz milenarista, de instauração do Império do Espírito Santo. Voltado para ocidente, há que buscar o oriente, num retorno a casa do Pai, e num retomar do vínculo com o Pai, perdido pela Igreja Romana. Este retorno é representado nos Evangelhos pela parábola do Filho Pródigo.
No oriente estão os “nestorianos”, prosélitos também do Espírito Santo, e estava também o reino mítico e cristão do Prestes João das Índias, que permanecia fiel aos ensinamentos originais de Jesus.
Esta “Mística dos Descobrimentos” foi incorporada por uma figura ímpar que foi o Infante D. Henrique de Sagres, um dos filhos do 1º rei da 2ª dinastia portuguesa, D. João I. Aliás, toda a família real, assim como o resto do país, estava integrada nessa “Mística”. D. João era o Mestre de Avis, uma das Ordens militares envolvidas nos Descobrimentos, e foi iniciado aos mistérios do Templo pelo Grão-Mestre da Ordem de Cristo, D. Nuno Rodrigues. Os seus filhos foram chamados de “Ínclita Geração” pelas virtudes que possuíam e pelos lemas que tinham escolhido para a sua vida. Todos eles tiveram papeis bem determinantes na época, mas os que mais se destacaram foram o Infante D. Henrique, por ser o grande planificador e quem arriscou tudo na campanha dos Descobrimentos, e o Infante D. Fernando, feito refém em Fez, no norte de África, tendo morrido no cativeiro e por isso, foi tornado santo, chamado de “Infante Santo”.
É provável que a figura central que aparece nos “Painéis de S. Vicente”, atribuídos a um pintor renascentista chamado Nuno Gonçalves, que mostra ao rei ajoelhado o livro aberto no Evangelho de S. João, seja o Infante D. Fernando. No outro painel, a mesma figura tem o livro fechado e uma vara na mão, parecendo uma ordenação dos cavaleiros ajoelhados no espírito da “Missão dos Descobrimentos”.
Mas o plano das Índias, quer dizer, o plano da descoberta do caminho marítimo para a Índia, ainda estava longe. Primeiro, havia que desvendar toda a costa ocidental de África, assim como as ilhas, que foram sendo descobertas a pouco e pouco.
No entanto, existe a prova de que esse plano já estava consignado nas mentes dos que presidiram à Epopeia Marítima portuguesa. Esta prova é o Mosteiro da Batalha, mandado construir por D. João I, supostamente por agradecimento pela vitória na batalha de Aljubarrota, que estabeleceu definitivamente a independência de Portugal em relação às aspirações castelhanas de tomarem Portugal.
O grande estratego dessa vitória sobre as forças muito superiores de Castela, foi D. Nuno Álvares Pereira, o comandante do exército português, cavaleiro e místico, o Santo Condestável.
Visto de cima, o plano do mosteiro da Batalha é a representação de uma “chave”. Esta chave é composta por três elementos distintos: a oriente, as Capelas Imperfeitas, a casa do Pai, que se funde no oriente; ligando o oriente a ocidente, o corpo da Igreja, a Europa, a casa do Filho; a ocidente, a Capela do Fundador, a Península Ibérica, o Espírito Santo. Um visitante que queira deslocar-se da Capela do Fundador para as Capelas Imperfeitas, deve rodear o mosteiro pelo lado sul – da mesma forma que a viagem para a Índia teria que ser feita, rodeando o Mundo pelo sul.
O Lema, ou mote, do Infante D. Henrique era: “Talent de Bien Faire” (Arte de Bem Fazer). Este mote estava consubstanciado em três objectivos:

1.Executar com a máxima perfeição todos os actos da vida superior.
2.Fazer o Bem.
3.Criar a vinda do Bem.

Para Manuel Gandra, um estudioso dos templários e da História de Portugal, neste mote se condensaram as linhas programáticas mestras da Epopeia Marítima portuguesa. Motivada por expectativas milenaristas e messiânicas colectivas, sincreticamente compendiadas no “Auto do Império”, a gesta marítima resolve-se na demanda do “Paraíso Perdido”, esse centro espiritual supremo, só alcançável pelo nauta audaz, que em demanda do seu destino embarque nas naus da iniciação e empreenda a travessia do oceano da Alma, modelo dos oceanos do Mundo, para dilatar a Fé e o Império.
Para dilatar a Fé e o Império, é necessário ter ultrapassado o tormentoso mar das paixões individuais, condição requerida para passar além do Bojador e descobrir o mundo da Salvação, dando dele testemunho.
Quem era, na verdade, o Infante D. Henrique? Um iniciado? Um visionário? Como Grão-Mestre da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem do Templo, estava de posse de todos os seus segredos. Para a empresa a que dedicou a sua vida, os Descobrimentos Marítimos, rodeou-se de todo o conhecimento que havia na época, tendo até fundado uma escola, chamada “Escola de Sagres”. Esta escola, no sentido de edifício, instalações, numa existiu de facto. Na realidade, esta escola não era mais do que a concentração em Portugal desse conhecimento que ele soube atrair e captar para Portugal. Esse conhecimento eram marinheiros e cartógrafos italianos; eram judeus cabalistas; iniciados muçulmanos da Andaluzia; iniciados das três Ordens existentes em Portugal, a de Cristo, a de Avis e a de Santiago; gente que veio de toda a Europa e que podia contribuir para a campanha a que metera ombros.
Todos os capitães que comandaram as caravelas e as naus nas viagens marítimas empreendidas pelos portugueses, até inclusive à viagem de Vasco da Gama, eram iniciados em uma daquelas Ordens. Um dos exemplos mais significativos é a figura do navegador Bartolomeu Dias, que é sempre representado usando o barrete frígio. Bartolomeu Dias foi quem dobrou, pela primeira vez, o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, acompanhou em 1500 Pedro Álvares Cabral, na sua viagem para o Brasil, tendo-se separado a meio do Atlântico e seguido para dobrar mais uma vez aquele cabo, onde acabou por perecer junto com toda a tripulação de quatro caravelas.
A ligação de todo o plano das Viagens Marítimas com os franciscanos, é comprovada, porque são estes frades os únicos representantes da Igreja Católica, a embarcar, durante muito tempo, nas caravelas e nas naus. Depois de aportarem aos locais descobertos, não só procediam às tarefas inerentes à ocupação, povoamento e administração do território, como instauravam o culto e as festas do Espírito Santo. O espírito de pureza e desapego, manifestados pelos franciscanos, eram igualmente compartilhados por D. Henrique e pelos navegadores ao seu serviço.
A comprovação da existência do reino mítico do Prestes João, e da existência de cristãos pertencentes à Igreja de S. Tomé e que cultuavam o Espírito Santo, é feita no relato escrito por Álvaro Velho, elemento da tripulação de uma das naus da Vasco da Gama, quando aportam a Mombaça, na costa oriental de África:

“Quando chegaram ao rei, este fez-lhe muito agasalho e lhes mandou mostrar toda a cidade, os quais foram ter a casa de dois mercadores cristãos onde lhes mostraram uma carta que adoravam, na qual estava bem desenhado o emblema do Espírito Santo”.

Era o Infante D. Henrique Rosacruz? Para René Guénon, a Ordem Rosacruz é herdeira da mística dos Templários e da Ordem de Cristo. Evidentemente que não podemos responder a isto, até porque ninguém sabe. Naquela época, as únicas Ordens que eram autorizadas, eram as Ordens religiosas, e estas tinham que ter a aprovação do Papa. Mesmo estas, corriam sérios riscos se se desviassem da ortodoxia da Igreja, como foi o caso da Ordem de S. Francisco e dos “Espirituais”, que só não foram eliminados pela Igreja porque, quando esta deu por eles e pela “heresia” de que os acusava, já eram muitos, eram a Ordem mais numerosa dentro da Igreja. Não podendo combatê-los directamente, a Igreja usou a Ordem de São Domingos, que foi a promotora e o principal braço da Inquisição.
Mas o Infante tinha tudo para ser Rosacruz: era Grão-mestre da Ordem de Cristo, portanto Grão-mestre templário; tinha ligações com os franciscanos “espirituais”, os quais seguiam a doutrina elaborada por Joaquim de Fiora, do qual se diz ter sido o fundador de uma Ordem secreta na Península, os “Illuminati”, que em Espanha tomaram o nome de “Allumbrados”; tinha contactos com os judeus, alguns deles cabalistas e alquimistas, assim como com místicos muçulmanos, alguns deles “Allumbrados”; o seu lema de vida “Talent de Bien Faire” (Arte de Bem Fazer); a sua forma muito pessoal de liderar a campanha dos Descobrimentos, imprimindo-lhe uma tónica de não-violência, de paz. Pode ser que ele não tenha sido Rosacruz mas… é bem possível que a Rosacruz tivesse estado presente, nem que fosse através dos seus Mestres invisíveis.
A “Mística dos Descobrimentos” continuou até à viagem de Vasco da Gama para a Índia e a descoberta do Brasil, viagens estas preparadas por D. João II, ele próprio Grão-Mestre da Ordem de Santiago, mas concretizadas no reinado de D. Manuel I, o Venturoso, o único monarca que foi também Grão-mestre da Ordem de Cristo.
Já vimos os motivos que estiveram por detrás da descoberta do caminho marítimo para a Índia. No dizer do historiador Jaime Cortesão, as viagens marítimas portuguesas realizaram a unificação dos povos. A descoberta ou redescoberta do Brasil insere-se na actividade missionária dos franciscanos e da Ordem de Cristo, cujo objectivo era: descobrir o paradeiro das tribos perdidas de Israel, encontrar o Paraíso Terreno, renovar a Europa e instaurar, à face da Terra, a Sinarquia Universal, ou o Reino do Espírito Santo (O Quinto Império).
Não importa aqui alimentar a polémica sobre a verdadeira nacionalidade de Cristóvão Colombo, se era genovês, espanhol ou português. Vou só dizer algumas coisas e, cada um pode tirar as suas próprias conclusões. Cristóvão Colombo quer dizer “aquele que transporta a pomba de Cristo”, era um nome cifrado, o que significa que se tratava de um iniciado. A pomba de Cristo á uma clara alusão ao Espírito Santo, portanto Cristóvão Colombo eram também joaquimita. O seu nome verdadeiro era Salvador Gonçalves Zarco, ou Zargo.
Para terminar direi apenas que Portugal terá sido fundado como um país templário. A Ordem do Templo cumpriu uma das suas missões através de Portugal, pela via das viagens marítimas. Não conseguiu a outra, a unificação da Europa sob um mesmo governo sinárquico. Embora hoje não se possa falar em sinarquia, a Europa está finalmente unida.

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