domingo, 22 de julho de 2007

 

Debate no MSN: Religião e Sexualidade - Qual a melhor postura?



No dia 21 de junho realizamos mais um debate com os leitores da Revista Horizonte - Leitura Holística no MSN. O tema foi "Religião e Sexualidade - Qual a melhor postura?". O assunto é muito polêmico, com certeza, e este foi o debate mais acirrado de todos os realizados até hoje.
A íntegra do debate segue abaixo:

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Caros amigos. Estamos iniciando mais um debate da Revista Horizonte - Leitura Holística no MSN. O tema de hoje é: Religião e Sexualidade - qual a melhor postura? Inicialmente gostaria de pedir que cada um falasse sobre o que pensa da interferência da religião na sexualidade dos indivíduos.

Tiago diz:
Uma grande tolice. O que deve reger a sexualidade das pessoas é a moral e a consciência. Isso não tem nenhuma relação com religião. A pessoa deve ter bom senso baseado em regras de boa vizinhança.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Bom, isso me lembra o que disse o Lama Anagarika Govinda: não é papel da religião criar regras morais para os fiéis. Elas devem é se preocupar com a felicidade de seus praticantes.

Tiago diz:
A política da boa vizinhança sempre é valida, desde que não prejudique ninguém, nem mesmo o próprio indivíduo!

Tadeu Fleck diz:
Concordo com o lama.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Quem leu a entrevista com o monge budista Gabriel Jaegger na Revista Horizonte de julho? Ali ele fala também da questão da sexualidade entre os monges e seu discurso não foi nada preconceituoso.

Tiago diz:
Gabriel Jaegger, com todo respeito é um extremista, como qualquer outro religioso.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Por que, Tiago?

Tiago diz:
A religião se baseia em fé e tradição, não no bom senso.

PRINCESA diz:
Desde que a pessoa sinta-se bem com seu parceiro ou parceira e com a consciência tranqüila penso que tudo está dentro dos conformes. E a religião não deve opinar sobre a sexualidade de ninguém.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, princesa. Mas, infelizmente, desde que as religiões nasceram, tentam regular a vida sexual das pessoas através de dogmas e interdições absurdas. Realmente, Tiago. Bom senso significa ceder de vez em quando, e as religiões raramente cedem.

Tiago diz:
Agora a questão dos homossexuais em geral é complexa.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Com certeza, Tiago.

Tiago diz:
Eu não tenho nada contra, mas é contra a natureza, a anatomia!

PRINCESA diz:
É complexa quando eles querem ter filhos.

Tiago diz:
Essas pessoas não respeitam a natureza.

PRINCESA diz:
Para nós ainda é um assunto difícil.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Quem pode afirmar isso, Tiago? Já foi descoberta a homossexualidade em quase 500 espécies animais!

Tiago diz:
Você está sugerindo que pode ser algo normal?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Defina normal!

Tiago diz:
Algo comum, que pode se extender, completar um conjunto, se extender a vários conjuntos.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Veja bem, há cerca de 10% de canhotos no mundo. Eles são "anormais"? Isso é o mesmo que "defeituoso"?

Tiago diz:
Essa raciocínio não é válido.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Algo comum é sempre a maioria?

Tiago diz:
Isso é sofista. Pode se extender, mas não significa maioria. Quando se extende, quer dizer que existe muitos casos.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Então, se não é maioria, é problema? Isso é que é sofisma! As espécies que não são maioria ficariam numa enrascada com esse argumento.

Tiago diz:
As pessoas são corruptíveis. Esse tipo de julgamento é complexo. Ou melhor, não devemos fazer julgamentos. Eu só fiz uma pequena análise, talvez com alguns erros.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Com certeza é complexo. Mas é só uma parte da questão "religião e sexualidade". Há outros pontos, como aborto, sexo antes do casamento, etc.

Tiago diz:
Esse tipo...classificar o que é normal ou não, é estranho. O aborto é complexo. Existe casos como estupro ou a criança nascer com algum problema, que pode arriscar a vida da mãe.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Também acho.

Tiago diz:
Ou seja, você vai ter duas vidas em risco. Para evitar isso, seria necessário salvar apenas a mãe.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
É algo realmente complicado de decidir: a mãe ou a criança.

Tiago diz:
Ou você prefere que os 2 morram? O filho já se tem certeza que não vai resistir. Para que arriscar a vida da mãe?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Com certeza, não. A natureza animal privilegia os mais fortes e os mais velhos, mas não sei como agir no campo humano.

Tiago diz:
Eu quero debater longe de religiosos em geral. Isso traz muitos problemas. Eles levam para uma questão religiosa; eu levo para a questão biológica.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Mas os religiosos sempre opinarão, mesmo porque têm esse direito.

Tiago diz:
A questão é, existe tratamentos para aborto seguro? Parece pouco viável o aborto! Digo não por uma questão religiosa, mas biológica mesmo.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Há casos em que não há tratamento mesmo. Independente da decisão, o que não se pode admitir é que, no final das contas, quando há riscos para mãe e filho(s), ambos acabem morrendo porque o aborto é tabu.

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Claro Paulo. Independentemente de qualquer religião.

Tiago diz:
Já em casos de estupro é uma dor terrível. Ninguém pensa nisso. Sempre leva pela questão religiosa ignorando a dor da vítima. O conservadorismo leva à miséria da alma!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Concordo, Tiago.

Tiago diz:
Imagina utilizar conjecturas da Idade Média para tratar de problemas científicos. Isso é o que os religiosos fazem, na maioria das vezes.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Há alguns setores religiosos que fazem isso mesmo, Tiago. São fundamentalistas.

Tiago diz:
Esse pessoal ignora até a invenção do microscópio ou descobrimento de bactérias, etc! Lembre que os religiosos sempre trataram isso como sendo espíritos ou uma praga de Deus. Não conheciam as bactérias, protozoários, vírus, etc. Não sabiam que era outra espécie de ser vivo. Ou seja, eles não têm mérito nenhum para falar.

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Fui educada num colégio católico e sei como isso afectou a minha maneira de pensar por uns anos.

Tiago diz:
Lembre que graças a religião crianças na Índia se casam! E nem me venha com esse papo de que é a cultura deles, porque isso é pavaroso para qualquer ser humano. Somos todos iguais na superficie da terra.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Você está usando sua cultura para julgar a da Índia, Tiago. Eles usariam a deles para julgar a sua.

Tiago diz:
Não estou usando o sofrimento. Essas mulheres sofrem.

Eustáquio Patounas diz:
Bem, acho que interfere muito em mentes submissas pelas crenças, pelas doutrinas religiosas. Percebe-se desde o passado remoto (Bíblia do AT), onde há conselhos de como agir, quem "comer" e se pode ou não. Creio que é Levítico, não lembro, mas é um manual de sexo...

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, Eustáquio. É o Levítico e também o Deuteronômio.

Tiago diz:
O sofrimento é igual para todos no mundo.

Eustáquio Patounas diz:
Ufa... acertei....

Tiago diz:
Ou só porque é indiano vai ser diferente. Não é. Todos têm os mesmos problemas no mundo.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Só perguntando para os indianos...

Tiago diz:
Todos precisam de liberdade.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Concordo.

Tiago diz:
Eles respiram ? Comem né? Então, não há diferença biológica. Ou seja, estão sujeitos a sofrer.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, mas a questão emocional, psicológica e mesmo o peso da cultura variam de lugar para lugar.

Tiago diz:
Sim e não.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
O próprio Buda define o sofrimento como a razão entre a ação e a atenção dada à ação.

Tiago diz:
A biológica leva, sim, o emocional. O Buda não levava a questão biológica. Ele desconhecia o funcionamento de vários órgãos do corpo humano ou a existência das células.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Então, se alguém dá menos atenção a uma doença, por exemplo, pode sofrer menos. Se outro dá mais atenção ao fato de não ter um carro, pode realmente sofrer por causa de sua ambição.

Eustáquio Patounas diz:
Mas que sexo e religiosidade tem a ver isso tem, pois no ato, o que mais se fala é Ai meu Deus, ai minha NS, Ave Maria, etc e tal (só para descontrair)...

Tiago diz:
O corpo e a mente são insolúveis?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Não posso afirmar nem que o Buda desconhecia nem que conhecia isso. Seria pretensão sabê-lo.

Tiago diz:
Ele desconhecia pela ciência do período. Ele está preso ao período histórico, mesmo sendo um grande sábio.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Isso sim, pois ele não podia usar termos ligados a um paradigma não existente ainda. Mas transformar o paradigma em verdade, nenhum cientista que se preze faz!

Tiago diz:
Ou o corpo tem propriedade que a mente não possui.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Ou a mente tem propriedades que o corpo não possui.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Você falou em Levítico e o manual de proibições sexuais, Eustáquio. Realmente, todo o peso moralista do judeu-cristianismo-islamismo vem dali.

Eustáquio Patounas diz:
Pois é... certa vez eu li (não tenho mais) o Manual Sexual da Igreja Universal. Risível, ridículo, mas que milhares e milhares seguem...

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
E quantos da própria Universal o seguem?

Tiago diz:
Porque existe algo comum que todos podem seguir. "Seguir". A idéia é trazer um conceito simples para pessoas simples, algo que é facil de entender ou interpretar.

Eustáquio Patounas diz:
Sei lá... na prática a teoria é sempre outra....

Mariângela Detoni diz:
Penso o seguinte: sexo é uma questão muito pessoal, particular de cada um, e está conectada com a moral, a ética dessa pessoa. Então, cada um faz o que bem lhe aprouver.

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Bom, de facto, eu tenho em mim, um exemplo vivo de como a religião me afectou a minha maneira de pensar.

Eustáquio Patounas diz:
Isso Mariângela... É isso mesmo.

Mariângela Detoni diz:
Também estudei em colégo de freiras, e nunca tive meu comportamento sexual afetado pela religião.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Isso, Mariângela. A ética pessoal é que deve reger a vida sexual de alguém.

Tiago diz:
Minha nossa, o pessoal aqui recebeu educação católica. Cristã.

Eustáquio Patounas diz:
Eu estudei em colégio de padres e vi como a sexualidade é tratada... ou melhor, a homossexualidade...

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Eu tive porque vivia no meio de freiras quase o dia inteiro e nada entendia.

Tiago diz:
Devo ser o único que nem batismo tenho!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Como assim, Eustáquio?

Eustáquio Patounas diz:
Sim, eu recebi educação ortodoxa e depois católica, até me libertar delas 50 anos depois... Padres, pedofilia, homossexualismo... coisas assim.

Mariângela Detoni diz:
Existem dois lugares onde religião não dita regras em minha vida: entre minhas pernas e no meu bolso. Perdoem-me a maneira de falar, mas é o que penso.

Tiago diz:
A religião não dita nada na minha vida. Nunca pensei nela como algo fundamental.

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Muito bem, Mariângela!

Mariângela Detoni diz:
Se está bom para você, Tiago, então está tudo bem!

Tiago diz:
Está perfeito.

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Depois da minha libertação penso como você.

Eustáquio Patounas diz:
Claro... cada um é cada um...

Tiago diz:
A pessoa deve ter caráter, ou seja, um conjunto de atitudes de bom senso.

Mariângela Detoni diz:
Concordo Tiago.

Tiago diz:
Bem, eu tenho que criticar essa postura de falar que cada um é cada um. Isso pode prejudicar outras pessoas em volta. Não que eu diga que todos devem ser iguais, mas me parece mais um senso comum, não um senso crítico. Nem é padronizar. Digo que existe limites.

Uma rosa no deserto Goodmorning starshine, the earth says Hello! diz:
Hoje encaro a sexualidade normalmente.

Mariângela Detoni diz:
Tiago, cada um procura os seus pares na vida, em todas as áreas.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Mas você há de convir que, na prática acaba sendo "cada um cada um", Tiago. Não há como padronizar todo mundo, e controlar todo mundo, tipo o 1984 de Orwell. A diversidade é uma lei da natureza. É só olhar em volta. Nem a natureza tem limites à diversidade!!!

Tiago diz:
O meu direito acaba quando começa o do vizinho.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Correto.

Eustáquio Patounas diz:
Isso é verdade.

Filipe Nava diz:
Bom, religião e sexualidade é assunto interessante de se estudar.

Tiago diz:
Ter liberdade é ter auto-controle!

Filipe Nava diz:
Certo.

Tiago diz:
Então, essas posturas são incorretas de várias pessoas que participam em geral das passeatas gays, e etc!

Filipe Nava diz:
Diria que a sexualidade deva ser feita sem restrição à religião.

Tiago diz:
É uma questão racional, não baseada em credo.

Filipe Nava diz:
Mas acho interessante o ponto em que o paganismo associa a religião e a sexualidade

ASA 7 diz:
Depende da forma, moral?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Como assim, Asa?

ASA 7 diz:
O culto ao falo sempre foi demasiadamente cultuado em todas as religiões.

Tiago diz:
No hinduismo existe o kama-sutra, no zen budismo há o hyri-ryu. Tem outros nomes. Mais são desenhos de posições. Em geral muitas culturas antigas possuem.

Filipe Nava diz:
Diria que sexualidade é uma fomra de se chegar ao divino, ao espírito, uma forma sutil.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Verdade, Filipe. Os cultos tântricos pensam assim.

Tiago diz:
Eu discordo. É por prazer, para aliviar tensões do dia-a-dia e diversão.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Isso é uma visão simplista da sexualidade, Tiago. Os mais experientes aqui podem ter opiniões mais complexas.

Tiago diz:
Eu sou jovem. Você esperava mais? rsrsrs

Filipe Nava diz:
Realmente, tiago, é comum a sociedade padronizar o sexo assim, mas sexo é muito mais.

Tiago diz:
Eu associo... É bom!

Filipe Nava diz:
A sociedade esqueceu as tradições que o sexo traz de bom.

ASA 7 diz:
Todos os cultos têm a direção ao divino.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Verdade, Asa.

ASA 7 diz:
Exatamente.

Tiago diz:
Eu considero o sexo uma ferramenta muito útil de diversão e prazer, com todo respeito.

Mariângela Detoni diz:
Sexo é Bom. A moral segura um pouco...mas....é.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
As religiões da África negra, por exemplo, vêem a sexualidade de forma mais aberta que o Cristianismo.

Filipe Nava diz:
Claro você está certo Tiago, mas existe mais coisas do sexo.

ASA 7 diz:
Sim, inclusive atualmente havia uma sacerdotisa tribal africana que tinha vários maridos.

Tiago diz:
Na cultura inca isso também era comum.

Filipe Nava diz:
O cristianismo, creio eu, para combater o paganismo, deturpou o sexo.

Tiago diz:
Uma princesa, por exemplo, podia possuir vários maridos.

Filipe Nava diz:
Pois as religiões antigas viam o sexo como um fruto dourado, por assim dizer.

ASA 7 diz:
O detalhe é o ato, a cópula quanto mais duradoura antes do ápice nos tornam mais próximos do divino. O êxtase sentido igualmente numa meditação. TODOS os povos e todas as culturas não negam o prazer que o sexo proporciona seja com intuito religioso ou não.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, deturpou mesmo. Na Idade Média sexo era considerado impuro, depravação por si mesmo. Mas continuavam nascendo crianças nos países católicos!!! [?]

Tiago diz:
A nossa discussão de depravação se fecha na europa medieval, mas todo mundo esquece o islã atual, os países islâmicos! Não podemos apenas julgar os europeus no período medieval. Temos atualmente os maometanos.

Filipe Nava diz:
Maomé aproveitou-se de alguns dogmas cristãos e judaicos. Está escrito na história.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
A opinião da maior parte dos líderes islâmicos é ainda igual à da Igreja Católica na Idade Média, infelizmente.

Tiago diz:
O islã é mais perigoso do que a Igreja católica no período medieval atualmente.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Não o Islã, Tiago, mas os fiéis islâmicos fundamentalistas, os que se recusam a evoluir.

Tiago diz:
A maioria dos maometanos é fundamentalista. O próprio Maomé prega a violência.

Filipe Nava diz:
A Jyhad!

Tiago diz:
Isso é comum em qualquer líder. Lembre que Abraão tinha vários escravos e era guerreiro... bla bla bla!

ASA 7 diz:
Tem alguma surata na qual Maomé descreve a violência? Isso é importante?

Filipe Nava diz:
Teve várias mulheres também.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, pois o cristianismo católico também pregou a violência com as Cruzadas!

Tiago diz:
Abraão também prega a violência. Jesus prega de maneira disfarçada. Pregava!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Depois praticou violência com a [Santa?] Inquisição. "Pregava" não muda a gravidade do ato.

Tiago diz:
Enfim, ninguém é santo nessa história.

Filipe Nava diz:
Hoje nós vemos o conservadorismo do bento XVI.

Eustáquio Patounas diz:
E vocês podem perceber que os suicidas muçulmanos o fazem na esperança de encontrarem 72 virgens à disposição no Paraíso. Esta é a promessa dos líderes...

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Não é meeesmo.

ASA 7 diz:
Tiago, para mim é importante saber onde estão as pregações violentas de cada religião. Pode descrevê-las?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Ah, as virgens, Eustáquio! Será que isso seduz tanto assim ainda hoje?

Filipe Nava diz:
Pregar a violência e mostrar são diferentes!

Tiago diz:
Não existe religião perfeita.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Claro que não!

Tiago diz:
Ou conjunto perfeito de religiões.

ASA 7 diz:
Com certeza, não existe religião perfeita.

Eustáquio Patounas diz:
Para quem nunca viu uma, deve seduzir sim... imagine então 72...

Tiago diz:
Ou seja, todas levam à violência. Pegam o que existe de pior no ser humano!

Filipe Nava diz:
Mas também tentam corrigí-lo!

Tiago diz:
A vontade de deter a verdade absoluta. O homem cria a religião para entender o mundo de maneira absoluta.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
São as religiões que levam à violência ou é uma tendência inata do ser humano? Afinal, vejo a mesma coisa em todas as áreas de ação humana!

Filipe Nava diz:
Grego, com certeza as 72 virgens são "propaganda" islâmica.

ASA 7 diz:
Com certeza. Digo que existia menos violência.

Tiago diz:
Antes do surgimento de religiões.

Eustáquio Patounas diz:
Claro que é Filipe... mas eles acreditam piamente e fazem loucuras para realizar o sonho...

Tiago diz:
Violência desnecessária, porque para sobreviver, é outro papo.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
72 é um número cabalístico, pois tem a ver com a divisão dos 360 graus da esfera celeste em 72 quinários de 5 graus cada um.

Tiago diz:
Isso é misticismo, não tem nada de científico.

Filipe Nava diz:
Os 72 gênios da cabala também.

ASA 7 diz:
Pregam 72 mas se baseiam em que surata?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Os cabalistas judeus e alquimistas árabes consideravam este número importante em práticas de astrosofia e invocação angélica. Talvez por isso o número 72 apareça no número de virgens. Pode ser um símbolo para 72 anjos. Pelo menos seria mais lógico.

Tiago diz:
Não tem nenhuma relação. Isso é pura bobagem. Não existe método científico.

Eustáquio Patounas diz:
Pois é Paulo... você até poderia escrever uma matéria sobre esta "promessa" islâmica.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Mantendo ou retirando as "virgens"?

Filipe Nava diz:
Mas lembre-se Paulo, os homens das igrejas mudam as doutrinas de acordo com o rumo do mundo...

Eustáquio Patounas diz:
Explicando as "virgens" por outra visão da questão.

Tiago diz:
Na Bíblia existe esse fato da captura de virgens.

Filipe Nava diz:
O sexo nos parece normal hoje, assim parece haver uma certa "liberação" dos católicos quanto ao assunto.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, pois naquela época não se admitia capturar "não-virgens".

Filipe Nava diz:
Os católicos pouco falam nisso, pois sabem da gravidade.

Tiago diz:
Na realidade não existe comprovação de milagres ou qualquer outra coisa que faça a religião ser uma verdade, ou uma experiência para se desenvolver algo.

ASA 7 diz:
Mas em todo lugar do mundo, mesmo os mais conservadores estão com a sexualidade mais liberada e em países como o Brasil está o paraíso do prazer. Tudo é liberado; a tolerância está em não perder fiéis.

Filipe Nava diz:
O sexo hoje é fruto do quê? Capitalismo!

Tiago diz:
Ah, nem me venha com esse papo anti-capitalista!

Filipe Nava diz:
O sexo está tão forte assim por causa do capitalismo, e seu desenvolvimento.

ASA 7 diz:
Tudo está girando em torno disso, só que o humano se tornou vazio.

Eustáquio Patounas diz:
Na Califórnia, a sexualidade dos padres custou-lhes U$ 600 milhoões esta semana para indenizar 500 vítimas do "sexo religioso"....

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Bem lembrado, Eustáquio. Foi uma derrota para o Vaticano. Tiveram que abrir os cofres.

Filipe Nava diz:
E a religião tenta seguir este rumo...

Tiago diz:
O capitalismo é apenas o desenvolvemento de um sistema mercantilsta.! Esses comunistas.

Filipe Nava diz:
Não tiago... não sou contrário ao capitalismo.

Tiago diz:
Ah, bom!

Filipe Nava diz:
Mas o capitalismo molda os padrões da sociedade.

Eustáquio Patounas diz:
Podridão....

Tiago diz:
Não é possivel manter um debate sério com quem é anti-capitalista. Não molda não. A sociedade que molda o capitalismo. Isso é um erro terrivel dos marxistas

Filipe Nava diz:
E de fato foi um forte propulsor para o sexo ávido.

Eustáquio Patounas diz:
Pois é... as pessoas não conseguem viver em harmonia....

Tiago diz:
Culpar um sistema pelas falhas do homem isso que não pode.

Filipe Nava diz:
Mas quem decide as tendências da sociedade... são os pobres, os de classe média... não os ricos e poderosos.

Eustáquio Patounas diz:
Voltando ao tema, só é feliz sexualmente quem se liberta das restições sexuais religiosas... e tenho dito.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Verdade, grego. Felicidade sexual realmente tem a ver com libertação de amarras religiosas, como disse o Eustáquio.

Tiago diz:
Pois hoje em dia qualquer um vive melhor que um monarca do século 14. Quem dorme melhor, um favelado ou um nobre do século 14?

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
O Ocidente parece estar evoluindo mais nesse sentido.

Filipe Nava diz:
Sim, a sexualidade não pode mais ser regida pela religião, mas queria que fosse.

Tiago diz:
Pelo amor de Deus, né?

Filipe Nava diz:
Se a religião se abrisse para o sexo seria algo bom.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Acho que a principal conclusão deste debate é que realmente não é tarefa das religiões ficarem regulando a vida sexual das pessoas. Concordam?

Filipe Nava diz:
Assim eu acho, assim como nas religiões antigas.

Eustáquio Patounas diz:
Em gênero, número e grau. Deixo-lhes um fraterno abraço.

Tiago diz:
Quanto mais a sociedade for desenvolvida cientificamente, mais moral ela vai ser. Pelo menos parece que sim.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Assuntos como sexualidade, religião, fundamentalismo, são sempre muito polêmicos.

Filipe Nava diz:
Na Babilônia, nos templos de Ishtar, especificamente, uma virgem em idade certa devia ficar lá para que, se chegasse um homem e lançasse uma moeda, ela devia com ele ali mesmo fazer sexo.

Tiago diz:
Por exemplo, na Inglaterra há 60 anos atrás, todo mundo quase da população inglesa tinha algum tipo de preconceito.

Filipe Nava diz:
Cruel que a liberdade expressiva do sexo crie coisas assim!

Tiago diz:
Hoje em dia quem tem preconceito é minoria!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Eram as prostitutas cultuais, algo muito comum na Filistéia, Fenícia, Roma.

Tiago diz:
Eu te digo que eu sou mais evoluído moralmente que um Paulo ou um José. Até mesmo mais que Jesus ou qualquer um de nós. Eles estão presos ao período histórico.

Filipe Nava diz:
Moral é um termo complicado. A moral se define de acordo com a época.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, em boa medida isso é verdade, Filipe.

Filipe Nava diz:
Torturar gente era moral na idade média.

Tiago diz:
Sim, mas a idéia principal da moral é não prejudicar o próximo, boa vizinhança.

Filipe Nava diz:
Nem sempre, Tiago.

Tiago diz:
É sim.

Filipe Nava diz:
Altos homens da igreja na idade média regiam os tribunais da santa inquisição.

Tiago diz:
Eu te digo isso baseado no nosso período histórico.

Filipe Nava diz:
Eram homens de respeito, poder.

Tiago diz:
Não dos outros.

Filipe Nava diz:
Ah sim, assim está certo, se falarmos de hoje.

Tiago diz:
Eu sempre levo o nosso período, porque antigamente era barbárie, era muito sofrimento.

Filipe Nava diz:
Claro, devemos levar nosso período em conta, é o local que vivemos.

Tiago diz:
O mundo hoje em dia é muito melhor de se viver do que antigamente.

Filipe Nava diz:
Mas devemos ver nossa história, nossos erros.

Tiago diz:
Não é por nada. Morrer por um resfriado ou um sofrimento inútil. Isso que não é legal. Por isso te digo que hoje em dia é bem melhor.

Filipe Nava diz:
Antigamente a África era um continente livre, feliz e bem vivido.

Tiago diz:
Bem, eu não digo de maneira geral, mas ninguém tinha acesso.

Filipe Nava diz:
Hoje você pode vê-la, assim como está.

Tiago diz:
Pouco me importa a África.

Filipe Nava diz:
Resultado da nossa evolução.

Tiago diz:
Com todo respeito, não. Era tribal, era barbárie do mesmo jeito. A África não tinha nada de feliz.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
É uma conclusão precipitada, Tiago!

Tiago diz:
Pessoas com um pensamento tribal, caçando escravos do mesmo jeito.

Jorge Azevedo diz:
Bem, acho que as religiões de um modo geral não conseguem separar muito as duas coisas. O poder acaba subindo a cabeça dos líderes religiosos e acabam coagindo seus fiéis a cederem ao poder.

Filipe Nava diz:
Seus costumes, danças, religiões que satisfaziam as vontades do povo para esquecer o difícil. Isto é feliz.

Tiago diz:
Só porque o homem branco teve uma interação lá, a culpa é dele?!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Não podemos pautar a felicidade dos outros pela nossa nem a felicidade dos outros por nossa tecnologia.

Tiago diz:
Pelo amor de Deus, né? Quer colocar toda a culpa nos europeus. Isso que não pode.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
A felicidade também tem a ver com o momento histórico. Se não for assim, somos infelizes perto dos homens do futuro.

Filipe Nava diz:
Os líderes religiosos têm que ter um âmbito maior da sexualidade.

Tiago diz:
A África era tribal e tão violenta no passado como é hoje em dia. Só que o homem branco deu armas de fogo para as tribos.

Filipe Nava diz:
Mas tinham alimento, tinham como viver.

Tiago diz:
Esse alimento era disputado por tribos, sempre foi.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
A violência parece um evento localizado, mas não é bem assim, Tiago. Há violência em todo o mundo. Veja-se o Brasil, por exemplo!

Tiago diz:
Agora, dizer que o homem branco é culpado disso! É um processo histórico.

Filipe Nava diz:
Os homens são culpados em geral.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Exato, Filipe! Não acho o homem branco o culpado.

Tiago diz:
Violência sempre existiu. Morte por fome sempre existiu no mundo. Hoje em dia que a coisa está melhor graças a tecnologia. Antes não havia como alimentar tantas pessoas no mundo.

Jorge Azevedo diz:
Também não acho que o homem branco seja culpado. Indiferente de cor e credo todos tem sua parcela de culpa.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Isso é inegável mesmo, Jorge.

Tiago diz:
A distribuição de alimentos de hoje em dia é melhor que a 100 anos atrás, contrariando a crença popular.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
A humanidade toda é responsável pela situação do mundo hoje.

Tiago diz:
Eu acho que o mundo está evoluindo.

Filipe Nava diz:
Antes não havia tanta gente, Tiago. Antes as pessoas tinham as aptidões para caçar, coletar, plantar.

Tiago diz:
Está melhor que a 100 anos atrás.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Falar o contrário é parcialismo, preconceito e justificativa da exploração dos mais fracos pelos mais fortes.

Filipe Nava diz:
Assim mesmo que se passasse fome, tinham pessoas com quem contar que poderiam conseguir o alimento.

Tiago diz:
Não. Elas morriam do mesmo jeito de cansaço. Essa historinha não cai!

Jorge Azevedo diz:
Só que o povo se deixa levar pelo consumismo e se deixa também levar pelas facilidades do "tudo pronto" no supermercado e deixa de plantar um pé de alface no fundo do quintal.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Gostei, Jorge.

Filipe Nava diz:
Isso mesmo Jorge.

Tiago diz:
O consumismo é um direito de cada indivíduo.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Essa é minha filosofia do "pé de alface"!

Tiago diz:
Questionar isso levaria a uma outra idéia.

Filipe Nava diz:
Olhe bem, nada é desequilibrado em nossa história, o homem sempre se adapta.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Tenho os meus pés plantados aqui em casa!

Tiago diz:
É perigosa.´

Filipe Nava diz:
Pois o homem é um ser além das expectativas da natureza na história da terra.

Tiago diz:
Exato. Agora concordo, o mundo está muito melhor.

Filipe Nava diz:
Sofre claro! Mas é feliz claro!

Tiago diz:
Nunca houve expectativas de vida tão alta, ou qualidade de vida boa. Não mesmo!

Filipe Nava diz:
A felicidade sempre foi igual em todas as épocas, só muda de cara.

Jorge Azevedo diz:
Também concordo com o consumismo, porém, deixar-se acomodar e reclamar do governo que não te apadrinha com bolsa disso e daquilo é muito fácil.

Tiago diz:
Agora discordo, Filipe.

Jorge Azevedo diz:
Infelizmente o Brasil está se tornando um país de bolsas e pacotes de presente ao eleitorado.

Tiago diz:
As pessoas se levam por crenças populares.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Pois é. E quanto à religião, ela está mais evoluída hoje que há séculos atrás?

Filipe Nava diz:
Consumismo = se deixar levar pelo ego, pelo "mamífero" dentro de você.

Tiago diz:
Isso é igual em todos os lugares, inclusive a idéia de distribuição de alimentos. O consumismo é um direito de cada ser, cada um deve ter sua consciência.

Jorge Azevedo diz:
Acho que as religiões pararam no tempo.

Tiago diz:
Ninguém deve ser obrigado a aceitar a idéia.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
É o que muitos sociólogos acham, Jorge.

Filipe Nava diz:
Tiago, a tecnologia o deixa feliz, muito bem, te traz tudo o que pode oferecer de boa vida.

Tiago diz:
É uma idéia geral. Seria hipocrisia sua dizer que não. É universal o conceito da tecnologia ser boa.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Que as religiões precisam mudar ou desaparecerão em um ou dois séculos. Pelo menos do jeito como as vemos agora.

Jorge Azevedo diz:
A tecnologia a serviço do bem é sempre bem vinda. O problema é quando cai em mãos erradas.

Tiago diz:
Bomba atômica? O que vocês acham das bombas que cairam no japão na 2ª grande guerra?

Filipe Nava diz:
A tecnologia mata mais gente.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Tiago: Parafraseando você, o NÃO consumismo é um direito de cada ser. Cada um deve ter sua consciência.

Filipe Nava diz:
Nunca se viu antes tanta matança.

Jorge Azevedo diz:
Não sejamos tão rígidos, o controle de massa subliminar é um exemplo constante no dia a dia de cada um de nós.

Tiago diz:
Agora pode ser diferente, mas sempre se morreu gente. A massa sempre vai controlada.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Ou seja, consumismo ou não, cada um deve decidir o que lhe é melhor.

Tiago diz:
É um paradoxo que os utópicos, sonhadores em geral devem saber.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Você se considera massa controlada, Tiago? Por quem?

Tiago diz:
Sim... Eu não sou totalmente livre.

Jorge Azevedo diz:
Porque, se permitem, pela alienação opcional para não precisar se preocupar com nada além do seu umbigo.

Filipe Nava diz:
Bom, sejamos sinceros, até que não vivamos numa época antiga não saberemos realmente se hoje se vive bem melhor que antes.

Tiago diz:
Isso é obvio. Não existe liberdade, existe "liberdade". É bem melhor viver hoje em dia do que antigamente.

Filipe Nava diz:
Só estudamos o antigo pela nossa visão.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Verdade Filipe.

Tiago diz:
Eu estudo pela questão do sofrimento e mortes.

Filipe Nava diz:
Não podemos dizer em verdade absoluta que hoje é melhor que antes.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Como você pode dizer que é melhor viver hoje, se não viveu [que lembre!] em outra época, Tiago?

Tiago diz:
Ou alguém gostaria de morrer com 13 anos de um resfriado? Tu gostaria de morrer jovem, Filipe??? Tu gostaria de não nascer porque não existia cesariana?

Filipe Nava diz:
Claro que não, eu procuraria sobreviver de todas as formas, assim combateria o resfriado.

Jorge Azevedo diz:
No Brasil de hoje, falando como micro-empresário, o arroxo está tão grande que não se tem por onde sair.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Ainda morrem pessoas aos 13 anos de resfriado, de fome, de pneumonia, de sede, em partes do mundo e até do Brasil!

Tiago diz:
Ou sua mulher morreu porque não existia, mas existe recursos? Naquele período não existia para ninguém.

Filipe Nava diz:
Existia a fé.

Tiago diz:
Essa idéia é ... sem-vergonha.

Filipe Nava diz:
A fé é algo que os homens devem levar em conta quanto á sua vida.

Tiago diz:
As pessoas tão agindo com pouca honestidade.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, pois até os médicos estão se dobrando aos efeitos da fé. Não aos efeitos da "religião instituída", e sim à fé como um evento individual.

Jorge Azevedo diz:
Antes da medicina tomar conta dos seres humanos com medicamentos laboratoriais, o ser humano que vivia junto da natureza sabia exatamente o que usar em diversas situações para cada doença.

Filipe Nava diz:
A fé tinha como canal as religiões; creio que a fé possa ajudar o homem.

Tiago diz:
A fé é uma criação do cérebro.

Filipe Nava diz:
Mas o homem hoje está se renegando ao ceticismo, exemplificando, apenas aos cinco sentidos!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Nem a Ciência tem isso comprovado, Tiago!

Tiago diz:
O homem cria e experimenta a fé no cérebro.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Isso é uma teoria científica, Tiago, não comprovação!

Tiago diz:
Óbvio. Sim. Eu trabalho com teorias. Essa é uma das melhores. Mas não que esteja certa, mas é boa.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Então, fé x ciência está, no máximo, 0 x 0 até que alguém apresente provas!

Jorge Azevedo diz:
Quando a pessoa está fora do seu centro e longe, por consequência do Criador, não existe nenhum tipo de medicina capaz de alcançá-lo e curá-lo.

Filipe Nava diz:
A ciência é o motor da sociedade hoje, por isso ela faz de tudo para esconder o que não pode explicar, senão geraria insegurança!

Filipe Nava diz:
Fato comprovado!

Tiago diz:
A ciência acaba com a insegurança. Agora, Deus é terrivel. Digo a idéia geral.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
A ciência só acaba com a insegurança quando sai da teoria para a comprovação, Tiago. Senão, continuamos na mesma!

Filipe Nava diz:
Que insegurança... Me diga sobre o terraço de Baalbek, de mais ou menos 1500 toneladas. Nem com nossa tecnologia é possível erguer essa pedra. Nem nós, com toda a tecnologia adorada!

Tiago diz:
Ou melhor, a ciência traz segurança e insegurança. É assim mesmo até haver experimentação. Experimentos mentais são acessíveis para qualquer pessoa. Todo mundo pode realizar um experimento mental.

Jorge Azevedo diz:
Uma coisa é certa, fé e religião são coisas completamente distintas.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, Jorge. A fé é um fenômeno individual, a religião é um evento grupal. Afinal, a FÉ é "minha", mas a religião é "NOSSA"!

Filipe Nava diz:
Há centenas de fenômenos no mundo antigo que não podem ser explicados nem com nossa tecnologia hoje, mas não estou dizendo isso para defender a fé.

Tiago diz:
Mentira. Me mostre um!

Filipe Nava diz:
Estou dizendo que nossa tecnologia não é a evolução do homem.

Tiago diz:
Me mostre um fenômeno!

Filipe Nava diz:
Eu citei o terraço de Baalbek, uma pedra enorme que não estaria lá se não fosse erguida a pelo menos 5m.

Jorge Azevedo diz:
Eu mesmo, já tive contato com diversas religiões e optei por escapar da cilada de grupo oferecida, não por todas mas, por algumas religiões.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, Jorge. Então você entende o que quero dizer com fé individual e religião grupal.

Tiago diz:
Mentira. Isso é história. Nem mesmo metodologia científica se emprega nesses casos!

Filipe Nava diz:
Hoje, nossos guindastes mais poderosos erguem somente 700 ton. A pedra contém algo em torno de 1500 ton.

Tiago diz:
kkkkkkkkkk... Isso é coisa que pseudo-cientista inventou. Na boa, Filipe.

Filipe Nava diz:
Bom, então vá e veja com seus próprios olhos.

Tiago diz:
Vai atrás de fontes confiáveis.

Filipe Nava diz:
Está lá na Síria. Me cite qualquer fonte em que um cientista possa explicar ela.

Tiago diz:
Eu sei onde fica. Ela é uma formação geológica, sabia?

Filipe Nava diz:
É? Como algo retangular e medidas que não podem ser feitas pela natureza está lá?

Tiago diz:
Sim, pode.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Bem, voltando ao tema, rapazes. . . Pois é, Jorge. Religião é sempre um prato cheio. Isso mostra o quanto a religião, as crenças, a fé, o que é A Verdade e o que não é nos incomoda! Bom, rapazes, essa questão de Baalbek é para outra hora. Religião, fé, crença, sexualidade, o que é correto nisso, são assuntos relacionados. o resto é desvio. Vamos, então, aos últimos argumentos sobre o tema. O que cada um pensa sobre a relação que um religioso deveria ter com a sexualidade, independente da religião que professa?

Tiago diz:
O principal é a questão do indivíduo não prejudicar o próximo, independente da religião.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
[Não consideremos o mérito ou não da religião, apenas a postura mais adequada nesse caso.]

Filipe Nava diz:
Religião e sexo, algo que possa se tornar normal para qualquer um na sociedade.

Jorge Azevedo diz:
Olha Paulo, aprendi que o grande problema espiritual do ser humano, segundo uma tese minha que venho acompanhando através de meus clientes de terapia que toda a descrença e toda a distorção que há nestas religiões tem a ver com a chamada Kundalini mal orientada.

Filipe Nava diz:
Religião só devia intervir no sexo para ajudar.

Tiago diz:
Eu vou ficar longe de tal debate, com todo respeito.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Particularmente, acho que as religiões em geral deveriam se preocupar mais em ajudar seus fiéis a serem mais felizes, a serem melhores uns com os outros e com a humanidade toda. Não deveriam se preocupar com questões menores e de natureza individual.

Jorge Azevedo diz:
Se a pessoa está perto pelo menos do seu centro e segue alguma doutrina de caráter e respeita seu próximo, ela naturalmente administra sua Kundalini, mesmo que não tenha consciência de sua existência.

Filipe Nava diz:
Assim como no sexo, as duas partes devem ter respeito, devem ter suas kundalini concentradas e bem equilibradas.

Jorge Azevedo diz:
Somos um contexto de mental, psicológico, emocional e muitas outras coisas. Nada é separado. É por isto que nossa medicina se perdeu, quando particionou o ser humano.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Sim, Jorge. Somos um todo pensando ser parte!

Jorge Azevedo diz:
Quando mais ela divide o homem mais ela se afasta do conhecimento verdadeiro.

Filipe Nava diz:
Mais se afasta da natureza, e assim a natureza age em contrário.

Jorge Azevedo diz:
Somos um conosco, com a natureza, com o cosmos, com nossos irmãos de caminhada ...SEMPRE!

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Esta é a teoria da Unidade, da Visão Holística, da Ecologia Profunda e da Hipótese Gaia. Muito interessante.

Jorge Azevedo diz:
A natureza está aí, disposta e acessível para o homem conhecê-la. Ela nunca se afasta do homem e sim, o contrário. Quanto mais o homem se volta para fora de si, maior a distância de sua natureza.

Filipe Nava diz:
É, a natureza é parte do macrocosmo, se nós a afetamos em más ações nosso microcosmo também é afetado, pois eles são análogos.

Jorge Azevedo diz:
Naturalmente.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Acredito nisso.

Jorge Azevedo diz:
Eu também. Só não percebe este sincronismo quem está fora do seu centro, o que acontece com a grande maioria da humanidade.

Paulo Stekel/Revista Horizonte diz:
Bom, acho que podemos encerrar nosso debate. Foi muito proveitoso, com certeza. Agradeço a presença de vocês e desejo uma boa noite a todos. E espero poder contar com vocês no próximo debate, que ocorrerá dia 29 de setembro.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

 

Entrevista: GABRIEL JAEGER – Reflexões sobre o Budismo hoje [versão completa]



[Entrevista concedida por um monge brasileiro residente na Índia a Paulo Stekel]


Já no primeiro contato com o monge Gabriel fomos gentilmente tratados. Tínhamos intenção de entrevistá-lo desde os primeiros números de Horizonte – Leitura Holística, mas, por força maior, só conseguimos agora. Nossa opinião é a de que o relato de um monge brasileiro vivendo em um monastério budista na Índia pode ajudar a dissipar alguns equívocos que geralmente os leigos têm sobre as bases do Budismo.
Gabriel Jaeger é monge ordenado no budismo tibetano desde fevereiro de 2004, quando tomou seu primeiro nível de votos de Kyabje Trulshik Rinpoche. Seu nome de ordenação, recebido na Índia, é Ngawang Tenphel. O início do seu treinamento monástico se deu no monastério Chokling Gompa, na colônia tibetana de Bir, estado de Himachal Pradesh, Índia.
Khenpo Sherab concedeu a Gabriel Jaeger a segunda categoria de votos monásticos de acordo com o budismo tibetano equivalente a ordenação para noviços. Em seguida, em um encontro com S.S. o Dalai Lama, Gabriel pediu a Sua Santidade que lhe concedesse a categoria completa de votos, ou de Bikshu. S.S. o Dalai Lama aceitou o pedido e disse que se deveria conversar com seu assistente pessoal para ver os procedimentos necessários. De acordo com seu assistente, S.S. o Dalai Lama aconselhou que ocidentais permaneçam três anos treinando como noviços para então tomarem os votos completos de um Bikshu com ele próprio. Assim, em 2007 se completarão os três anos que Gabriel permanece em treinamento como noviço sugeridos por S.S. o Dalai Lama quando, então, receberá sua ordenação completa.
Gabriel Jaeger nasceu em Porto Alegre (RS – Brasil) em 1981. Sua trajetória no budismo começou cedo, aos 15 anos, quando encontrou os ensinamentos através de um livro de um mestre budista tibetano. Sua vida foi tão impactada pela leitura e pelas perspectivas budistas que passou a procurar um mestre ou professor que pudesse lhe ensinar o caminho. No final de 1995, seu primeiro professor foi Padma Samten, brasileiro ordenado lama no budismo tibetano, e que o introduziu ao seu próprio mestre, Chagdud Tulku Rinpoche, que viveu no Brasil durante os últimos 10 anos de sua vida treinando alunos brasileiros e construindo o primeiro templo de arquitetura tradicional tibetana na América latina. Com 16 anos, o monge Gabriel mudou-se para uma nova área recém concedida ao centro no qual estudava a convite de seu diretor espiritual Lama Padma Samten, que estabelecia agora o Instituto Caminho do Meio. Lá, Gabriel Jaeger permaneceu estudando, praticando e trabalhando na manutenção do centro em torno de 7 anos - de 1997 ao final de 2003 -, quando deixou o centro para sua ida e subseqüente treinamento como monge na Índia.
Atualmente, Gabriel Jaeger vive e estuda na universidade monástica Dzongsar Chokyi Lodro, na cidade de Chauntra, estado de Himachal Pradesh, Índia. De lá, ele dirige e movimenta uma iniciativa pela promoção de uma cultura de paz através do valorizar métodos e conhecimentos que proporcionam um profundo olhar sobre a natureza da vida e de nossa própria mente. O projeto recebeu o nome de Montanha Dourada – Ciência da vida e da mente em prol de uma cultura de paz, que expõe suas atuações e trabalhos no site www.montanhadourada.org . Gabriel dirige também um projeto de tradução de textos budistas de suas principais línguas originais – pali, sânscrito, chinês e tibetano –,o qual ainda está em desenvolvimento, mas já dando assessoria pela internet através de uma lista de discussões e aprendizado da língua tibetana coordenada pelo monge Gabriel.

Na entrevista com o monge Gabriel fizemos várias perguntas, envolvendo sua vida na Índia, sua escola religiosa, a cultura tibetana, os textos sagrados e os rumos do budismo no Ocidente. Tratamos também de algumas questões polêmicas, como a liberdade política para o Tibete, o fundamentalismo e a sexualidade dos monges. Gabriel respondeu a todas as perguntas com a sobriedade e a sinceridade propostas pelo Buda.

Horizonte: O que o motivou a sair do Rio Grande do Sul, mudar sua vida completamente e se tornar um monge budista?

Gabriel: Minha busca pela espiritualidade começou aos meus 14 anos, quando não encontrava respostas para certas questões quando ao sentido da vida e uma inserção positiva e significativa no mundo. Na tentativa de aprender meditação, encontrei o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Porto Alegre, minha cidade natal. Lá comecei a praticar semanalmente e seguir alguns dos grupos de estudos orientados pelo presidente do centro, na época, Alfredo Aveline. Encontrei nos ensinamentos e práticas as respostas que tanto buscava. Aos poucos fui aumentando a freqüência e participação no centro. Em dezembro de 1996, Alfredo Aveline foi ordenado lama por seu mestre S.E. Chagdud Tulku Rinpoche. A partir daí, suas atividades dentro do Dharma aumentaram muito e o grupo também. Um ano depois fui convidado pelo Lama Padma Samten a residir e cuidar da nova sede que havia sido adquirida em uma área rural, no município de Viamão, RS. Lá permaneci durante 7 anos ajudando na manutenção do centro, conduzindo as práticas diárias de meditação, fazendo retiros periódicos e aprendendo o Dharma junto a Lama Samten e em retiros periódicos com Chagdud Tulku Rinpoche, no Kadro Ling, seu templo recém construído na cidade de Três Coroas, RS. Em ambos os centros tive um contato mais próximo com as práticas do budismo tibetano, as quais, em grande parte do veículo tântrico vajrayana, eram desempenhadas em sua lingual original tibetana. No contato com a cultura tibetana descobri e fui aprendendo aos poucos sobre o treinamento de monges de uma forma tradicional. Tive uma grande conexão e vontade de desempenhar tal treinamento que incluiria tanto o aprendizado do tibetano e da comprensão dos textos como dos rituais e, posteriormente, retiros que se extenderiam por anos na busca de realizar ou experienciar de forma direta o conhecimento adquirido previamente.
Ao longo dos anos esta vontade se manteve presente. Cheguei a conversar sobre esta possibilidade com Chagdud Rinpoche, o qual disse que era possível ir e treinar como um monge na Índia ou Nepal, mas que era uma vida e costumes bem diferentes dos ocidentais e geralmente era dificil para os mesmos se acostumar e resistir a tal treinamento.
Entretanto, anos depois tal semente sempre presente veio a desabrochar e eu tomei a decisão de tentar seguir meu coração. Alguns amigos e sangas budistas se mobilizaram e apoiaram minha busca. Seis meses depois tinha-se arrecadado os fundos necessarios para a passagem à Índia. Na busca de orientação para onde iria, e após o falecimento de Chagdud Rinpoche, pedi conselhos ao seu filho, Jigme Tronge Rinpoche. Ele aconselhou a possibilidade de ser aceito em um monastério que ele próprio havia estudado quando ainda muito jovem, o monastério Chokling Gompa, onde o filme de Dzongsar Khyentse Rinpoche, “A Copa”, foi filmado.
Assim, me juntei à comitiva de brasileiros que estava a ir ao Nepal para a cremação de Chagdud Rinpoche. De lá já iria direto à cidade de Bir (Índia), onde localiza-se o monastério Chokling Gompa. Logo na chegada, um vislumbre de uma cultura totalmente diferente. A cidade de Bir é um tibetezinho em meio a Índia. Uma comunidade de tibetanos com alguns monastérios ao redor. Tive a felicidade de ser aceito no monastério por seus abades Neten Chokling Rinpoche e Orgyen Tobgyal Rinpoche.
Me transferi para as dependências do monastério e começei meu treinamento como um monge. Neste monastério haviam três “escolas”, a primeira chamada Lobdra, onde se aprende a ler e escrever em tibetano. A segunda chamada Datsang onde se aprende o desempenho dos rituais e cerimônias. E uma terceira chamada Tsangkam, local de retiro onde os monges desempenham os tradicionais 3 anos, 3 meses e 3 dias de retiro incessante de meditação.
Permaneci alguns meses na primeira escola aprendendo a ler e escrever. Logo depois pedi permissão para ser transferido para a escola dos rituais, onde permaneci mais alguns meses.
No decorrer do ano que havia passado pude perceber que a língua tibetana falada é diferente da língua acadêmica ou textual. Mesmo já conseguindo me comunicar um pouco em tibetano, não conseguia entender nada dos textos e liturgias. Conversando com tibetanos, vim a saber que a compreensão dos textos era ensinada somente nas universidades monásticas. Decidi que deveria me transferir então, pois não fazia sentido para mim recitar os textos sem entendê-los. No ano seguinte, me mudei para a universidade monástica Dzongsar Chokyi Lodro Shedra dirigida por seu lama-raiz, Dzongsar Khyentse Rinpoche, e por seu abade, Khenpo Kunga Wangchuk Rinpoche. Neste monastério é onde estou até os dias de hoje, desempenhando a formação tradicional em filosofia e diáletica budista.

Horizonte: Qual é a escola tibetana da qual você faz parte?

Gabriel: Meus primeiros passos no budismo, ainda no Brasil, foram através de Chagdud Rinpoche e Lama Padma Samten. Ambos provindos da linhagem Nyingma do budismo tibetano. Entretanto, recebi uma transmissão e abordagem do budismo muito ampla de Lama Padma Samten, o qual tomava como base os ensinamentos cernes de Buda, como as Quatro Nobres Verdades e o Sutra do Coração. Tais categorias de ensinamentos são estudadas e praticadas por todas as escolas do budismo tibetano, como também nos diferentes países onde o budismo Mahayana se estabeleceu.
Dentro desta perspectiva aberta e reconhecedora da preciosidade das várias categorias de ensinamentos como expressões da sabedoria e meios hábeis da mente liberta de um Buda, tive a oportunidade de receber ensinamentos ocasionais de diferentes professores budistas. Desde o budismo Zen japonês ao Chan chinês, como também das quatro linguagens do budismo tibetano. Esta abertura e perspectiva é mantida e praticada por grandes mestres dentro do budismo tibetano, como S.S. o Dalai Lama, S.S. Sakya Trizin, Dzongsar Khyentse Rinpoche e muitos outros.
Tal perspectiva iniciou-se há alguns séculos no Tibet, principalmente por Jamyang Khyentse Wangpo, e, posteriormente, se espalhou através dos esforços de Jamgon Krontrol Rinpoche e Jamyang Khyentse Chokyi Lodro. Ambos, na aspiração de ensinamentos preciosos de algumas linhagens que estavam perigando a se extingüirem, foram na busca de encontrar os textos e receber as transmissões dos poucos mestres que ainda detinham tais ensinamentos. Posteriormente, ambos tornaram-se detentores destes ensinamentos provindos de várias linhagens e passaram a transmití-los. Tal movimeno deu origem ao que veio a se chamar a abordagem Rime ou não-sectária do budismo tibetano.
O monastério onde vivo hoje, Dzongsar Shedra, foi fundado no Tibete por um destes mestres, Jamyang Khyentse Chokyi Lodro. Aqui, o abade e professores mantêm esta perspectiva não-sectária e estudamos diferentes comentários textuais de grandes mestres provindos de diferentes linhagens. Também temos a alegria de conviver harmoniosamente com monges provindos das diversas linhagens do budismo tibetano sobre um mesmo teto. Ao perguntar, certa vez, aos meus professores aqui a qual linhagem eles pertenciam, a grande maioria se disse Rime, justificando sua asserção pelo fato de que em todas as linhagens encontramos a essência dos ensinamentos do Buda. Foi de grande felicidade ouvir isto, pois pude confirmar minha própria perspectiva desde o ínicio de meus passos no budismo. Assim, digamos que sou um monge que segue os passos ensinados pelo mestre Buda e que tenho aprendido a reconhecer aqui na Índia, através de meus professores, tal caminho proferido por Buda em suas diversas manifestações através dos diversos métodos oferecidos pelas linhagens de realização presentes.

Horizonte: Pode alguém seguir o Caminho do Buda sem pertencer formalmente a uma escola – seja tibetana ou não, seja esse alguém leigo ou monge?

Gabriel: Com certeza! Digamos que o que Buda veio a reconhecer em sua “iluminação” tenha sido a realidade tal como é, livre de nossas pré-concepções e tendências habituais. Todos nós somos livres e somos dotados de tal capacidade. Entretanto, devido a estarmos arraigados a velhos hábitos e conceitos, não conseguimos “ver” através desta perspectiva. Vemos o mundo e nós mesmos através das “lentes” conceituais enraizadas e padronizadas em nossa mente. Vemos somente o que é possível ver através de tais lentes ou referenciais. Buda reconheceu esta prisão e descobriu como sair dela. Posteriormente, ensinou os passos que levariam a tal liberdade em diversos métodos que se adaptavam as pré-disposições psicofísicas dos ouvintes. Em uma última análise, Buda ensinou como desconstruir samsara, ou percepção delusória. Para desconstruir tal construção é necessário reconhecer suas causas, sendo que a principal seria o apego e solidez que damos às nossas próprias identidades, ao nosso próprio self. Seria contraditório dizer que é necessário construir e solidificar um self ou identidade budista para atingir a liberação do mesmo. Em verdade, o budismo inteiro é uma bengala útil para caminharmos enquanto não temos boas pernas. No final, quando recuperarmos nossa saúde, tal instrumento não é mais necessário.

Horizonte: Como você se sente estando inserido numa cultura e etnia – a tibetana – que, como os judeus do passado, agora se tornou um povo sem pátria, sem independência?

Gabriel: Ao longo dos anos minhas sensações e concepções para com os tibetanos vêm mudando. Na medida em que conheço mais a fundo seus valores, seus sentimentos, suas próprias concepções e formas de pensar e agir, tenho percebido mudanças em meu olhar para com os mesmos.
De fato, é uma cultura completamente diferente da nossa, a brasileira. Entretanto, continuam sendo seres humanos dotados de qualidades e dificuldades como todos nós. Buscando felicidade e ausência de sofrimento, seres humanos como todos nós. Minha sensação é de ter aprendido muito e estar a continuar meu aprendizado na relação direta e íntima com este povo das montanhas. Um povo antigo, simples mas com uma grande preciosidade em suas mãos e completamente enraizada em sua cultura, o budismo.

Horizonte: Os tibetanos sinceramente acreditam que o Tibete será uma nação livre novamente?

Gabriel: Difícil falar por todos. Mas, digamos, a grande parte que pude ouvir, sim. Não seria nem mais um acreditar, mas seria não deixar o sonho de serem livres desaparecer. Todos sabem dos poucos progressos feitos em direção à liberdade desde 1959. A grande parte tem conhecimento da nova perspectiva de S.S. Dalai Lama, líder politico e religioso do povo tibetano que, agora, abriu a possibilidade de um diálogo com os chineses dentro de uma perspectiva da qual não se buscaria mais uma autonomia política e militar para os tibetanos, mas simplesmente uma gerência interna cultural e religiosa presidida e dirigida por tibetanos. S.S. Dalai Lama acredita que ambos, Tibete e China, podem se tornam grandes parceiros, viver em harmonia e progredir economica e espiritualmente juntos.
Entretanto, em uma última entrevista na BBC, Sua Santidade ressaltou: “Eu espero que os chineses sejam espertos o suficiente para reconhecerem esta possibilidade de diálogo aberto onde não haverá perdedores. O povo tibetano deposita grande fé na minha pessoa, e assim, vem até hoje suportando minha abordagem de não-violência. Agora, já estou chegando a uma idade avançada e não sei até quando estarei presente entre vocês. Da mesma forma, uma vez que eu não esteja mais aqui, talvez nosso povo, os tibetanos, venham a tomar um novo caminho em sua busca por liberdade, diferente de minha perspectiva pacífica. Isto poderá trazer mais problemas ao governo chinês. Espero que eles reconheçam isso e abram as portas para um diálogo comigo e com o governo tibetano em exílio em breve.”

Horizonte: Que diferenças e semelhanças você percebe entre o povo tibetano e o povo brasileiro?

Gabriel: Digamos que o Tibete antigo era um país feudal. O Tibete apresenta três grandes regiões: U e Tsang, Kham e Amdo. Podemos perceber grandes diferenças entre o povo, língua e costumes tibetanos em cada uma destas regiões. Tenho mais contato com os tibetanos provindos da região de Kham. Poderia dizer que estes se assemelham em muitos aspectos à cultura da região sul do Brasil, do gaúchos, à qual pertenço. É um povo de guerreiros. Grande parte dos tibetanos provindos desta região formavam o exército tibetano antes da invasão chinesa. Um povo com uma fala “sem cerimônias” (risos). Falam diretamente o que pensam sem deixar nada implícito e com grande honestidade. Em grande parte usam cabelos e barba compridos, e um facão na cintura... muito parecido com os gaúchos tradicionais (risos).
Entretanto, atualmente, os tibetanos residentes no Tibete sofreram já uma grande influência da cultura chinesa. É fácil de constatar comparando estes com os tibetanos nascidos na Índia, os quais sofreram grande influência através da cultura e hábitos indianos. Acredito que nos dias de hoje não existem mais tibetanos “puros”, como na época em que eram praticamente isolados do contato com o mundo ao seu redor.

Horizonte: Como é estudar numa universidade monástica “não-sectária” [rigme, tib.]? No que ela se diferencia de outras universidades monásticas budistas, tibetanas ou não?

Gabriel: Acredito que uma das principais diferenças é o intercâmbio entre monges provindos de diferentes monastérios das várias linhagens. Ocorre constantemente este intercâmbio, quando discutimos e aprendemos uns com os outros sobre variantes e nuanças presentes em cada escola, como também indagamos por vezes quais seriam suas causas. Percebo muitas vezes, no contato com monges que cresceram em monastérios pertencentes a uma linhagem específica, esta limitação, a do conhecimento somente da mandala simbólica e de significados inerentes à sua própria linhagem. Muitas vezes esta limitação pode vir a gerar o engano de que há ensinamentos, métodos e professores melhores ou piores que outros. De fato, os melhores ensinamentos, métodos e professores são aqueles que ajudam a nos transformar em pessoas melhores e a nos desenvolver dentro do caminho espiritual.

Horizonte: Que lugar realmente ocupam as Escritas Sagradas (sânscrito, pali, tibetano, chinês, etc.) no Budismo? Se existirem textos em português considerados importantes no futuro, escritos por praticantes brasileiros de grande grau de realização espiritual, isso poderia alçar a Língua Portuguesa ao mesmo nível dos textos e da língua dos tibetanos?

Gabriel: Podemos constatar através de fatos históricos que Buda Sakyamuni nasceu, viveu e se iluminou concomitantemente à cultura religiosa dominante na época, o Hinduísmo. As escrituras sagradas dos Vedas e da Yoga foram compiladas e preservadas em língua sânscrita. Assim, todo o treinamento e cultos religiosos da época eram proferidos basicamente em língua sânscrita.
O povo era naturalmente embebido pelos conceitos provindos de tal segmento espiritual. O próprio Buda, ainda jovem, com o nome de Sidarta foi batizado e treinado no aprendizado das bases de sua cultura e religião. Posteriormente, ele veio a ensinar para este povo nestes padrões, dentro desta linguagem e universo conceitual. Naturalmente, constatamos muitas idéias afins e outras das quais Buda resignificou, ainda assim, em grande parte, usando a mesma terminologia contida nas escrituras sagradas Hindus.
É dito que Buda passou grandes períodos ensinando na região de Magadha e pela região do reino de Patna, na Índia. Lá ele haveria ensinado no próprio dialeto local e posteriormente, após seu falecimento, seus ensinamentos vieram a ser compilados neste mesmo dialeto, o Maghadi. De fato, não havia um idioma chamado Páli. Isto foi uma terminologia estabelecida posteriormente, quando os textos do cânone budista foram para fora da Índia. Entretanto, há diversas perspectivas e teses diferentes quanto à verdadeira origem da língua a que chamamos de Páli nos dias de hoje, como também quanto a qual língua o Buda teria usado na grande maioria de seus discursos.
Os ensinamentos contidos em língua páli incluem o que foi proferido e relembrado pelos discípulos do Buda em três grandes concílios após seu falecimento. Durante este período muitos outros sutras ou textos contendo as palavras de Buda foram surgindo. Grande parte destes não foi aceita dentro dos concílios, e algumas pequenas cisões na sanga ocorreram. Em meados de 100/200 a.C. ocorreu um novo concílio organizado pela parte excluída, no qual foram incluídos os sutras já existentes e adicionados muitos outros. Tal novo concílio compilou estes ensinamentos na língua sânscrita, dando surgimento ao canône budista em sânscrito e ao movimento Mahayana do budismo. A partir do século III d.C. a Índia passou a receber a visita constante de peregrinos chineses em busca de conhecimento, em grande parte, do budismo. Muitos destes peregrinos passaram décadas estudando a língua, a filosofia, e praticando o caminho de Buda. Alguns tornaram-se grandes tradutores, e contribuíram em grande parte para a tradução dos textos do canône sânscrito para a língua chinesa. Desde o canône completo até tratados de medicina, astrologia e tantra estão incluídos no conjunto do canône budista em língua chinesa.
Posteriormente, em meados do século VII d.C., a partir de uma iniciativa do rei tibetano Trison Detsen, muitos peregrinos tibetanos foram enviados às terras sagradas da Índia com o propósito de estudar e trazer estes ensinamentos para serem enraizados no teto do mundo, o Tibete. Tomi Sambhota, um dos ministros assessores do rei, estudou a língua sânscrita e o budismo por 15 anos, na índia. Retornando ao Tibete, criou um sistema de escrita e gramática tibetana com base na língua sânscrita. Assim, se iniciou um processo de séculos de esforços tibetanos na tradução dos textos budistas contidos e preservados no sânscrito.
Durante todo este período, os textos budistas foram traduzidos para outras línguas orientais, mas podemos vir a realçar que nos dias de hoje, as principais línguas que preservaram e continuam a transmitir o budismo em sua integridade e totalidade são o páli, o sânscrito, o chinês e a língua tibetana. Entre estas, constatamos a importância de ambos, chinês e tibetano, devido à grande parte dos textos mahayana em sânscrito terem sido destruídos e perdidos ao longo da história da Índia. Tais textos foram preservados e podem ser acessados em sua íntegra nos canônes chinês e tibetano.
Entretanto o budismo, ou melhor, a visão de Buda, não está presa ou limitada ao contexto semântico e conceitual das escrituras. O Buda se expressa de forma perfeita e completa através da realização e experiência direta de seus ensinamentos. O transmitir desta experiência e a liberação que ela traz consigo são os meios hábeis e extraordinários dos grandes mestres desde o próprio Buda. Acredito que o nível de importância não está propriamente na língua pela qual tais ensinamentos foram preservados e são transmitidos. Mas, sim, na capacidade de liberação que eles possam vir a ter. Em um nível talvez até um pouco extremo, mas importante de ser refletido, poderíamos vir a perguntar: se os ensinamentos não proporcionarem liberação, mesmo que estes sejam as palavras do próprio Buda, qual seria sua funcionalidade?
Podemos perceber que as palavras de Buda perduram, sua essência é dotada tanto de qualidades essencialmente humanas como de uma sabedoria que transcende a própria concepção de humanidade e existência. Tal essência continua a ser estudada, tal caminho oferecido continua a ser trilhado. Os resultados continuam a ser verificados e aplicados dentro de contextos e culturas completamente diferentes ao longo da história. Ainda que adaptados à linguagem, contexto local e as tendências e pré-disposições de seus ouvintes, tais ensinamentos proferidos por brasileiros ou tibetanos, ocidentais ou asiáticos, serão sempre como se fossem as próprias palavras do Buda, caso provenham da mente brilhante e livre, presente em todos os seres.

Horizonte: O que você pensa da idéia cada vez mais difundida de que logo nascerá uma escola de "Budismo Ocidental", fruto do contato da cultura oriental com a ocidental, através de adaptações, como fizeram os tibetanos ao adaptar o Dharma budista à sua realidade? No que esta suposta escola poderia ser diferente das escolas tibetanas, por exemplo?

Gabriel: Acredito que este seja um processo natural, como ocorreu em todas as culturas pelas quais o Budismo foi transmitido e incorporado. É fácil de perceber hoje, vivendo imerso na cultura tibetana, como o Budismo é praticado aqui, e no Brasil; quais os motivos pelos quais os brasileiros vêm à busca da espiritualidade e do Budismo, como também o universo de contato e diálogo que o Budismo passa a encontrar sendo absorvido e aplicado dentro de nossa cultura.
O Brasil, como o ocidente em geral, nos últimos séculos vem sofrendo grandes transformações científicas, tecnológicas e político-econômicas. Estamos nós, brasileiros, vivendo este período de descobertas e do usufruir do resultado de nossas descobertas. A ciência se mostra interessante e benéfica dentro desta perspectiva. Grande parte do povo, incluindo a parte intelectual e a mais isenta de educação, demonstra uma especial confiança na ciência e nos resultados que vêm trazendo tanto a nível tecnológico, como também em outras áreas, como a medicina. Talvez possamos dizer que nossa comunidade tenha gerado uma espécie de fé na ciência. Entretanto, essa corrida e busca pelo desenvolvimento científico e tecnológico tem demonstrado muitas falhas ao longo de seu processo, principalmente a nível humano e de bom senso, como também espiritual. É natural observar este contato e buscas de soluções, já em tentativa por outros segmentos religiosos. Muitos destes vêm suprindo e preenchendo diferentes áreas de necessidade. O Budismo vem chegando nesta época, apresentando tanto uma qualidade especial e inteligente de diálogo com as várias ciências quanto meios de preencher e compatibilizar o cultivo de qualidades humanas junto ao próprio progresso científico-tecnológico.
Um outro aspecto que observo, particularmente em nosso povo brasileiro, é o fato de que somos um povo, em grande parte, de muita fé. Acreditar em algo, em algum propósito mais elevado, nos movimenta, nos preenche e nos dá sentido. Vemos, desde a Igreja Católica até as práticas da Umbanda e xamânicas, uma grande enfâse nos rituais. Tais cerimônias transportam as pessoas para um âmbito incomum ao corriqueiro de suas vidas. Um universo onde elas passam a sentir mais seus corações e sentimentos, como também um mergulho interno nas profundezas de seu ser. Neste âmbito vemos uma forte atração pelo Budismo Vajrayana Tântrico e sua influência na transformação de muitos brasileiros.
Acredito que um “Budismo brasileiro” não será um Budismo diferente em essência do original, mas tomará forma a partir do que nós brasileiros buscamos nele, como também quais métodos melhor nos levarão ao resultado pretendido. Quem vem à Ásia e vê o Budismo “original” presente nestes países, percebe já de imediato muitos sinais característicos de como o Budismo vem se estabelecendo e sendo aplicado no Brasil e no ocidente em geral.

Horizonte: Por que entre os praticantes budistas espalhados pelo mundo não se tem notícias de fundamentalismo radical e violento, como, infelizmente, vemos em praticantes de outras religiões? A percepção que o público em geral tem de que no Budismo isso não ocorre é verdadeira?

Gabriel: Acredito que em todas as religiões encontramos praticantes fundamentalistas e alguns violentos. Entretanto, isto não quer dizer que estes estejam seguindo os preceitos de seu caminho espiritual. Ou talvez, os mesmos tenham se identificado mais com algum tipo de abordagem de seu caminho e o interpretado de uma forma limitada de acordo com suas próprias pré-concepções, tendências e objetivos. A partir disto, podemos ver um possível surgimento de um “materialismo espiritual” gerador de fundamentalismo e violência. No caso do Budismo, ainda que encontremos em alguns de seus praticantes fundamentalismo ou pelo menos tendências fundamentalistas, esta não é uma tendência geral. Por que? Penso que há uma forte tentativa do próprio Buda e dos mestres subseqüentes a purificar isto, a se contrapôr a estas tendências como se fossem os próprios obstáculos à realização do caminho de Buda. Vemos um intenso e claro incentivo ao desempenho de práticas e ações positivas e pacíficas, tais como generosidade, ética, compaixão, meditação e o cultivo de bom senso e sabedoria. O caminho budista está baseado nestas condutas, sem elas não há o Budismo.
Entretanto, encontramos sim, ao longo da história, fatos de disputas fundamentalistas e muitas vezes violentas entre grupos budistas. Mas relembro, isto não tem nada a ver com o Budismo, mas com “seres humanos”, como acredito que em grande parte, tais ocorrências em outras religiões, têm o mesmo fundamento.

Horizonte: Os monges tibetanos não podem casar, mas os monges da Escola Terra Pura japonesa podem, pelo que soube diretamente de um deles. No caso dos japoneses, isso teria sido permitido há séculos porque se constatou que muitos monges mantinham esposas às escondidas. Como esta questão é encarada no Budismo Tibetano? Um monge poderia casar? Como ficaria seu status, neste caso?

Gabriel: Acredito que este seja um tópico delicado de se tratar. Entretanto, tentarei expor algumas de minhas percepções quanto a isto. Quando retornamos à cultura indiana e hinduísta presente na época de Buda, vemos que haviam quatro principais etapas na vida de um bom Hindu. Estas seriam a infância, a adolescência (treinamento e estudos), o casamento e a criação dos filhos e uma última etapa, já na entrada da velhice, de dedicação total à espiritualidade e ascetismo.
Nesta última fase, o hindu deixa todos os seus apegos e afazeres mundanos com total renúncia e dedica-se única e exclusivamente à prática espiritual. Mesmo anterior a Buda, dentro da espiritualidade Hindu, podemos perceber a tendência a propor que sentimentos como apego, desejo, ódio e ignorância eram qualidades que nos afastavam do divino. Buda também veio a perceber tal obstáculo, e da mesma forma renuncia à vida de príncipe e toma um caminho ascético na floresta, junto a outros yoguis. Entretanto, Buda não propôs um formato rígido em seus ensinamentos, mas ensinou de acordo com as buscas e dificuldades das pessoas, ensinou tentando oferecer algum nível de liberação aos seus ouvintes. O cerne de seu caminho foi o monástico. Podemos vir a crer ter sido o próprio método que o levou à liberação ou ter sido o método que mais se adequava às pessoas de sua época.
Ao longo da história e da transmissão do Budismo nos diversos países, este vem se adaptando e se transformando às necessidades e dificuldades humanas e locais. Tanto na China como no Tibete houve tempos de perseguição ao Budismo e aos monges, onde os mesmos tiveram que deixar seus votos ou viver à “paisana”, em meio a atividades mundanas, ainda que secretamente mantendo seus estudos e práticas budistas a nível interior. Tais ocorrências vieram a proporcionar uma nova categoria de “monge” ou “yogue” ou “praticante do Buda-Dharma. Proporcionou a característica de se poder praticar os ensinamentos em quaisquer situações, mesmo que casado, com filhos e desempenhando funções comuns necessárias à sobrevivência. Tal perspectiva já era sustentada e praticada por grandes seres realizados na Índia, ainda que em muito menor número.
De acordo com a visão encontrada nos textos clássicos budistas em língua tibetana poderíamos dizer que a essência/natureza dos votos monásticos é, de acordo com a visão Madhyamika do vinaya, “a mente da renúncia”. Que renúncia seria esta? De acordo com a visão Mahayana dos votos, tal mente de renúncia não significa em sua essência a renúncia aos afazeres do mundo e suas ilimitadas manifestações (noção comum entre ocidentais para com a conduta dos monges), mas sim, de acordo com o veículo dos sravakas e dos preceitos pratimoksha, o que deve ser abandonado e renunciado é a “delusão”. Esta seria a essência/natureza dos preceitos pratimoksha. No caso do Budismo Tibetano, encontramos as diversas categorias de seres com suas variadas pré-disposições mentais, sendo detentores simultaneamente dos votos pratimoksha, bodisatva e tântricos. Como é possível para um monge praticar tais votos simultaneamente sem conflitos?
No pratimoksha toda ação de mente, fala e corpo deludida, ou tendo como base aflições como apego, inveja, raiva, etc., devem ser abandonadas, tanto para o próprio benefício como para o benefício dos outros (outra noção geralmente equivocada por ocidentais é dizer que os votos monásticos em essência são somente para benefício próprio). Tal visão é incorreta, pois isto está ligado à aspiração, busca, pré-disposições e método de uma categoria de praticantes específica, que foi nomeada como hinayana. Os votos monásticos podem ser tomados e observados dentro de uma perspectiva hinayana, Mahayana ou vajrayana.
Mas então, um monge deveria abandonar o veneno (devido a ser agente de sofrimento) de ações deludidas de corpo, fala e mente. Ou seja, não deveria matar, roubar, mentir, ter relações sexuais etc. Entretanto, a pergunta subseqüente seria: Como prática essencial do Mahayana, deveria um monge gerar compaixão aos seres e engajar-se na prática das seis paramitas? Da mesma forma, com base em seus votos tântricos, como um monge poderia cultivar a experiência direta da natureza perfeita e ausente de existência inerente sem tomar contato com os fenômenos que se apresentam, fugindo deles? Esta seria naturalmente uma quebra da essência de seus votos tântricos.
Dentro da perspectiva destas práticas talvez o monge encontre freqüentemente circunstâncias nas quais, tomado de compaixão e dotado dos meios hábeis, terá o natural movimento de agir para o benefício dos seres mesmo que isto venha a ser um falta para com algum preceito.
Como deveria proceder o monge neste caso? Talvez ele devesse abandonar a compaixão e seus votos de bodhichita e sua prática das paramitas, isolar-se e desculpar-se ao ser necessitado de ajuda?
Esta é exatamente a razão pela qual os votos monásticos, quando mantidos por seres com predisposições hinayanas, não atingem a iluminação completa, pois revificam e reforçam uma existência inerente ao agente, a ação e ao objeto do qual foi direcionado a ação. Como seria o contrário? Como um monge observaria seus votos pratimoksha junto ao cultivo da mente bodhichita e de seus votos de bodisatva? Como observar ambos junto ao treinamento de cultivar a percepção direta dos fenômenos em sua verdadeira natureza?
De acordo com o veículos dos sravakas e da observação dos preceitos pratimoksha, a delusão deve ser abandonada. Os Bodisatvas reconhecem que a delusão não tem uma existência inerente de forma verdadeira e, assim, a transformam na percepção direta da verdade última (dharmata). No mantra secreto, delusão é reconhecida como a natureza de sabedoria primordial e, através disso, é mantida como o próprio caminho. Desta forma, enquanto que todos concordam que a delusão deve ser abandonada, de acordo com o caráter individual de cada um, um método específico é aplicado. Uma analogia comum nas escrituras budistas é a de que veneno pode ser usado em três diferentes formas: 1. Pode ser rejeitado; 2. Usado como um componente para fazer um remédio; 3. “Empoderado” pelo mantra com base na realização direta de sua natureza e, assim ingerido. O conselho natural dos mestres, de acordo com estes ensinamentos, é o de que, se o praticante não tiver um nível de realização que reconhece diretamente a ausência de existência inerente dos fenômenos, não se terá o potencial de transformar o veneno e, assim, ele de fato envenenará a pessoa. Neste caso, é melhor rejeitar o veneno (ou seja, observar alguma categoria dos votos pratimoksha).
Da mesma forma, caso não se tiver a realização direta que reconhece os fenômenos como a própria manifestação da sabedoria e natureza última, é melhor não ingerí-lo, mas transformá-lo em um componente para a criação de um remédio (observação dos votos de bodisatva e cultivo da bodhichita). Por último, através da realização direta da perfeição e natureza do veneno, ingerí-lo não causará mal algum, mas se transformará no próprio caminho, em realização e qualidades transcendentais (observação dos votos tântricos e natural cultivo da percepção última).
Poderíamos dizer que a ação de um ser realizado não está limitada a qualquer regra ou contexto, mas fundada na compaixão e amor pelos seres e na capacidade de liberação através de sua ação. Caso queiramos penetrar neste nível de ação, podemos verificar através de um exame e controle de qualidade se estamos agindo baseados na realização e motivações acima ou se estaríamos simplesmente seguindo nossos sentimentos (apegos, desejos, invejas, raiva, etc.) e tendências cármicas arraigadas.
A primeira é a própria manifestação e exercício da liberdade última.
A segunda é o simples reforçar das grades de nossa própria prisão.

Horizonte: No livro “Sete anos no Tibet”, Heinrich Harrer diz que a homossexualidade é comum nos mosteiros tibetanos. Diz ainda que percebeu que os lamas toleram estas práticas porque, pelo menos, evitariam o contato dos monges com membros do sexo oposto, o que, segundo ele, é proibido com ênfase nos códigos de ética dos monastérios. Qual é a verdade desta afirmação? Perguntamos isso porque muitas pessoas que se dizem homossexuais gostariam de se tornar praticantes – monges ou leigos – e têm receio do preconceito que poderiam sofrer ao buscar o caminho budista, coisa comum em outras religiões. Como os mosteiros encaram isso?

Gabriel: Considero sua pergunta interessante. Me faz refletir sobre algumas coisas. Talvez iniciaria contando um pouco da minha própria experiência ao chegar e dar início à minha vida e rotina dentro de um monastério tibetano como monge. Digamos que foi um bombardeio de diferenças culturais... para com tudo.
Com referência a sua pergunta, tive algumas impressões quanto a uma forte tendência homossexual, não somente para com os monges tibetanos, mas para com os indianos do sexo masculino em geral. Culturamente os indianos andam de mãos dadas com seus amigos, demonstram carinho publicamente, sentam no colo um dos outros, fazem cafuné, etc.
Para mim, a primeira vez que vi tal cena, foi constatar com absoluta certeza que estava a presenciar uma grande comunidade homossexual na Índia (risos). Fui observando tal conduta por todos os lados...
Quando iniciei minha vida como monge no monastério tive o impulso de defesa em várias ocasiões... (risos) quando fui abordado por algum outro monge me abraçando, fazendo carinho no meu corpo ou entrelaçando seus dedos nos meus como namorados fazem no Brasil. Para um monge “gaúcho” tais sinais eram claros e dignos de serem interrompidos (risos).
Com o tempo, após alguns meses, percebi que não rolava mais nada além disto. Era uma demonstração de carinho entre amigos homens muito parecida à que temos em nossa cultura entre adolescentes do sexo feminino. Pude constatar este carinho publicamente e dentro das paredes dos quartos dos monastérios. Igual, nada a mais nem a menos.
Por outro lado, isto não quer dizer que não “exista homossexualismo” entre monges, como também que não existam monges que pulam a cerca (do monastério... risos) para exercitar seu heterossexualismo. Em um monastério encontramos seres humanos, não encontramos Budas. Alguns destes seres humanos já com um elevado grau de conhecimento e realização do caminho, outros recém iniciando, outros com muitas dificuldades, etc.
Entre estes tantos, encontramos grande parte dos monges sendo deixados por seus pais ainda muito jovens, na idade de cinco anos. Estes crescem dentro da estrutura do monastério, como crianças e adolescentes vivendo em um internato, em uma escola. Talvez não possamos dizer que os mesmos são de fato “monges”, mas sim que seguem as regras do monastério (ou preceitos monásticos) como um garoto segue as regras de uma escola. Usam as roupas monásticas como um menino usaria o uniforme escolar, e assim por diante. Tais crianças chegam a sua pré-adolescência e começam a ocorrer as transformações que levam à passagem para adolescência. Coisa que acontece com todo ser humano...
Isto inclui mudanças no corpo. Tais mudanças provocam a experiência de sensações diversas, prazerosas e desprazerosas no contato com as coisas e, estas, proporcionam uma diversidade de sentimentos inexistentes anteriormente. Tais mongezinhos vão experienciando estas mudanças dentro do ambiente do monastério. Curiosos e livres de malícia, vão experimentando estas novas sensações na forma de brincadeira com seus coleguinhas monges onde, em alguns casos surge uma grande proximidade, confiança e amizade entre os mais próximos (aqui não incluiria sexo, mas toque e carinho, como experiência).
Entretanto, como para todos nós, esta fase de descobertas passa, e entramos em nossa adolescência, onde começamos a fazer nossas escolhas e a desenvolver nossas formas de pensar e de nos inserir no mundo. Alguns monges decidem deixar seus votos, terem uma vida normal. Casam, constituem uma família, etc. Outros decidem continuar a vida monástica, e já maiores começam a compreender as limitações e abrangências deste caminho. Grande parte o toma com seriedade, e se tornam bons monges. Outros, manifestam grandes dificuldades de lidar com variados sentimentos e mesmo usando as vestes monásticas acabam transgredindo seus votos algumas vezes. Estes, se descobertos, são convidados a deixar o monastério, tanto por terem transgredido seus preceitos como por não serem um bom exemplo para a comunidade monástica.
Nunca ouvi ou vi qualquer incentivo quanto à conduta homossexual como substituindo a conduta ou vontade heterossexual dentro de um monastério. Tanto uma como a outra quebram os votos de renúncia de um monge ligados ao abandono da delusão e de suas causas.
Entretanto, para com um praticante leigo, não vejo grande motivo para discriminação. A raiz da ação ser negativa ou não, não está na própria ação, mas em seus resultados. Uma ação, seja ela heterossexual ou homossexual, desempenhada na base de desejo e apego, reforça nossa delusão e nossa prisão frente a estes sentimentos. Assim, ela é considerada como um obstáculo dentro do caminho budista. Ainda assim, se gerarmos a “visão” da natureza verdadeira do agente, da ação e do objeto do qual a ação é direcionada, não há apego ou desejo, mas há somente uma dança da mente primordial e das energias puras do corpo correndo através canais por toda a extensão do corpo. Isto equivale a “qualquer ação ou contato com a realidade”. Agora, poderíamos dizer, que para isto, precisamos de “algum” treinamento.

Horizonte: Para encerrar, gostaríamos que você fizesse suas considerações finais e deixasse uma mensagem de motivação para nossos leitores, que são pessoas que buscam a espiritualidade nas mais variadas formas de expressão.

Gabriel: Acredito que todos nós desejamos felicidade, desejamos nos afastar do sofrimento. Este é um sentimento básico de um ser humano. Não afirmaria que o Budismo, ou qualquer outra religião, seria o meio definitivo para todos os seres satisfazerem esta aspiração. Acredito que somos dotados do livre-arbítrio de escolhermos nosso caminho e de delinearmos nossos objetivos de vida.
Entretanto, jogo a pergunta: São nossas escolhas e objetivos realmente tomados por livre- arbítrio ou são elas manifestações de nossas próprias tendências habituais e pré-concepções?
Penso que para alguns o Budismo é muito benéfico, para outros o Cristianismo, Judaísmo, a própria Ciência…tudo dependende de nossas verdadeiras buscas. Tenho constatado que nossa felicidade não está somente na dependência de nós mesmos, mas em como nos relacionamos com o mundo e as pessoas ao nosso redor.
Relações positivas constroem um universo positivo ao nosso redor. Ao compreendermos isto, talvez venha a ser natural refletir sobre ecologia, bom senso, compaixão, diálogo, meditação e uma inserção benéfica na sociedade.
Desejo a todos vocês boas reflexões. Recebam minhas preces e melhores votos de paz, alegria e sabedoria.

Gabriel Jaeger (Monge Ngawang Tenphel). Dzongsar Chokyi Lodro Shedra - Índia

 

A Ordem do Templo e os Descobrimentos Portugueses (1ª parte)



[Manuel O. Pina]

Introdução
Falar da Ordem do Templo, mais conhecida vulgarmente como Ordem dos Templários ou, simplesmente, Templários, em ligação com os Descobrimentos Portugueses pode parecer à primeira vista estranho pois, aparentemente, nada tem a ver uma coisa com a outra: a Ordem do Templo aparece no início do século XII, fundada oficialmente em 1118, e os Descobrimentos Portugueses começam quase três séculos mais tarde, no final do século XIV, e prolongam-se pelo século XV e início do século XVI. Quando se iniciam as primeiras viagens marítimas dos portugueses, já a Ordem do Templo fora extinta por decreto papal (bula), os seus membros perseguidos, torturados e mortos, principalmente em França, país de onde terão saído os cavaleiros que a haviam criado.
Existem centenas, talvez milhares de livros sobre a Ordem do Templo. No entanto, quanto mais se escreve, quanto mais se pesquisa parece que os mistérios que a rodeiam se adensam, tornando-nos incapazes de perceber como é que uma organização inicialmente criada sob um voto de pobreza (ela chamava-se “Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo”), com a finalidade de defesa dos peregrinos em viagem à Terra Santa e Jerusalém, se torna num curto espaço de tempo na organização mais poderosa e mais rica da Europa, ao ponto de não só o papa, como reis e imperadores preferirem manter as melhores relações com ela a enfrentar o seu poder de alguma forma. Durante o tempo em que existiu, a Ordem do Templo era quem mandava, efectivamente na Europa.
Nessa altura, a Europa era o mundo. Nada mais existia a não ser mitos e fantasias. O mundo reduzia-se ao Oriente próximo, norte de África e, especialmente, a Europa. Mandando na Europa, os Templários eram na verdade os senhores do mundo.
O conhecimento que eles demonstraram ter na época ainda hoje nos espanta. Vivendo em pleno final da Idade Média, uns dois séculos antes do movimento renascentista, eles dominavam a matemática e a arquitectura com conhecimentos que ultrapassavam em muito o que se sabia na época. Como exemplo deste conhecimento deixaram-nos aquelas jóias maravilhosas chamadas de catedrais góticas cujos segredos de construção há muito perdidos continuam a fascinar os arquitectos de hoje. Eles fizeram com que o comércio se desenvolvesse de maneira espantosa ao criarem a “carta de crédito”, uma inovação que dinamizou os negócios a distância e fez desaparecer os perigos do transporte de grandes somas em dinheiro (ouro), sempre sujeito a roubos e assaltos nas estradas europeias. Assim, por exemplo, alguém em França que tivesse negócios com Espanha e precisasse de efectuar o pagamento entregava o valor aos templários em França, que emitiam a “carta de crédito”. Em Espanha os Templários devolviam o dinheiro mediante a “carta de crédito” apresentada, deduzindo naturalmente os juros da transacção. Podemos dizer que foram eles os fundadores das modernas instituições bancárias.
Por outro lado, no plano esotérico ou espiritual, eles apoderaram-se e ocuparam todos os pontos onde, desde a mais remota antiguidade se sabia serem pontos de energias telúricas especiais. O paganismo havia aí construído os seus locais de culto. Os templários substituíram-nos por capelas devotas à Senhora do Ó, a São Miguel, a Maria Madalena.
Os Templários foram, no seu tempo, o que podemos chamar de uma “grande multinacional”, uma vez que operavam em quase todos os países existentes na época com uma organização uniforme. Eles foram o que a Igreja Católica veio a ser mais tarde, por meios menos lícitos, principalmente a partir da Inquisição. Os Templários tinham uma hierarquia perfeitamente definida, uma regra única e espalhavam-se pelos diversos países na forma de Priorados, cada um dos quais com a sua própria hierarquia encabeçada pelo Grão-Mestre. As autoridades locais, os reis, os imperadores, não tinham nenhum poder sobre eles – eram como um Estado dentro de outro Estado.
Tendo sido inovadores na sua organização como protótipos das grandes multinacionais dos dias de hoje, foram também inovadores nos aspectos de publicidade e “marketing”, a grande arma das empresas dos nossos dias. Eles lançaram talvez a primeira grande campanha de “marketing” de que há registo na História, que foi a saga dos Cavaleiros da Távola Redonda, do Rei Artur e a demanda do Santo Graal. Não se sabe bem se o rei Artur existiu de facto ou se foi a transformação em mito de uma divindade celta. Não se sabe bem onde ficava Avalon, A maioria apontam-na em Inglaterra mas a saga do rei Artur fala da Bretanha, e a Bretanha, região de grande implantação celta, fica situada no noroeste da França. Por outro lado a historia do rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola Redonda é escrita mais de 500 anos depois da sua provável existência.
A demanda do Santo Graal é também escrita no século XII, época de grande expansão templária na Europa. Os seus principais escritores, Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach viveram nesse século.
As virtudes atribuídas aos Cavaleiros da Távola Redonda, são as virtudes atribuídas aos Cavaleiros Templários. Os Cavaleiros Templários são também considerados como os “Guardiães do Santo Graal”. Foi esta a grande primeira campanha de “marketing” que se conhece da História e catapultou os Templários, tornando-os conhecidos, respeitados e temidos em toda a Europa, e adensando os mistérios que os rodeavam.
António José Saraiva, ilustre historiador da cultura portuguesa, afirma que os “os templários são ainda hoje (e sobretudo hoje) uma instituição difícil de entender”. Para Paulo Alexandre Loução, autor de alguns livros sobre os templários, diz que “não poderia estar mais de acordo. Estando a Ordem do Templo tão ligada ao gnosticismo primitivo e à tradição esotérica universal, tal não é para admirar. A seu ver, só podemos compreender esta Cavalaria dó Graal, penetrando, na medida do possível, na sua missão esotérica”.
Como verdadeira Escola de Mistérios, a Ordem do Templo encerra em si, ainda hoje, muitos mistérios. Ninguém sabe qual a razão da sua formação e quais eram os seus reais objectivos. Sabe-se apenas que 9 Cavaleiros demandaram a Palestina integrados na 1ª Cruzada e aí fundaram a Ordem, inicialmente como Milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo, com a missão de defenderem os peregrinos à Terra Santa. Destes 9 Cavaleiros, alguns estão perfeitamente identificados, como Hughes de Payens, que foi seu primeiro Grão-Mestre entre 1118 e 1136. Seriam todos oriundos do centro da Europa, França, mas sobre alguns existem sérias dúvidas sobre a sua verdadeira identidade.
O que motivou estes 9 Cavaleiros a formarem a Ordem do Templo? Victor Mendanha diz no seu livro “História Misteriosa de Portugal” que, “por detrás de uma Ordem Secreta existe sempre outra Ordem Secreta”. Raymond Bernard, no seu livro “As Mansões Secretas da Rosacruz” informa-nos de que Cavaleiros e Mestres Espirituais de várias regiões da Europa se terão reunido na famosa “Gruta Ferrata”, próximo de Roma, e aí, numa cerimónia muito especial, terão decidido a criação da Ordem do Templo. Para alguns, esta reunião teria sido realizada por uma sociedade secreta, hoje tão controversa, denominada “Priorado do Sião”. O que é facto é que a tradição fala de uma colaboração estreita entre a Ordem do Templo e o Priorado do Sião, sendo aquela o braço armado desta. Esta colaboração terá cessado por motivos que ainda hoje desconhecemos e teria sido consumada numa cerimónia denominada “O Corte do Olmo”.
Os reais objectivos da Ordem do Templo permanecem na obscuridade. Aqueles 9 Cavaleiros mantiveram-se em Jerusalém durante 9 anos. Durante este tempo não há notícia de terem admitido mais ninguém nas suas fileiras. Não vemos como é que uma força de 9 Cavaleiros poderia oferecer alguma protecção eficaz aos peregrinos da Terra Santa. Conta-se que tomaram como residência inicial os antigos estábulos do Templo de Salomão e aí terem descoberto segredos que lhes permitiram desenvolver rapidamente a sua organização e atingirem um poder tal que os colocava acima dos soberanos da época. Para mim, como mais tarde se veio a demonstrar na génese de Portugal, os seus objectivos eram dois:

Entrar em contacto com o gnosticismo das primitivas igrejas cristãs.
Entrar em contacto com o mundo esotérico islâmico.

Desta forma pretendia-se unir a tradição ocidental com a tradição oriental.
O que é facto é que alguma coisa aconteceu durante a permanência desses 9 Cavaleiros em Jerusalém. Não é possível atingir-se o poder que a Ordem do Templo atingiu se não se possui um grande segredo que atemorize os senhores mais poderosos da Terra, reis, imperadores e a Igreja de Roma. Que segredo era esse? Talvez documentos sobre a verdadeira história de Jesus e as primitivas igrejas cristãs.
Como se sabe, foi S. Jerónimo que compilou os Evangelhos e os organizou na vulgata, para nós designada como Bíblia. Numa carta aos bispos Chromatius e Heliodorus fala de um Evangelho secreto de S. Mateus, escrito em hebraico pelo próprio punho de S. Mateus. Segundo S. Jerónimo “continha matérias que são mais para destruir (a igreja de Roma) do que para edificar.
A Ordem do Templo, apesar da vastíssima e variada documentação publicada a seu respeito, muita da qual não corresponde minimamente à verdade, continua, depois de toda a pesquisa que tem sido efectuada, a guardar um segredo, aparentemente inviolável. Segundo Fernando Pessoa, ela foi implantada para tentar encontrar o segredo que foi perdido. Diz mais Fernando Pessoa:

“Cristo foi morto pela incompreensão dos judeus, pelo fanatismo da Ordem Sacerdotal e pelo poder da Ordem Materialista de Roma.
A Ordem do Templo foi morta pela incompreensão de alguns dos seus membros, que a denunciaram, pelo fanatismo de Roma e pela Ordem Temporal na pessoa do rei de França.
Morta deste modo, só a sua morte sobreviveu, e a demanda consiste em descobrir o que se esconde sob ela”.


Os Templários em Portugal
Alguém já afirmou que Portugal foi fundado como uma nação templária. Esta não é uma afirmação gratuita pois há numerosos indícios que nos podem levar a essa conclusão.
A fundação de Portugal e da Ordem do Templo acontecem ao mesmo tempo: a Ordem do Templo foi fundada em 1118 e, ainda que a independência definitiva de Portugal só tenha ocorrido em 1143, podemos considerar que a batalha de S. Mamede, de D. Afonso Henriques contra sua mãe D. Teresa em 1128, no dia de S. João Baptista, estabelece a independência de facto. S. João Baptista é o santo mais venerado pelos Templários. Coincidência? Vejamos.
Dentro da Igreja Católica o grande defensor e promotor da Ordem do Templo junto ao Papa, e que lhe confere as regras à semelhança das da Ordem Monástica de Cister, é o abade Bernardo de Claraval, hoje S. Bernardo. É através dele que a Ordem do Templo é reconhecida pela Igreja de Roma. Bernardo de Claraval é primo do Conde D. Henrique, que é natural da Borgonha e que veio para a Península Ibérica onde lhe foi dado a governar o Condado Portucalense. D. Henrique esteve na Terra Santa pouco antes da fundação da Ordem do Templo.
O Conde D. Henrique, esposo de D. Teresa e pai do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, é oriundo da Borgonha, região de onde partiram alguns dos Cavaleiros que fundaram a Ordem do Templo. Desta forma, D. Afonso Henriques também era primo de Bernardo de Claraval.
Bernardo do Claraval é também o grande advogado e defensor da independência de Portugal, e foi graças à sua influência junto da Santa Sé que a independência de Portugal foi reconhecida pelo Papa.
Os 9 Cavaleiros fundadores da Ordem do Templo permanecem em Jerusalém até, pelo menos, ao ano de 1127. No entanto. Há registos de que os Templários já estavam instalados em Portugal em 1126, pertencendo-lhes já nessa altura as terras de Font’Arcada e o castelo de Soure, doações feitas por D. Teresa, na altura já viúva do Conde D. Henrique.
Na batalha de S. Mamede, o então infante D. Afonso Henriques vence as forças de sua mãe, D. Teresa, e toma as rédeas do poder. D. Afonso Henriques, já aclamado rei, concede à Ordem de Cister, a Ordem de S. Bernardo, vastas regalias e privilégios, doação de terras e construção do Mosteiro de Alcobaça.
O território português abrange quase a totalidade da antiga Lusitânia, nome que etimologicamente significa “expansão da luz”. Luz, como todos sabemos significa “conhecimento”. Não quer dizer que o conhecimento tivesse origem na Lusitânia, mas que lhe competia expandi-lo recolhendo-o de onde ele estivesse. E foi isto mesmo que aconteceu mais tarde. Portugal levou e trouxe; levou o que de melhor havia na Europa em matéria de conhecimento científico e trouxe para a Europa o conhecimento de outros povos. Esta missão, prevista ou não pelos Templários, mas queremos acreditar que sim, no dizer de Jaime Cortesão, na sua “História dos Descobrimentos Portugueses” “(…) a obra da unificação humana.”
Mas para que esta obra de unificação humana pudesse ser realizada, era necessário reunir os meios e as condições. A fundação de Portugal, no extremo ocidental da Europa, virado para o grande mar Atlântico, cumpria uma das primeiras condições. A outra seria a de expandir o seu território e garantir a independência e estabilidade de fronteiras. A Ordem do Templo teve participação muito activa na conquista e consolidação do território português, alargando as suas fronteiras até às que hoje ainda conserva, tornando Portugal o país com as fronteiras mais antigas da Europa.
Já vimos que um dos objectivos da Ordem do Templo na Palestina era o de entrar em contacto com o gnosticismo primitivo das primeiras igrejas cristãs. Ora ninguém sabe como é que o Cristianismo chegou à Península Ibérica. Talvez tivesse chegado pelo norte de África, uma vez que se mantinham contactos e relações entre a península e os estados mouros africanos. No século IV surgiu um movimento gnóstico cristão que marcou de forma indelével a religiosidade dos povos da Galiza e da Lusitânia. A este movimento chamou-se “Priscilianismo. Este movimento está na base do cristianismo português que mais tarde os Templários, a Ordem de Cister, a rainha Stª Isabel, os frades franciscanos e a Ordem de Cristo modelaram.
Aquele que deu o nome ao movimento, Prisciliano, era um galego rico, instruído e de estirpe nobre. Aparentemente viajou pelo Egipto e pela Síria onde se terá iniciado nas doutrinas gnósticas. Ao chegar ao território que mais tarde veio a ser Portugal, encontrou já um grupo de gnósticos liderado por um Mestre Marcos. O priscilianismo, logo catalogado de heresia pela Igreja de Roma, teve forte implantação no território e durou até à fundação de Portugal.
O priscialianismo era uma Confraria formada por uma elite muito culta e que, paradoxalmente, teve também forte adesão popular. Praticavam o ideal da fraternidade humana, tinham reuniões nocturnas e secretas e o seu ensinamento era iniciático, razão pela qual o voto de silêncio era total. A Confraria era formada por homens e mulheres, estando estas em total igualdade com aqueles, tendo muitas um papel activo nas liturgias, como era norma entre os movimentos gnósticos. Defendiam o livre exame e a investigação individual das escrituras e adoptaram muitos dos Evangelhos apócrifos.
Este movimento foi considerado herético pela Igreja de Roma, que não podia permitir que a sua doutrina prosperasse, pois já suscitara a atenção de gente tão importante como Sto. Agostinho. Prisciliano acabou por ser assassinado legalmente pela Igreja de Roma, em nome de Deus e do Cristianismo.
Os Templários encontraram assim terreno fértil para a sua implantação.
A Ordem do Templo tinha duas faces, a invisível e a visível. A invisível era secreta e constituía o seu núcleo duro. A face visível era a manifestação da vontade ditada pela face invisível. Não é de estranhar assim que, D. Afonso Henriques tenha pertencido a essa face invisível, tal foi a colaboração que ele recebeu da Ordem nas suas campanhas de conquista do território. Não se sabe qual a função que ele desempenhava na Ordem, mas tratando-se do monarca, essa função teria que ser importante.
Com o alargamento territorial impunha-se estabelecer as bases da sua administração e defesa. As Ordens Monásticas, principalmente as que tinham uma componente guerreira, foram as grandes beneficiadas na distribuição de terras e doações. A Ordem do Templo recebeu uma parte importante dessas doações. Muitos dos castelos localizados em pontos estratégicos foram construídos pela Ordem do Templo.
Os Templários tinham particular estima por S. João Baptista e São Miguel Arcanjo. Já vimos que a batalha de S. Mamede foi travada no dia de S. João Baptista. O Patrono de Portugal até ao século XVII era São Miguel Arcanjo transformado em S. Jorge.
Os reis que sucederam a D. Afonso Henriques, sempre ajudados pelos Templários, continuaram o trabalho de consolidação territorial, estabelecendo as fronteiras mais antigas da Europa. Mas foi com D. Dinis que os meios ganharam um forte impulso. Quando falo em meios, quero dizer que não é possível um país, grande ou pequeno, lançar-se numa aventura marítima, como o fez Portugal, se não tiver os navios e os materiais para os construir.
D. Dinis foi rei entre 1279 e 1325. Os Descobrimentos Portugueses começaram com a redescoberta da Ilha da Madeira em 1420 e dos Açores em 1427 no reinado de D. João I, cerca de 100 anos depois de D. Dinis. Casado com Isabel, princesa de Aragão, mais tarde rainha Sta. Isabel, D. Dinis foi autor de uma obra extraordinária:

Desenvolveu a agricultura tornando o país autónomo neste capítulo
Fundou a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo.
Como pessoa de grande cultura para a época, apoiou as artes e as letras, ele próprio poeta e autor de numerosos poemas e “cantigas de amigo” e “cantigas de maldizer”.
Desenvolveu a construção naval, criando uma armada.
Conduziu as negociações e firmou o primeiro tratado de aliança com a Inglaterra, um tratado que ainda se encontra em vigor e foi útil a Portugal em diversas ocasiões.
Mandou florestar o território e plantar pinhais, como o de Leiria, que viriam a dar, 100 anos mais tarde a matéria-prima para a construção das caravelas que viriam a navegar por todo o planeta.
Foi um diplomata de enorme talento, como ficou provado na questão dos Templários.

A forma como D. Dinis tratou a questão dos Templários foi talvez a realização mais notável do seu reinado.
Felipe IV de França, conhecido como Felipe o Belo, temeroso do poder da Ordem do Templo, que constituía um Estado dentro do Estado, e ambicionando as riquezas que esta parecia possuir, com o apoio do Papa Clemente V mandou prender todos os Cavaleiros do Templo, numa sexta-feira dia 13 de Outubro de 1307. O Papa aprovou a extinção da Ordem do Templo no Concílio de Viena em 1312. A maioria dos Templários foi executada na fogueira, incluindo o seu Grão-Mestre Jacques de Molay, em 1314. O rei Filipe tentou tomar posse dos tesouros dos templários, no entanto quando seus homens chegaram ao porto, a frota templária já havia partido misteriosamente com todos os tesouros, e jamais foi encontrada. Os possíveis destinos dessa frota seriam Portugal, onde os templários seriam protegidos; Inglaterra, onde se poderiam refugiar por algum tempo, e Escócia onde também se poderiam refugiar com bastante segurança.
É de supor que essa frota ou parte dessa frota tenha demandado portos portugueses.
Quando D. Dinis recebeu instruções de Roma para extinguir a Ordem do Templo e prender os seus Cavaleiros, não fez nada disso. Rodeou a questão com rara mestria: protegeu os Templários portugueses e os que haviam fugido de França e procurado refúgio em Portugal; criou uma nova Ordem, a que chamou “Ordem de Cristo” e transferiu para ela todos os bens dos Templários e os próprios Cavaleiros; e o mais extraordinário de tudo, conseguiu a aprovação do Papa para esta mudança e para a nova “Ordem de Cristo”.
Que motivos tinha D. Dinis para assim proceder? Quando em toda a Europa os Templários foram perseguidos, presos, torturados e queimados na fogueira, D. Dinis protege-os e acolhe-os na “Ordem de Cristo” cujo emblema irá emoldurar as velas das caravelas portuguesas.
E o que é que teria motivado D. Dinis quando resolveu nacionalizar outras Ordens, como a de Santiago, libertando-a da dependência da Ordem do mesmo nome de Castela e Leão, como a Ordem de Avis, libertando-a dos laços que a ligavam à sua irmã castelhana “Ordem de Calatrava”.
A protecção da Ordem do Templo por D. Dinis começa logo no início do seu reinado. No livro do mestrado de Cristo da Chancelaria de D. Manuel I, podemos ler o seguinte:

“D.Dinis diz que o Mestre da Cavalaria do Templo lhe mandou dizer que ricos-homens, cavaleiros, alcaides e outros homens pousam nos casais e lugares da Ordem do Templo, e fazem muito mal e muita força, e filham ende pão e vinho, carne e cevada e outras cousas, contra a vontade sua e dos que hi moram.
Isso, diz El-Rei, só ele o pode fazer: quem o fizer ficará por seu inimigo”


Logo que a ordem do Papa foi recebida, D. Dinis determinou de imediato que ninguém tocasse nem nos bens nem nos próprios Cavaleiros, gorando assim a expectativa de muitos membros do clero que logo começaram a tentar apropriar-se de propriedades templárias. O próprio Papa, na altura João XXII, viu neutralizada pelo rei português a sua oferta do castelo de Tomar ao seu amigo Cardeal Bertrand.
D. Isabel, a esposa de D. Dinis, que viria a tornar-se santa pelos muitos milagres que lhe são atribuídos, foi a principal promotora do culto do Espírito Santo em Portugal. Este culto era muito caro aos templários que o haviam levado para Portugal e que também constituía uma heresia aos olhos de Roma. O aio de D. Isabel era Cavaleiro Templário. Quando o clero, apoiado por Roma, quis abolir o culto do Espírito Santo, nada pôde fazer, pois este culto tinha o apoio explícito do rei, da rainha, da Ordem do Templo e mais tarde da Ordem de Cristo.

 

Os Paradigmas da Era de Aquário (versão completa)



[MARTA SILVA LOWENSTEIN - Revisão e correção, a pedido
da autora, por VITOR DE FIGUEIREDO]


Inicialmente, parece-nos cabível e necessário definir o significado da palavra latina PARADEIGMA; o que, realmente, significa este termo.
“Paradeigma”, em grego, significa exemplo, norma, modelo ou padrão, paradigma.
Na Filosofia Platónica, é o “mundo das ideias”, protótipo do mundo sensível em que vivemos. Platão usa este termo na seguinte sentença: “Talvez se encontre no céu um paradigma para este que, tendo-o precedido, quer lá se estabelecer.”
Ainda a propósito de paradigma, Pierre Weil afirma que: “Na sua origem, o termo foi usado mais especialmente em linguística, para designar em gramática um exemplo tipo.” E acrescenta: “A força de um paradigma reside no consenso de uma determinada comunidade científica, em certa época.”
“Uma revolução científica é, antes de tudo, uma revolução de paradigma. Quando uma geração de cientistas produz uma nova síntese, a antiga geração se extingue e dá lugar a uma nova geração, que adere ao novo paradigma. Alguns teimam em se agarrar a alguns aspectos ultrapassados do antigo paradigma; são fatalmente erradicados do novo meio ou da nova comunidade científica, e às vezes se agrupam para constituir grupos “ortodoxos.” A respeitabilidade de um cientista é uma consequência directa da sua adesão ao novo paradigma.”… “A transição de um paradigma para outro caracteriza-se por uma crise.”
Diz Edgar Morin: “… paradigma é um modelo conceptual que dirige todos os novos discursos.”
Enfim, um paradigma acaba sendo, por consenso, uma palavra que especifica, que individualiza o que seria mais do que um modelo, mais do que uma regra ou de um conjunto de regras ou conceitos. Paradigma é um termo abrangente para modelo ou conceito, onde se toma uma ideia como um alicerce para a actuação, para o discurso.
Os “Paradigmas da Era de Aquário…”. Uma Era seria uma época que, no nosso caso, é um ciclo astrológico de 2 160 anos.
À medida que o Sol se desloca, aparentemente, pela Esfera Celeste, coloca-se em alinhamento com determinadas constelações estelares. Pela sua característica aparente de movimentação, a cada dois mil cento e sessenta anos, ele passa para uma diferente constelação. Este movimento do Sol (aparente) chama-se precessão. Quando ele se acerca de uma outra determinada constelação, após os dois mil cento e sessenta anos, diz-se que se completou uma Era, e às Eras foram dados, simbolicamente, os nomes das respectivas constelações.
Podemos tentar dizer isto de outra maneira, com uma explicação mais técnica (ou astrológica), necessária para aqueles que não estão familiarizados com a Astronomia e a Astrologia. Todavia, talvez esta explicação, apesar da tentativa bem intencionada, não ajude muito mas, em nossa opinião, é válida:

Em 130 a.C., O filósofo, astrónomo e matemático grego, Hiparco, em resultado da sua observação regular de 1 020 estrelas, que lhe serviram de referência, constatou que o chamado Ponto Vernal (ponto equinocial da Primavera), que é o ponto de intersecção da eclíptica com o Equador Celeste, não é fixo. Este Ponto desloca-se com movimento regressivo (anti-horário), atrasando-se 30º (um signo do Zodíaco) em cada 2160 anos e dando uma volta completa aos 12 signos do Zodíaco em 25 920 anos terrestres (1 ano cósmico).
A eclíptica é um círculo imaginário correspondente à órbita (aparente) do Sol, em volta da Terra num ano (órbita que, na verdade, é a Terra que descreve em volta do Sol).
O Equador Celeste é o círculo máximo da Esfera Celeste, perpendicular ao eixo da Terra.
A Esfera Celeste é o globo ilimitado que rodeia a Terra por todos os lados e onde parecem estar cravadas as estrelas, agrupadas em constelações.
Para completarmos esta análise (desprezando o movimento de rotação diário da Terra, que traz o dia e a noite) temos de considerar dois movimentos da Terra:
O primeiro: – O da revolução da Terra, inclinada sobre seu próprio eixo, em torno do Sol, durante um ano, que provoca a sucessão das estações e à qual, dividida a circunferência de 360º em 12 meses, corresponde um signo astrológico mensal de 30º. É como se o Sol passasse por todos os 12 signos do Zodíaco.
O segundo: – É o do “Ponto Vernal”, a que já aludimos, onde 1 “ano cósmico” corresponde a 360º e 25 920 anos terrestres, correspondendo a cada signo do Zodíaco uma “Era” de 2 160 anos.

De acordo com Jaap Huibers, autor de “Aquário – A Nova Era – Homem conhece a ti mesmo” (Editora Hemus), onde nos apoiámos parcialmente para esta análise, a cronologia das últimas 4 Eras é a seguinte:

– De 4 304 até 2 154 a.C. : Era de Touro;

– De 2 154 até 4 a.C. : Era de Carneiro ou Áries;

– De 4 a.C. até 2 146 d.C. : Era de Peixes;

– De 2 146 até 4 296 d.C. : Era de Aquário.

O referido autor considera 2150 anos para cada Era. Se considerarmos o ano de 4304 a.C. como início da Era de Touro, e os “nossos” 2 160 anos, podemos alterar estas datas para:

– A Era de Touro, de 4 304 a.C. a 2 144 a.C. ;

– A Era de Áries, de 2 144 a.C. a 16 d.C. ;

– A Era de Peixes, de 16 d.C. a 2 176 d.C. ;

– A Era de Aquário, de 2 176 d.C. a 4 336 d.C.

A data de mudança de uma Era para outra é muito imprecisa, pois, pela “movimentação do Sol”, a sua passagem de uma constelação para outra, dura alguns anos. No aspecto histórico da Humanidade esta mudança também não ocorre bruscamente de um dia para o outro.
Na Era de Touro cultuou-se o “Touro de Ouro”. Depois de Moisés, iniciou-se a Era de Áries, quando o Sol passou para a constelação de Carneiro. Foi quando se acentuou o misticismo e a civilização egípcia conheceu o seu apogeu.
E no início da Era de Peixes conhecemos o apogeu (e queda) da civilização romana, assim como o início da civilização Judaico-Cristã.
A cada Era têm-se atribuído influências cósmico-energéticas que, teoricamente, teriam influenciado o comportamento da Humanidade. Não se sabe se, efectivamente, isto ocorre ou não, mas tem-se constatado, realmente, a existência de modelos, ou padrões de comportamento, comuns e específicos a cada uma destas Eras.
O que a História Ocidental tem registado com mais detalhes são os modelos, ou mais especificamente os paradigmas das grandes Eras, ou ciclos, da evolução da Civilização Ocidental. A Era de Touro, genericamente entre 4000 a.C. e 2000 a.C. – a Era do Império Egípcio – foi, basicamente, a era dos faraós ou reis-deuses. Com a mudança do eixo económico-cultural para a Grécia, tivemos o início da Era de Áries, a era das cidades-estado, dos grandes filósofos, da democracia “escravocrata” grega, onde os ricos eram livres, mas dependiam do trabalho dos escravos para manterem o seu poder e suas fortunas.
Também do ano 2000 a.C. até ao ano 1º da era Cristã, conhecemos o surgimento do Império Romano, época dos ditadores, dos grandes Césares e, paralelamente, o militarismo, proporcionando um grande desenvolvimento das ciências e das artes (geralmente aplicadas a fins militares; por exemplo, as grandes obras de engenharia e cantuária da Roma Imperial).
É nesta Era que, na outra margem do Mediterrâneo, se desenvolveu a cultura Judaica, a era dos grandes rabinos detentores da cultura, e das tribos com seus chefes comandando e decidindo os destinos das pessoas.
A Era de Peixes, iniciando-se nesta conjuntura Judaico-Romana, assistiu, perplexa, a um dos maiores cismas filosófico/religiosos que a História conheceu.
Dentro da cultura Judaico-Cristã, que surgiu deste cisma, temos alguns aspectos importantes a salientar, antes de entrarmos no detalhe dos paradigmas da Era de Aquário, que parece ter-se iniciado já neste século.
A era da cultura Judaico-Cristã viveu, basicamente, sob alguns paradigmas especiais. Citamos, por exemplo: a autovalorização, o egocentrismo, a divisão, a estagnação do desenvolvimento cultural-filosófico, a procura das emoções imediatas, o exclusivismo e, basicamente, a separação; nos governos, diversas formas de ditadura prevaleceram.
Numa breve definição, a autovalorização é o abuso da palavra EU, o discurso sempre na 1.ª pessoa, os discursos auto-laudatórios, enfim, o Rei-Sol – “Le État c’est moi”, como disse um dos reis Luíses da França. O egocentrismo é alicerce da autovalorização, é a centralização de todo o pensamento no próprio Ego.
O que seria a divisão? Basicamente, é o anti-holismo. Homens separados por fronteiras entre um país e outro, as cercas e muros separando os jardins, as cidades-estado muradas, os homens separados das mulheres (nas sinagogas, igrejas e mesquitas), as crianças não participando da vida dos adultos, o patrão distante do empregado, etc.
Pierre Weil exemplifica: “Se olharmos em nosso redor, neste final do 2.º milénio da era Cristã, seremos obrigados a reconhecer que vivemos numa época caracterizada pela divisão, pelas dissenções, pela violência e pela guerra.”
“O fantasma da separação traz consigo consequências danosas para a harmonia do Homem tanto interna como externa: o apego e a possessividade, que trazem consigo o medo de perder o que se julga possuir; a raiva, a agressão e a violência ligadas à defesa da posse de ideias, pessoas ou coisas, sem contar o ciúme, a competição e o orgulho paranóico…” O paradigma Newtoniano-Cartesiano ainda domina a mente da maioria dos cientistas actuais… Os conceitos de espaço e tempo absolutos, e o de objectos materiais separados, movendo-se nesse espaço e interagindo mecanicamente; o rigoroso conceito de determinismo e a noção de uma descrição objectiva da Natureza, baseada na divisão Cartesiana entre matéria e mente.”
“O antigo paradigma afectou a prática económica contemporânea: a fragmentação das especializações, o desvirtuamento dos valores superiores da Humanidade, a abordagem competitiva na exploração da Natureza, o esgotamento progressivo dos recursos naturais, o consenso de que a Natureza existe para o Homem, a visão do Homem como ente consumidor (o que levou a um consumismo desenfreado), a confusão entre riqueza material e felicidade, a tecnologia ao serviço da destruição em massa.”
Na educação, o conhecimento torna-se uma espécie de mercadoria a ser adquirida e guardada no armazém da memória. Na medicina, assistimos ao desaparecimento da clínica geral e à fragmentação em superespecializações que levam os pacientes a sentirem-se perdidos diante da frequente ausência de uma visão sintética do seu caso.
Os sistemas políticos reinantes nos últimos séculos, propugnando a luta pelo poder, o maquiavelismo pregando que os fins justificam os meios, levaram a população global a uma total descrença em seus dirigentes.
Na filosofia, um sem número de teorias levou a que os próprios filósofos não mais se entendessem, e nenhum deles é capaz de conhecê-las todas a fundo.
Nesta Era de Peixes, anteriormente a esta excessiva divisibilidade ocorrida nos últimos séculos, houve, especialmente durante a Idade Média, uma absurda estagnação de todo o desenvolvimento humano. O rigorismo e o determinismo do comportamento obrigaram o Homem a viver, durante mil anos, sob a égide dos papas e senhores feudais, sem acontecer qualquer mudança ou desenvolvimento filosófico-cultural. Aqueles poucos que ousaram buscar a Gnose foram considerados hereges, condenados e queimados vivos.
Erbnest Becker, em seu livro “A Negação da Morte”, explica o aspecto psicológico deste fenómeno: “Com relação à estagnação, podemos citar Kierkegaard, que nos fornece algum esboço descritivo do estilo de negação, ou o que seriam as mentiras de carácter – o que é a mesma coisa. Ele pretende descrever o que hoje chamamos de homens inautênticos, aqueles que evitam desenvolver a própria originalidade. Eles acompanham os estilos de vida automáticos e displicentes aos quais foram condicionados quando crianças. São inautênticos pelo facto de não pertencerem a si mesmos, não serem suas próprias pessoas, não agirem a partir do seu próprio centro, não verem a realidade nos termos desta. São os homens unidimensionais, totalmente imersos nas brincadeiras de ficção em moda na sua Sociedade, incapazes de transcender o seu condicionamento social. São os homens de empresa, no Ocidente; os burocratas, no Oriente; os homens tribais aprisionados à tradição; o homem de toda a parte, que não entende o que significa pensar por si próprio e que, se o fizesse, se esquivaria ante a ideia de tamanha audácia e risco.”
Neste mesmo livro, Erbnest Becker continua afirmando: “Kierkegaard dá-nos uma descrição do homem imediato: …seu eu, ou ele próprio, é algo incluído com “o outro”, no âmbito do temporal e do mundano. Assim, o eu adere imediatamente ao “outro”, querendo, desejando, divertindo-se, etc., Porém, passivamente; …ele consegue imitar os outros homens, observando como se conduzem para viver, e assim, ele vive também de uma certa forma. Na cristandade, ele também é cristão, vai à igreja todos os domingos, ouve e entende o sacerdote; realmente, eles se entendem um ao outro; ele morre; o sacerdote o conduz à eternidade pelo preço de dez dólares – mas ele não foi um eu e nunca se tornou um eu… Pois o homem imediato não reconheceu seu eu; ele só se reconhece por sua roupa… Ele se reconhece como um eu só pelas aparências.”
Este é o “Homem da trivialidade”, que se embala nas rotinas diárias da sua Sociedade, que permanece contente com as satisfações por ela oferecidas; ele tranquiliza-se com a sua TRIVIALIDADE. “É o homem desprovido de imaginação, que vive num sector de experiência trivial, no que toca ao andamento das coisas, daquilo que geralmente ocorre.”

Um outro paradigma da cultura Judaico-Cristã seria o exclusivismo, baseado, essencialmente, na propriedade privada. Isto é “a minha casa”, “o meu carro”, “o meu filho”, “a minha escola”. É tudo “MEU”, o que “eu tenho e que é exclusivo para o meu usufruto, e somente MEU”!
No aspecto filosófico, a Era de Peixes caracterizou-se também, basicamente, por ser a era dos grandes líderes. O importante para uma pessoa era o que o outro dizia, e seguia-se (muitos ainda seguem) a orientação desses líderes, sua filosofia, e os conselhos desses verdadeiros “condutores de homens”. É a era dos mestres, dos grandes professores, dos líderes carismáticos, dos “gurus”.
Estamos agora a entrar lentamente na Era de Aquário, a chamada Era onde o Sol estará alinhado com a constelação de Aquário.
Mas, entre a grande Era de Peixes e a nova Era de Aquário, em que transitamos, aconteceu um interregno, que se caracterizou por ser a época da “contracultura”, a grande época dos “hippies”, da geração “beatnik”.
Sabemos hoje que foi uma época tipicamente de transição, de adopção de novos paradigmas, e que mostrou ser uma época de profunda crise, de quebra ou demolição de antigos valores, especialmente dos morais.
Enquanto não se ajustavam os novos paradigmas, a Sociedade observou, atónita, a “revolução” dos anos 60, cuja culminância de agitação ocorreu em Paris, em Maio de 1968, e cujo início se dera com o movimento “Beat”, de São Francisco da Califórnia, nos meados dos anos 50.
Os principais paradigmas do movimento “Beat” (ou hippie) foram: a auto-anulação, a fragmentação do Ego, a antidivisão, a transformação e fuga da realidade – apoiada no uso abusivo de drogas alucinatórias – e no plano dos governos a democracia, maior abertura ideológico-política, o antimilitarismo (as passeatas gigantescas contra a guerra do Vietname, cujo mote principal era: “Make love, not war” (“Faça amor, não faça guerra”).
O movimento “Hippie” trouxe para quem o vivenciou, e mostrou para quem o observou à distância, a auto-anulação voluntária e a vida em comunidade. Nesta época, também sentimos quebrarem-se muitos dos conceitos antigos da Cultura Judaico-Cristã. Intensificou-se a busca por outras soluções.
Nesta época começou a entender-se e a perceber-se o mundo e a sociedade contemporânea de uma maneira diferente. Doris Peçanha, no seu livro “Movimento Beat, Rebeldia de uma Geração” (Ed. Vozes), diz que “O movimento “Beat” surgiu no cenário norte-americano na década de 50, caracterizando-se por contestar a ordem estabelecida em favor de uma plasticidade na cultura, nas emoções e no intelecto.”
“Optaram por uma nova forma de vida e de representá-la literariamente, determinando uma mudança decisiva na literatura e no comportamento da juventude em geral.”

Todavia, o movimento “Beat” trazia internamente o germe da sua auto-anulação: O inimigo da geração “Beat” e da contracultura, de um modo geral, não foi apenas o poder manipulador e neutralizador da sociedade tecnocrática, mas encontrava-se também no seio do próprio movimento, na medida em que, desejando opor-se à racionalidade louca do sistema, muitos sucumbiram no irracional, entregando-se totalmente ao comando dos seus impulsos.
Diz André Stephanie: “Não pode haver revolução fundada em uma negação da realidade.”
Doris Peçanha conclui, dizendo: “Os “Beats”, que mostraram os exageros da racionalidade tecnocrática, caíram na situação antiética de negar o sistema como um todo e, ao fazê-lo, suprimiram o representante psíquico da figura paterna.”
“Ora, o espírito revolucionário conduz a substituir o pai e não simplesmente a banir a relação paterna.”

“O movimento “Beat” apontou novas formas de viver, vigorou como expressão ficcional, mas sucumbiu tragicamente às forças de desintegração interna e externa. Constituiu um dos sonhos perdidos dos anos 60, a matriz onde se gerava um frágil mundo alternativo e que, sendo parte integrante da contracultura, era tudo de que se dispunha para enfrentar o totalitarismo tecnocrático.” “Enfim, os “Beats” buscaram uma revolução, mas foram incapazes de concretizá-la, enquanto antiédipos; foram negativistas da História e, portanto, incapazes de realizar politicamente um projecto histórico.”
No alvorecer desta Era de Aquário estamos a viver a passagem de um ciclo de materialidade para um ciclo de espiritualidade. Esta Era levará essas mudanças a transformações das necessidades humanas, raciais e planetárias.
Seguindo a lógica da divisão por Eras, e mirando-se o futuro através da perspectiva do passado, é evidente que uma nova Era haverá de começar quando o Sol entrar plenamente na constelação de Aquário, em sua lenta precessão na Galáxia. Uma nova fase de religiosidade e misticismo, e de verdadeiro e tradicional gnosticismo, se realizará no mundo, através do Homem, revelando-nos ideais mais altos e mais nobres do que os nossos actuais conceitos emergentes da Civilização Cristã.
O processo de preparação da Era de Aquário já se iniciou – e, provavelmente, já estamos bem dentro dele – e, como Aquário é um signo aéreo, científico e intelectual, a nova filosofia, ou dizendo de outro modo, a nova corrente de pensamento, estará baseada na Razão e será capaz de resolver os enigmas da Vida e da Morte de um modo que satisfaça tanto a mente quanto o instinto religioso/filosófico.
Os novos paradigmas da Era de Aquário estão voltados para serem o desenvolvimento pessoal, o desinteresse pessoal, o altruísmo, a unificação, a superação, o autoconhecimento e a integração ou não separação.
Entendemos por desenvolvimento pessoal a ansiosa busca de compreensão maior dos fenómenos humanos e do autoconhecimento. Ultimamente, afirmando a chegada da nova Era, aumentou muito a procura do entendimento do Eu, a percepção dos fenómenos da Natureza e dos fenómenos místicos e metafísicos.
Mas, talvez o novo e grande paradigma para esta Era de Aquário seja o conceito, cada dia mais difundido e estudado, de Holismo.
Pierre Weil define esse movimento filosófico comportamental como: “O sentimento de mal-estar generalizado diante dos grandes problemas da actualidade, tais como: a violência interindividual, a violência política internacional sob a forma de guerras, o perigo da proliferação nuclear, o desequilíbrio ecológico, entre outros, que têm levado à construção de pontes sobre todas as formas de fronteiras criadas, em última instância, pela mente humana. Entre outros, podemos citar as organizações internacionais (a ONU e a UNESCO, por exemplo), os movimentos de encontro das grandes tradições espirituais, os encontros interdisciplinares, e o advento de uma mentalidade de trabalho de equipa em todos os domínios das ciências e da tecnologia."
Um bom exemplo prático do que veio a ser designado de Holismo, é citado por Pierre Weil como sendo: “O aparecimento de movimentos alternativos à destruição, em medicina e terapia, o conceito de medicina psicossomática e a abordagem holística em terapia; e, enfim, os primeiros encontros entre Ciência e Sabedoria são já a aplicação prática deste conceito holístico. “… A palavra holístico está a infiltrar-se subrepticiamente na Ciência, na Educação e na Terapia, sem que se tenha feito um esforço para conhecer a sua origem e traçar a história da evolução deste conceito”.
Existe uma palavra que, de tanto se ter tentada sua definição, acabou perdendo muito do seu significado ou potencial de expressão: AMOR. Mas, se tomarmos o conceito holístico como fundamento para uma nova definição, então é este autor que nos ajuda, quando nos diz que “A vida é indivisível; só é dividida pela mente humana. Cabe ao Homem descobrir essa unidade que está por detrás das aparências… Portanto, o ser humano tem de voltar-se para dentro para verificar o que realmente é, qual o seu mais alto potencial, qual a mais nobre faculdade que possui, e não imaginar-se como uma espécie superior de animal… Essa tarefa de autocompreensão e autoconhecimento é o que há de mais importante para a felicidade e paz de toda a Humanidade. Somente os que entram profundamente dentro de si mesmos e conseguem dissolver completamente a separação, o apego e a rejeição, e realizam sua verdadeira natureza, encontram condições de viver o verdadeiro Amor, o qual assume características de equanimidade, dirigindo-se a todos os seres do Universo”.

Apesar de estarmos no limiar desta nova Era, temos de nos voltar para uma personalidade que viveu há 2 000 anos, no limiar da Era passada. É claro que nos estamos a referir a Cristo. Seu discurso foi tão importante que sobreviveu a estes 2 000 anos de História!
Pinchas Lapide, em seu livro “O Sermão da Montanha, Utopia ou Programa” (Ed. Vozes), cita Eckhart: “Jesus era a um só tempo mestre de doutrina e mestre da vida”; e explica que: “O mestre de doutrina educa por sua fala prudente, sua sensibilidade e pedagogia. Do mestre de vida espera-se um pouco mais. Não apenas o saber, mas a sabedoria; não apenas os conhecimentos, mas a irradiação; não apenas a retórica, mas a arte de viver – harmonia interna entre doutrina e vida, palavra e acção”.
O discurso de Jesus está claramente expresso no Sermão da Montanha. Pinchas diz que “O sermão da Montanha e os Evangelhos, no seu conjunto, são o produto de determinado momento histórico caracterizado pela crise iminente. Todavia, acaso isso significa que seu condicionamento histórico o despoje de sua actualidade hodierna?”
Como provam os factos, o Sermão da Montanha enquadra-se perfeitamente no momento histórico actual e ainda é uma proposta de paradigma para a Era de Aquário. Pinchas afirma que “…O assim chamado equilíbrio do medo, a crescente escalada armamentista das superpotências e a capacidade já alcançada do género humano em deslizar para o suicídio global – esta situação apocalíptica, reveste o Sermão da Montanha de nova relevância em nossos dias …Acaso o nosso tempo, tal como a era de Jesus, não é assinalado por ameaças de catástrofes, por dúvidas e busca quase doentia de alicerces firmes?…”
O melhor que a razão humana poderia realizar hoje seria levar a regra áurea das casas de Deus e implantá-la nos Parlamentos e Ministérios: “O QUE QUISERDES QUE VOS FAÇAM OS HOMENS, FAZEI-O TAMBÉM A ELES” (Mateus 7,12).
“URGE O TEMPO NO RELÓGIO DO MUNDO. NOSSO TEMPO DE PROVA EXPIROU!” (P. Lapide).
A Era de Aquário traz-nos uma veemente esperança de que a solução para a existência humana não mais esteja, somente, na procura do retorno à Natureza, nem na obediência cega à figura paterna e a líderes ou governantes.
Erich Fromm, no seu livro “A Revolução da Esperança”, sugere-nos “…Uma nova visão de que o Homem pode novamente sentir-se à vontade no mundo e vencer sua sensação de apavorante solidão, que ele pode alcançar pelo pleno desenvolvimento dos seus poderes humanos, da sua capacidade de amar, de usar sua razão, de criar e gozar a beleza, de partilhar sua humanidade com o seu próximo…” …“O novo laço que permite ao Homem sentir-se concordante com todos os homens é fundamentalmente diverso da submissão ao pai, ou à mãe, ou a governantes ou líderes. É o laço harmonioso da FRATERNIDADE, no qual a SOLIDARIEDADE e os laços humanos não serão viciados pela restrição da liberdade emocional ou intelectual” (grifos meus).
Poderíamos ficar aqui enumerando mais umas centenas de pensamentos dos filósofos antigos e modernos a respeito do que deva ser uma sociedade ideal…
Era de Aquário ou não, utopia ou não, todos os homens, indistintamente, devem procurar uma nova solução. “BELEZA, BONDADE E SENTIDO PARA A VIDA deverão ser encontrados aqui, bem diante dos nossos olhos”.
Por mais absurdas que possam parecer as ideias e os paradigmas da nova Era de Aquário, elas já existiam na Era de Áries. Os filósofos gregos já tinham encontrado uma parte da solução. E muitos dos filósofos cristãos também. Se juntarmos esses retalhos de pensamentos faremos uma belíssima colcha. Aparentemente, uma colcha de retalhos; mas poderíamos construir uma nova vida, reabilitando o Homem.
Até que ponto estes novos paradigmas virão naturalmente, sem esforço, causa-nos alguma dúvida. Ou o Homem terá de tomar a decisão de adoptar estes novos paradigmas? Neste caso, terá de se reeducar e educar as próximas gerações. E teríamos de construir uma nova pedagogia.
Uma nova pedagogia, ou a velha pedagogia resgatada? Não precisamos inventar uma nova pedagogia. Podemos inspirar-nos em Coménius: “Na educação Comeniana, a união com Deus é alvo para ser atingido, porque, de contrário, o que se aprende não passa de vã jornada, um exercício de mera vaidade.”

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