domingo, 9 de setembro de 2007

 

O Coletivo Quan An, a primeira ONG brasileira de Budismo Engajado, procura parcerias e financiamentos para promover a consciência do interser no país



Por Antonino Condorelli
condor_76@hotmail.com

Nordeste: veia aberta do Brasil. Rio Grande do Norte, minúsculo Estado econômica e politicamente insignificante na esquina do sub-continente latino-americano. Periferia da periferia. Foi aqui onde visionários e sonhadores, tantas vezes, aprenderam que o estrume é só a outra face das flores. Foi em Natal, no miserável bairro das Rocas, que o histórico prefeito Djalma Maranhão implantou, em 1961, a campanha “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”: escolas de palha que não agrediam o ambiente nem a cultura local e alunos descalços, pois para aprender a ler não é preciso ter sapatos. Em três anos, a campanha matriculou 17.000 alunos. Foi neste Estado, no coração do Sertão potiguar, que em 1963 Paulo Freire realizou as 40 horas de Angicos, inaugurando uma nova pedagogia que parte das exigências da pessoa humana e tem como fim a libertação. E é aqui que, hoje, um jovem praticante do Dharma do Buda ligado à Ordem do Interser do mestre Zen vietnamita Thich Nhât Hanh, o monge que nos anos Sessenta fundou o Budismo Socialmente Engajado, criou junto a uma pequena equipe de pioneiros a primeira ONG brasileira diretamente inspirada neste movimento: o Coletivo Quan An de Promoção da Liberdade, a Igualdade e a Solidariedade entre Todos os Seres. Quan An, o nome em vietnamita do bodhisattva Avalokitesvara, o ser que na tradição budista Mahayana encarna a bondade amorosa e a compaixão universais e no capítulo XXV do Sutra do Lótus é descrito como aquele que “escuta todos os gemidos do mundo” e “olha para todos os seres com os olhos da compaixão”, abençoou esta iniciativa que tem como principal objetivo promover a consciência do interser na sociedade brasileira.

O fundador do Coletivo Quan An já trabalha em uma ONG de promoção dos direitos humanos histórica no Rio Grande do Norte, que possui uma trajetória de mais de 20 anos e cujo principal foco de ação é atualmente a educação para os direitos humanos e a cidadania, mas sentia profundamente a falta da perspectiva fornecida por tradições espirituais como o Dharma, pela ecologia profunda e outras abordagens holísticas e orgânicas à existência no fazer educacional e nas demais esferas de atuação das entidades da sociedade civil brasileiras. Por isso resolveu juntar um pequeno grupo e fundar uma ONG própria.

O macro-projeto do Coletivo Quan An é contribuir a fazer brotar na sociedade brasileira (mais na frente, seus integrantes esperam ter condições de atuar também em outros países da América Latina) uma nova consciência baseada na percepção nítida da conexão do indivíduo com a grande Teia da Vida. No Brasil trata-se de um trabalho em grande parte inédito e o elo com a educação em direitos humanos, que já possui seu Plano Nacional elaborado de forma participativa, vai ser o gancho que unirá as atividades tradicionais de muitas ONGs, instituições e pessoas a esta nova abordagem sobre a realidade.

Em linhas gerais, a idéia central da organização é a formação de uma ou mais equipes que, após uma fase de intenso treinamento, ministre workshops e seminários propondo algo que, usando a terminologia forjada pela eco-filósofa norte-americana Joanna Macy, poderíamos chamar de "exercícios de re-conexão" (com a nossa verdadeira natureza, com a Rede de Indra da existência), valendo-se de técnicas oriundas do Dharma, mas sem excluir complementações procedentes de outras tradições espirituais, do trabalho da própria Joanna Macy, da teoria dos sistemas vivos, da ecologia profunda, da física quântica e das tradições indígenas do Brasil e o resto das Américas. Tais oficinas seriam gratuitas, dirigidas a distintos públicos que, no seu conjunto, componham um leque amplo, diferenciado e abrangente de forças da sociedade.

O elo com o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) se daria, na concepção do fundador da ONG, de duas formas. Em primeiro lugar, através da seleção de uma parte do público alvo. O PNEDH inclui cinco áreas de atuação: educação básica, educação superior, educação não-formal (ou seja, o trabalho da sociedade civil organizada), educação dos profissionais de segurança pública e educação e mídia. Portanto, os workshops do Coletivo Quan An estariam dirigidos, primeiramente, a educadores do ensino básico e superior; a alunos destas mesmas áreas de ensino (o que implicaria atuar nas escolas e universidades); a ativistas sociais de diferentes áreas (militantes ambientalistas, feministas, dos direitos humanos, da área de crianças e adolescentes, dos direitos das minorias, etc.); a profissionais da segurança pública e a operadores da comunicação de massa. A partir desta base, poderia-se depois ampliar o leque incluindo outros setores sociais e categorias profissionais, como arquitetos e urbanistas; funcionários públicos da saúde, o transporte e outras áreas; lideranças comunitárias; etc. e também grupos sociais específicos, como workshops para mulheres, para negros e pardos (por exemplo, em comunidades quilombolas), para comunidades indígenas desenraizadas, para moradores de favelas e bairros pobres, para trabalhadores rurais, etc. No caso de quilombolas e comunidades indígenas, tais oficinas seriam uma forma de se reconectar com as suas raízes históricas e culturais, com os seus ancestrais, os sofrimentos pelos quais passaram e as forças e dons que lhes legaram, e incorporar um sentimento mais profundo de ligação com a história dos seus povos.

O segundo elo de conjunção com o PNEDH se dará no nível conceitual e dos princípios, consistindo na substancial convergência entre a abordagem dos workshops e a visão que impregna o Plano: a da indivisibilidade, interrelação e interdependênca entre todos os direitos humanos, que remete diretamente para a interconexão de todas as esferas da existência, o interser de todos os fenômenos, a grande Teia da Vida que é o mais profundo insight das tradições espirituais assim como das novas ciências, da ecologia profunda, da teoria dos sistemas vivos e todas as demais abordagens à realidade que inspiram o Coletivo Quan An.

Haveria uma fase prévia de formação e treinamento dos membros da equipe que desenvolveria o trabalho (ou as equipes, se forem mais de uma), que poderia ser realizada dentro ou fora do Brasil dependendo das circunstâncias e os recursos, e sucessivamente passaria-se à execução dos workshops. Estes últimos poderiam ser dados em número maior ou menor e em um só lugar ou vários dependendo dos recursos disponíveis, tendo-se suficiente flexibilidade como para adaptar os projetos específicos às efetivas possibilidades dos financiadores. A priori, o ideal seria um trabalho itinerante e continuado que atinja vários Estados do Brasil e que depois das oficinas forneça algum tipo de acompanhamento e apoio aos participantes delas nos seus projetos e atividades sociais. Além do mais, todo ano realizariam-se novos workshops para dar a mais pessoas, organizações, escolas, instituições etc. a possibilidade de participar neste tipo de trabalho com a consciência.

Paralelamente aos workshops, a equipe da ONG pensou na possibilidade de desenvolver um portal em português rico em textos e informações sobre Budismo e as demais filosofias inspiradoras do trabalho (teoria de Gaia, ecologia profunda, etc.), instruções sobre exercícios de re-conexão e veículos de comunicação direta entre os capacitadores e o público das oficinas, assim como de qualquer pessoa interessada que não tenha tido a oportunidade de participar das mesmas, e até pensar em desenvolver workshops à distância via Internet.

Por último, mas com certeza não por importância, para levar adiante a missão do Coletivo Quan An a equipe da ONG pensou na possibilidade de criar um centro de capacitação permanente para facilitadores de workshops e, se alguém se dispuser a financiar a iniciativa, trazer todo ano pessoas de diferentes Estados para se formarem nele. A idéia é que, depois de um amplo e abrangente processo de treinamento, estas pessoas possam voltar às suas realidades habilitadas para dar oficinas e multiplicar este trabalho.

Essa é a idéia geral, a arquitetura ou concepção global do trabalho a ser desenvolvido pelo Coletivo Quan An. Por enquanto, não existe absolutamente nada a não ser uma organização-não-governamental fundada no final de maio como entidade de fato e reconhecida como pessoa jurídica no começo de agosto, uma pequena equipe sem nenhum recurso e sem sequer uma sede própria e um grupo um pouco maior (mas também não muito grande) de praticantes do Dharma espalhados pelo Brasil e desejosos de participar deste projeto e as idéias que foram aqui apresentadas. Além disso, só muita vontade de trabalhar e de oferecer a compaixão, a bondade amorosa, a equanimidade e os insights que proporciona a prática do Dharma como valores agregados para a transformação não-violenta da sociedade brasileira.

A equipe do Coletivo Quan An gostaria de poder contar com o seu apoio e a sua participação ativa na concretização destas idéias. Qualquer sugestão, opinião ou insight sobre como poder melhorar as idéias iniciais ou concretizá-las serão bem-vindos. Do mesmo jeito, a ONG está totalmente aberta a parcerias e toda proposta para juntar forças ao redor de objetivos comuns e a realização de projetos conjuntos será atentamente e carinhosamente analisada. A entidade também agradecerá imensamente os contatos de quaisquer potenciais financiadores interessados nas nossas propostas.

Para contatar o Coletivo Quan An, escreva para quan.an@hotmail.com ou budistas.engajados@hotmail.com. Não deixe de entrar em contato e ajudar como puder o Dharma socialmente engajado a crescer e espalhar a consciência do interser no Brasil!

Blog: Nasce a Rede Brasileira de Budistas Engajados

O fundador do Coletivo Quan An de Promoção da Liberdade, a Igualdade e a Solidariedade entre Todos os Seres lançou, através de um blog, mais uma iniciativa para levar as energias da compaixão, a bondade amorosa e a equanimidade do Dharma para a imensa legião de excluídos, explorados e sofredores do Brasil: a Rede Brasileira de Budistas Engajados.

A intenção do blog é fornecer um espaço de diálogo, articulação, debate, divulgação de atividades, troca de informações e de experiências entre organizações, grupos e praticantes individuais de qualquer escola do Dharma que, com a própria sangha ou dentro de organizações de outro caráter, realizam atividades de promoção dos direitos humanos, a justiça social, a paz, o respeito ao meio ambiente e a harmonia entre todos os seres em qualquer parte do Brasil.

A idéia que sustenta o site é construir uma ampla rede informal de organizações e praticantes budistas que, em um futuro não muito longínquo, possa realizar ações e projetos conjuntos em prol da paz e os direitos humanos no Brasil. Para que esta idéia deixe de ser um mero estado de espírito e torne-se uma realidade efetiva e atuante, é essencial o envolvimento de todos os praticantes do Dharma desejosos de contribuir à construção de um Brasil e um mundo melhor.

Se quiser participar desta iniciativa, visite o blog http://www.budistasengajados.blogspot.com ou escreva um e-mail para budistas.engajados@hotmail.com.

Junte-se a esta grande correnteza de compreensão, compaixão e amor verdadeiro!

Sobre Antonino Condorelli (condor_76@hotmail.com)

Italiano de nascimento, brasileiro e latino-americano de adoção e coração. Comunicador e educador engajado ativamente na luta por uma sociedade justa, democrática, igualitária, pacífica, solidária e participativa, desde 2003 é membro da equipe do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP) de Natal.
É articulador internacional de redes de direitos humanos, membro de diversos Conselhos e Comitês, assessor internacional de comunicação da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC) da República de Cabo Verde (África) e ativista com vocação internacionalista que passou longos períodos em outros países da América Latina. É também uma ponte entre os movimentos sociais e as universidades na área de educação em direitos humanos.
É praticante budista ligado à Ordem do Interser do mestre Zen vietnamita Thich Nhât Hanh, um dos fundadores e principais protagonistas do Budismo Socialmente Engajado.

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