domingo, 6 de janeiro de 2008

 

Psicologia Transpessoal - em busca da unidade do ser

Parte 2 - Novas Direções em Ciência

Ana Maria Garcez



"Chegando à luz, chegamos à atividade fundamental da existência... A luz é o pontencial de tudo." David Bohm

"Penso que estamos vivendo ainda na pré-história do entendimento do Universo." Ilya Prigogine

"O conteúdo filosófico de uma ciência só é preservado se essa ciência tiver consciência de suas limitações." Heisenberg

"A natureza, nós explicamos; a vida da alma, nós compreendemos." Wilhelm Dilthey

2.1 As Pesquisas da Consciência e a Psicologia Transpessoal

O enfoque holístico da realidade propiciou o surgimento de um novo campo de pesquisas. Trata-se da Psicologia Transpessoal, um movimento no campo da Psicologia, onde o principal objeto de estudo é a consciência humana. Utiliza conhecimentos de várias disciplinas ocidentais e orientais, considerando as recentes descobertas em muitos domínios científicos como a Física, Neurologia, Psicologia, Parapsicologia, Psiquiatria, Biologia Molecular, Sociologia, Antropologia, entre outros, buscando uma integração desses conhecimentos.

Segundo Tabone (1998), a psicologia transpessoal é a nova área de pesquisa que vai além dos limites usuais da investigação científica convencional, onde "transpessoal" significa "além do pessoal" ou "além da personalidade".

A mesma autora refere-se à psicologia transpessoal como:

"(...) uma abordagem concebida pelo novo "paradigma holístico" que reintroduz, no campo de psicologia ocidental, a noção da consciência de unidade, e, simultaneamente, aproxima as questões relativas ao crescimento psicológico, à "busca espiritual", vistas como antagônicas pelo paradigma dominante (newtoniano/cartesiano), essencialmente fragmentador." (p.45)

Com relação à terapia transpessoal, Tabone (1989) acredita ainda que "(...) é uma abordagem que procura somar aos principais aspectos das escolas ocidentais um reconhecimento da importância da dimensão espiritual do indivíduo."
Weil (1991), define a Psicologia Transpessoal como um ramo da psicologia especializado no estudo dos estados de consciência que lida mais especialmente com a experiência cósmica ou os estados ditos "superiores" ou "ampliados" da consciência.

A Psicologia Transpessoal pode ser considerada como uma expansão do movimento da Psicologia Humanista.

Tabone (1988) esclarece que:

"A Psicologia Transpessoal é uma abordagem recente e muito importante, que surgiu nos Estados Unidos em 1966, a partir de um movimento que se tornou conhecido como a "quarta força" em psicologia, após o Behaviorismo, a Psican lise e a Psicologia Humanista." (p.1)

Representa, segundo a autora, o ponto de convergência dos intelectuais insatisfeitos com a visão do paradigma da psicologia ocidental, limitado a um único nível de consciência - o nível físico do plano material.

Weil (1991) refere que a primeira Associação de Psicologia Transpessoal surgiu nos Estados Unidos em 1969 com a publicação de uma revista sobre o assunto, tendo como editores entre outros, Anthony Sutich, Michael Murphy e James Fadiman. Entre seus membros figuram nomes como Charlotte Buhler, Abraham Maslow, Allan Watts, Arthur Koestler e Viktor Frankl.

O analista suíço Carl Gustav Jung é considerado uma de suas principais fontes.

Para Tabone (1989) não existe um único iniciador do movimento, no entanto, Abraham Maslow e Anthony Sutich, entre outros, são responsáveis por importantes contribuições para o desenvolvimento da nova tendência.

Conforme Tabone (1988) certos avanços científicos e tecnológicos em algumas áreas foram especialmente relevantes para o surgimento e desenvolvimento da Psicologia Transpessoal. Entre eles a pesquisa do cérebro e da consciência, a pesquisa parapsicológica, as pesquisas psicológicas, e a Física moderna.

Sobre a pesquisa do cérebro, afirma Capra (1993), um dos trabalhos a ser destacado foi a descoberta de que os dois hemisférios cerebrais tendem a estar envolvidos em funções opostas mas complementares. O hemisfério esquerdo, que controla o lado direito do corpo, é mais especializado no pensamento analítico, linear, lógico ou racional; o hemisfério direito, que controla o lado esquerdo do corpo, está relacionado principalmente à orientação espacial, à percepção ou à criação estética, e funciona de modo emocional, intuitivo e holístico.

Comenta Weil (1978) que os estudos eletroencefalográficos e neurofisiológicos recentes sobre a consciência, confirmam a relação entre os mecanismos cerebrais e a consciência em geral.

O autor relata um estudo eletroencefalográfico sobre a meditação zen (zazen), que é um exercício espiritual realizado na seita zen do budismo. Esta meditação produz modificações não só na mente mas também no corpo, o que constitui um interesse científico nestes estudos, do ponto de vista psicológico e fisiológico.

Neste estudo, as modificações de EEG que acompanharam a meditação zen foram reveladas e descritas em detalhes, possibilitando a discussão posterior dos resultados em relação à consciência.

Constatou-se que as modificações de EEG na meditação zen são o aparecimento de ondas alfa, apesar de a pessoa estar de olhos abertos, sendo que estas ondas aumentam de amplitude e diminuem de freqüência à medida que a meditação progride, podendo, às vezes, aparecer uma série de ondas teta rítmicas no último estágio da meditação. Estas observações levam à conclusão de que na meditação zen confirma-se a lentificação do padrão de EEG e a não-habituação do bloqueio alfa, o que indica a mudança específica de consciência.

Segundo Capra (1993) há uma nova tecnologia conhecida como biofeedback, uma técnica que ajuda a pessoa a obter controle voluntário sobre funções corporais normalmente inconscientes, que demonstra que muitas funções fisiológicas autônomas, ou involuntárias - batidas cardíacas, temperatura do corpo, tensão muscular, pressão sangüínea, atividade das ondas cerebrais e outras - podem ser submetidas ao controle consciente.

Na verdade, ressalta ele, o que se pretende não é o controle, mas um estado meditativo de profundo relaxamento em que todo o controle é abandonado. Assim, as mentes conscientes e inconscientes comunicam-se, facilitando a integração de funções psicológicas e biológicas, o que ocorre através de imagens visuais e linguagem simbólica. Inclusive, muitos terapeutas utilizam técnicas de visualização para o tratamento de enfermidades.

Para Green (apud. Tabone, 1988) a descoberta do biofeedback permitiu que pesquisadores investigassem yogues, na Índia, aos quais se atribuíam "poderes" de autocontrole. Outras pesquisas foram desenvolvidas nos Estados Unidos com a utilização do biofeedback numa clínica, numa prisão e numa sala de aula. Concluíram que a "essência, tanto da ioga como do biofeedback, é o controle da imagem corporal biopsicológica através de visualização durante um estado de relaxamento." (p.18)

Com relação às pesquisas do cérebro, devemos citar o trabalho do neurocirurgião Karl Pribam, que desenvolveu um modelo do cérebro denominado "modelo holográfico", no qual postula que certos aspectos importantes do funcionamento cerebral são baseados nos princípios hologr áficos. A holografia é uma técnica de fotografia sem lentes.

Crema (1989) explica que:

"A holografia consiste na reconstrução de ondas, o que possibilita uma espécie de fotografia denominada holograma, cuja fantasmagórica imagem reconstituída, é inteira e tridimensional."

Ainda:

..."o verdadeiramente assombroso para a mente cartesiana, (...) é que ao se cortar o holograma ao meio, a unidade da imagem é reconstituída em cada pedaço; e se o processo de divisão é repetido, cada parte do holograma conter , praticamente, a imagem inteira, e assim indefinidamente." (p. 45)

Segundo Capra (1993), no modelo holográfico do cérebro, "a percepção visual é obtida através de uma análise de modelos de freqüência e a memória visual é organizada como um holograma. Acrescenta que Pribam acredita que isso explicaria porque a memória visual não pode ser localizada com precisão dentro do cérebro. Tal como um holograma, o todo está codificado em cada parte.

O autor referido esclarece que a validade do holograma como modelo para a percepção visual não está bem estabelecida, mas que é útil pelo menos como metáfora. Reconhece, no entanto, sua importância pela ênfase dada ao fato de que o cérebro não armazena localmente informação mas a distribui amplamente, e, de um ponto de vista mais amplo, no deslocamento conceitual das estruturas para as freqüências.

Crema (1989) ressalta que Pribam, estudando os processo cerebrais através da teoria hologr áfica, postulou o cérebro como um holograma, onde cada neurônio contém informações sobre o todo cerebral. Esta teoria lança nova luz sobre o estudo da memória e de processos psíquicos como o fenômeno "psi", como é denominado na Parapsicologia. Pribam chega a sugerir que o próprio Universo seja um holograma . Capra (1993) afirma, contudo, que o Universo não é, definitivamente, um holograma, pois exibe uma multidão de vibrações de diferentes freqüências.

As novas descobertas sobre o cérebro, através destas pesquisas, fornecem maiores esclarecimentos sobre a conexão entre o cérebro e as experiências da consciência tanto ordinária como em "estados alterados".

Na década de sessenta, v rios pesquisadores dedicaram-se ... chamada pesquisa psicodélica, entre eles, Timorhy Leary, Richard Alpert, Ralph Metzner e Stanislav Grof. Suas experimentações constituíram no uso do LSD e de outras substâncias psicoativas com o objetivo de expandir a consciência. Grof (1987) um dos mais respeitáveis pesquisadores de substâncias psicodélicas em psicoterapia, dirigiu milhares de sessões com a utilização do LSD e outras substâncias que alteram a mente. Conduziu pessoalmente mais de três mil sessões com LSD e teve acesso a mais de dois mil relatórios de sessões conduzidas por colegas.

Para Olivenstein (apud Tabone, 1988), o LSD é derivado da cravagem do centeio, sendo uma substância preparada quimicamente em laboratório. O LSD e as drogas psicodélicas em geral causam modificações psíquicas nos indivíduos, afetando as percepções visuais. Por isso incluem-se entre os "alucinógenos".

Grof (1987) relata que a maioria dos estudiosos considera essas drogas como "amplificadores ou catalisadores do processo mental. Ressalta que elas ativam matrizes preexistentes ou potenciais da mente humana"(p.20) e não simplesmente induzem a estados específicos e característicos. Esclareceu, ainda, o autor, que o sujeito que as ingere, experimenta uma fant stica "jornada interior na mente inconsciente e superconsciente". Com isso, essas drogas permitem a observação de um vasto campo de fenômenos, que representam capacidades intrínsecas da mente humana e têm um papel importante na dinâmica mental normal.

Durante dezessete anos, Grof dedicou-se às pesquisas clínicas em psicoterapia com o uso de LSD e outras substâncias psicodélicas. Devido às controvérsias públicas em relação ao LSD e às restrições legais, ele abandonou sua prática de terapia psicodélica, e desenvolveu técnicas terapêuticas induzindo a estados semelhantes sem o uso de drogas.

Conforme Capra (1993), como estudo da mente humana com a ajuda de facilitadores químicos, a pesquisa psicodélica mostrou muitos fenômenos se resultados, que não são entretanto exclusivos desta pesquisa, mas podem ser encontrados também na pr tica meditativa, na hipnose e nas novas terapias experimentais. Com base em suas observações, Grof construiu uma cartografia do inconsciente, um mapa de fenômenos mentais com grandes semelhanças com o espectro da consciência de Wilber. Sua cartografia abrange três domínios principais:

- o domínio de experiências psicodinâmicas;
- o domínio de experiências perinatais;
- o domínio de experiências transpessoais.

Em seu trabalho clínico com psicodélicos, este pesquisador percebeu que as observações sobre a terapia e sobre a natureza das experiências com LSD não podiam ser adequadamente explicadas em termos do enfoque mecanicista newtoniano-cartesiano do universo nem em termos dos existentes modelos neurofisilógicos do cérebro. Constatou uma necessidade urgente de revisão nos atuais paradigmas para a ciência em geral.

Não pretendo entrar numa descrição das observações sobre a psicoterapia com o LSD e limito-me a citar algumas características da experiência psicodélica. Mais detalhes podem ser encontrados em sua obra.

De acordo com suas experiências, para ele podem ocorrer:

"dimensão multinivelar e multidimensional, visões tridimensionais, transcendência espaço-tempo, desconsideração do continuum linear entre o microcosmo e o macrocosmo, transcendência da linearidade de seqüências temporais, v rias formas de viagens no tempo, transcendência da distinção entre matéria, energia e consciência, ocorrência de experiências complexas com conteúdos condensados ou compostos, transcendência da diferença entre o ego e os elementos do mundo externo ou entre a parte e o todo, etc." (p. 21)

Grof (1987) observa que a moderna pesquisa parapsicológica igualmente desafia os paradigmas da ciência mecanicista. Cientistas respeitáveis evidenciaram a existência de certos fenômenos como telepatia, clarividência, projeção astral, visão à distância, diagnósticos e curas psíquicas ou psicocinese. Podemos citar alguns nomes como: Joseph Banks Rhine, Gardner Murphy, Jules Eisenbud, Stanley Krippner, Charles T. Tart, Elmer e Alyce Green, Arthur Hastings, Russel Targ e Harold Puthoff.

Tart (1979) declara que, embora j tenha sido comprovada a existência de certos fen"menos (como telepatia, clarividência, precognição e psicocinese), não é possível, ainda, conhecer em essência algo sobre a natureza específica dos fenômenos psi.

Este pesquisador esclarece que a parapsicologia trata sobre a investigação da comunicação direta de mente a mente (telepatia), o contato direto da mente com objetos físicos sem intervenção de dados sensoriais (clarividência), a predição do futuro não inferível de fatos físicos conhecidos (precognição) e o influxo direto da mente sobre a matéria sem intervenção do corpo ou de energias físicas conhecidas (psicocinese). Aos fen"menos telepatia, clarividência e precognição, dá-se o nome de percepção extra sensorial (PES). Chama-se fenômenos psi aos conjuntos das PES e dos demais tipos de percepção e ação paranormais.

Como uma ciência relativamente nova, a parapsicologia experimental tem pouco mais de um século. Constata, contudo, este autor, que não é possível avaliar as psicologias espirituais conforme a visão da ciência física ortodoxa.

Considerado um dos sistemas mais abrangentes para integrar diferentes escolas psicológicas, segundo Capra (1993) a "psicologia do espectro", proposta por Ken Wilber, unifica numerosas abordagens ocidentais e orientais num espectro de modelos e teorias psicológicas que reflete o espectro da consciência humana.

Conforme este autor, cada um dos níveis desse espectro caractrezia-se por um diferente senso de identidade, indo da suprema identidade da consciência cósmica até a identidade limitada do ego. Refere que Wilber distingue, basicamente, quatro níveis, que são associados a correspondentes níveis de psicoterapia: o nível do ego, o nível biossocial, o nível existencial e o nível transpessoal.

Stanislov Grof, psiquiatra, baseando seus estudos em ampla experiência clínica de muitos anos dedicada à psicoterapia, com e sem o uso de psicodélicos, revelou importantes descobertas sobre o inconsciente.

De acordo com Capra (1993), Grof construiu uma "cartografia do inconsciente", ou seja, um mapa de fenômenos mentais, semelhante ao espectro da consciência de Wilber. Sua cartografia, explica, abrange três domínios principais: o domínio de experiências psicodinâmicas, associadas a eventos da vida passada e o presente de uma pessoa; o domínio das experiências perinatais, relacionadas com os fenômenos biológicos envolvidos no processo de nascimento; e o domínio das experiências transpessoais, que vão além das fronteiras individuais.

Este autor esclarece que o nível psicodinâmico é autobiográfico, envolvendo recordações de eventos emocionalmente importantes e conflitos não-resolvidos de v rios períodos da vida do indivíduo. Estas experiências, afirma, incluem a dinâmica e os conflitos psicossexuais descritos por Freud, podendo ser entendidas em termos dos princípios psicanalíticos básicos.

O citado autor refere-se ao domínio das experiências perinatais como a parte mais fascinante e mais original da cartografia de Grof, porque exibe uma variedade de ricos e complexos padrões experimentais relacionados com os problemas do nascimento biológico. Estas experiências, revela, envolvem uma revivescência extremamente realista e autêntica de várias fases do processo de nascimento de uma pessoa. Um dos aspectos mais impressionante do domínio perinatal, acrescenta, é a estreita relação entre as experiências de nascimento e morte.

Por úiltimo, o domínio trranspessoal, onde ocorrem experiências transpessoais capazes de oferecer profundos insights sobre a natureza e importância da dimensão espiritual da consciência.

Capra (1993) discute a possibilidade de formulação de enunciados científicos sobre a natureza da consciência, já que esse conceito é de interesse central para a psicologia. Refere que tradicionalmente a ciência está associada à medição e a enunciados quantitativos, mas que uma ciência interessada somente na quantidade e baseada na medição é incapaz de lidar com a experiéncia, a qualidade ou os valores, sendo inadequada, portanto, para compreender a natureza da consciência, j que esta faz parte do nosso mundo interior e da experiência. Por isso, explica, é compreensível que Grof e Wilber tenham descritos seus mapas da consciência em termos de domínios da experiência.

Defende que a ciência não precisa ficar restrita a medições e análises quantitativas, e considera científica qualquer abordagem do conhecimento que satisfaça duas condições: todo o conhecimento deve basear-se na observação sistemática e expressar-se em termos de modelos autocoerentes, mas limitados e aproximados. A quantificação e o uso da matemática poderão ser utilizados embora não sejam fundamentais.

Observa este autor que a teoria quântica mudou a concepção clássica de ciência ao revelar o papel crucial da consciência do observador no processo de observação invalidando, assim, a idéia de uma descrição objetiva da natureza. Apesar disso, conclui, a teoria quântica ainda é baseada na medição.

Acredita que uma verdadeira ciência da consciência, estará mais orientada ás qualidades do que às quantidades, baseando-se mais na experiência compartilhada do que nas medições verificá veis. Acrescenta que os mapas da consciência de Grof e Wilber são, segundo esse novo tipo de abordagem científica, excelentes exemplos, característicos de uma nova psicologia que estará sempre apta a lidar com qualidades e valores baseados na experiência humana, e quantificar seus enunciados sempre que este método for apropriado.

2.2 A Nova Física

De acordo com a análise de Capra (1993), na visão de mundo mecanicista, o espaço era o tridimensional da geometria euclidiana clássica, absoluto, sempre em repouso e imutável. O tempo era uma dimensão separada que, por sua vez, também era absoluto, sem qualquer vínculo com o mundo material, fluindo uniformemente. A matéria era conservada e se mostrava passiva, e os eventos físicos reduzidos ao movimento de pontos materiais no espaço causado pela atração mútua da força da gravidade.

Conforme o autor esta visão da natureza está vinculada a um rigoroso determinismo, onde tudo que acontecia possuía uma causa definida e gerava um efeito também definido. Acreditava-se que o mundo podia ser descrito objetivamente, sem mencionar o observador humano, o que tornou-se o ideal de toda a ciência.

Refere este autor que nos séculos XVIII e XIX a mecânica newtoniana obteve grande sucesso até que a descoberta da teoria da relatividade e da teoria quântica abalaram definitivamente esta visão de mundo. A Física moderna provocou transformações nos conceitos de espaço, tempo, matéria, objeto, causa e efeito, etc.

A origem dessa revolução deve-se à obra de Albert Einstein, que em 1905 publicou duas concepções revolucionárias: a Teoria Especial da Relatividade e uma nova forma de ver a radiação eletromagnética que daria origem à Teoria Quântica.

Observa o referido autor, que conforme a teoria da relatividade, o espaço não é tridimensional e o tempo não constitui uma entidade isolada. Ambos encontram-se vinculados num continuum quadridimensional, formando espaço-tempo, inexistindo qualquer fluxo universal do tempo, como no modelo newtoniano.

Os conceitos de espaço e tempo tornam-se relativos e compreende-se que a massa nada mais é que uma forma de energia.

Acrescenta que a teoria quântica revelou o caráter dual das unidades subatômicas da matéria. Dependendo de como são abordadas, aparecem às vezes como partículas, às vezes como ondas, sendo que a luz também apresenta essa natureza dual, mostrando-se ora como ondas eletromagnéticas, ora como partículas, o que constituiu um paradoxo.

Com o desenvolvimento desses estudos, os conceitos de matéria, objetos sólidos e outros, tiveram que ser reavaliados.

Segundo o autor, a física atômica tem demonstrado que as partículas subat"micas não possuem significado enquanto entidades isoladas, somente podendo ser compreendidas como interconexões entre a preparação de um experimento e sua posterior medição.

Declara Capra (1983) que:

"...a teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no Universo (...) à medida que penetramos na matéria a natureza surge perante nós como uma complicada teia de relações entre as diversas partes do todo." (p.58)

Estas relações constata, sempre incluem o observador, que constitui o elo final na cadeia de processos de observação sendo que as propriedades de qualquer objeto atômico só podem ser compreendidas em termos de interação do objeto com o observador. Ou seja, o ideal clássico de uma descrição objetiva da natureza perde sua validade. Na Física atômica, para falar da natureza, temos que falar ao mesmo tempo, sobre nós mesmos.

Conforme o autor: "Na física moderna, o Universo é, pois, experimentado como um todo dinâmico e inseparável, que sempre inclui o observador num sentido essencial." (p.68)

Groffrey Chew formulou a chamada abordagem Bootstrap no começo da década de sessenta. Segundo essa teoria, a natureza não pode ser reduzida a entidades fundamentais, como elementos fundamentais da matéria, mas tem de ser inteiramente entendida através da autocoerência.

Esta teoria conclui Capra (1993), afasta-se radicalmente da orientação básica da pesquisa em física, que sempre inclinou-se a tentar descobrir os componentes fundamentais da matéria. Ao mesmo tempo, entende ele, é a culminação de concepção do mundo material como uma teia interligada de relações, que resultou da teoria quântica.

Acrescenta, portanto:

"A filosofia Bootstrap não só abandona a idéia de constituintes fundamentais da matéria, como também não aceita quaisquer espécies de entidades fundamentais - nenhuma constante, lei ou equação fundamental." (p.87)

O Universo, explica:

"...é visto como uma teia dinâmica de eventos interrelacionados. Nenhuma das propriedades de qualquer parte desta teia é fundamental; todas elas decorrem das propriedades das outras partes do todo, e a coerência total de suas interrelações determina a estrutura da teia." (p. 87)

Conforme Crema (1989), o físico David Bohm utilizou a descoberta holográfica como base para propor uma nova ordem na física, que ele denominou de "ordem implicada", descrevendo-a como um holograma. Seguindo o princípio de uma totalidade contínua, Bohm apontou para um nível oculto de ordem, onde o todo está envolvido em cada fragmento, sugerindo que a matéria pode ser entendida como um conjunto de formas, dotada da qualidade de autonomia e fundamentada num fluxo universal.

Outra crítica aos conceitos básicos da ciência mecanicista nasceu do trabalho de Ilya Prigogine, químico, físico e filósofo, atestando que, além de qualquer determinismo, o mundo vivo é probabilístico.

Crema (1989) refere que a abordagem de Prigogine aplica-se a todos os sistemas que trocam energia com o ambiente, onde quanto mais complexa é uma estrutura, química ou humana, maior quantidade de energia ter para expender para manter todas as conexões envolvidas.

De acordo com Grof (1987), a teoria do biólogo e bioquímico Rupert Sheldrake, postula que a fórmula, o desenvolvimento, e o comportamento dos organismos são moldados por "campos morfogenéticos". Esses campos são modelados pela forma e comportamento de organismos anteriores, da mesma espécie, por conexão direta, através de espaço e tempo, e apresentam propriedades cumulativas. Se um número crítico de membros de uma espécie desenvolve certas propriedades organísmicas ou aprende uma forma específica de comportamento, isto é automaticamente adquirido por outros membros da espécie, mesmo que não haja formas convencionais de contato entre eles. Este fenômeno da "ressonância mórfica", não é limitado a organismos vivos e pode ser demonstrado por fenômenos elementares como o crescimento de cristais.

Souza (1993) esclarece que "a teoria de Sheldrake fala do processo que seria responsável pela gênese das formas nos seres vivos, e pelos desdobramentos e repetições destas no âmbito da biologia." (p.86)

O mesmo autor acrescenta que a concepção de Sheldrake opõe-se à abordagem reducionista e mecanicista dos biofísicos, bioquímicos e biólogos moleculares, e aproxima-se do vitalismo, conforme o próprio Sheldrake reconhece, tendência , do início do século XX, que cria o ser vivo como "algo mais" que a simples soma de suas partes.

Sheldrake (apud weber, 1988) acredita que algo mais profundo que o acaso cego governa o mundo material. Desenvolveu a hipótese dos campos morfogenéticos. Deixa em aberto, nesta hipótese, no entanto, a questão da origem do primeiro campo morfogenético de um determinado tipo, ou seja, ao problema da criação, propondo, entretanto, algumas respostas em suas obras.

Grof (1987) ressalta que por mais implausível e absurda que essa teoria possa parecer para uma mente mecanicamente orientada, ela é sujeita à experimentação, o que não acontece com as suposições metafísicas básicas da visão do mundo materialista. E que mesmo no atual estágio primá rio, sustentada por experimentos em ratos e observações em macacos. Refere que Sheldrake está consciente de que sua teoria possui implicações de longo alcance para a psicologia, tendo mesmo discutido sobre a relação de sua teoria com o conceito de inconsciente coletivo de Jung.

Estas são algumas das importantes contribuições das ciências físicas e biológicas que vêm aliar-se aos outros desenvolvimentos científicos em pesquisa já mencionados. Estes estudos, no entanto, não podem ser aplicados à luz da ciência newtoniana-cartesiana.

Estas teorias que estão sendo desenvolvidas, as pesquisas que são realizadas e as novas descobertas científicas, afastam-se radicalmente dos modelos mecanicistas.

As novas descobertas colocam em questionamento os princípios do modelo do século dezessete que atualmente regem o panorama científico. Não há explicações satisfatórias para as novas pesquisas dentro desses parâmetros, daí a necessidade de um novo paradigma norteador, mais abrangente.

Capra (1993) alerta, no entanto, que a nova concepção do Universo que emerge da física moderna não significa que a física newtoniana esteja errada ou que a teoria quântica esteja certa, pois a ciência moderna tomou consciência de que todas as teorias científicas são aproximações da verdadeira natureza da realidade e de que cada teoria é válida em relação a uma certa gama de fenômenos. Além dessa gama, assinala, a teoria não fornece mais uma descrição satisfatória da natureza e novas teorias têm que ser encontradas para ampliá -la, aperfeiçoando a abordagem. Desta forma, a ciência avança. Destaca que cada ciência ter que descobrir as limitações da visão de mundo mecanicista no seu respectivo contexto.

Grof (1987) observa que a história da física no século XX não tem sido um processo f cil, tendo provocado muitos conflitos, apesar das brilhantes conquistas. Revela que os físicos precisaram de um longo tempo para abandonarem sua premissas básicas da física clássica e sua visão da realidade. Isso é compreensível, completa, se levarmos em consideração que a nova física precisava de mudanças nos conceitos de matéria, espaço, tempo e causalidade linear além do reconhecimento de que paradoxos representam um aspecto essencial do novo modelo do Universo.

Além disso, reconhece, os físicos ainda não são unânimes quanto à interpretação filosófica e as implicações metafísicas desses esquemas de pensamento.

2.2.1 Paralelismos entre Física e Mística

Estudioso da física moderna e do misticismo oriental, Capra (1983) encontrou inúmeras semelhanças entre ambas.

Segundo ele, "(...) as teorias e modelos principais da física moderna, levam-nos a uma visão do mundo que é internamente consistente e está em perfeita harmonia com as concepções do misticismo oriental." (p.226)

Ressalva, entretanto o autor, que, a interpretação da teoria quântica não é unânime entre os físicos, que não chegaram ainda a um modelo metafísico claro após quarenta anos de estudos, o que não acontece com a descrição de sua estrutura matemática.

A característica mais importante da visão oriental do mundo, conforme ele pensa, é a consciência da unidade e da inter-relação de todas as coisas e eventos, sendo que todas as coisas são encaradas como partes interdependentes e inseparáveis do todo cósmico. Igualmente na física moderna esta característica é acentuada.

No misticismo oriental, revela, o estado de entrelaçamento universal sempre inclui o observador humano e sua consciência; o mesmo também ocorre na física atômica, onde os objetos só podem ser compreendidos em termos da interação entre os processos de preparação e de medição, sendo que o cientista não pode desempenhar o papel de um observador objetivo distanciado, tornando-se envolvido no mundo que observa na medida em que influencia as propriedades dos objetos observados.

O conhecimento místico, acrescenta, nunca pode ser obtido pela simples observação, mas somente através da plena participação do indivíduo, sendo que esta noção é levada a um tal ponto que observador e observado não só serão inseparáveis como também se tornam indistinguíveis.

A realidade do físico atômico, destaca o autor, à semelhança da realidade do místico oriental, transcende os estreitos limites dos conceitos opostos. Inclui entre os conceitos transcendidos na física moderna os de força e matéria, partículas e ondas, movimento e repouso, existência e não-existência. Revela ele que à semelhança dos físicos atômicos, os místicos orientais lidam com uma realidade que se situa além da existência e da não-existência.

Afirma que o princípio da incerteza de Heisenberg e a noção de complementaridade introduzida por Bohr, esclarecem a visão dos físicos modernos, sendo que os sábios chineses representavam essa complementaridade de opostos pelo par arquetípico Yin e Yang, considerando sua interação dinâmica como a essência de todos os fenômenos naturais e de todas as situações humanas. Acrescenta o autor que Bohr estava cônscio do paralelo entre o conceito de complementaridade e o pensamento chinês, e que reconheceu a profunda harmonia existente entre a antiga sabedoria oriental e a moderna ciência ocidental.

Destaca este autor que a física moderna confirmou uma das idéias básicas do misticismo oriental: a de que todos os conceitos que utilizamos para descrever a natureza são limitados, não sendo características da realidade, como tendemos a acreditar, mas criações da mente.

A filosofia oriental, observa o autor, ao contrário da grega, sempre sustentou que espaço e tempo são construções da mente, tratando estes conceitos como os demais conceitos intelectuais, ou seja, como algo relativo, limitado e ilusório.

A nova visão de espaço e tempo que vem à tona com a teoria da relatividade, comenta ele, se baseia na descoberta de que todas as medidas de espaço e tempo são relativas e dependem do observador.

Os místicos do Oriente, afirma, parecem estar em condições de atingir estados não usuais de consciência, nos quais transcendem o mundo tridimensional da vida cotidiana experimentando uma realidade mais elevada, multidimensional, na qual são levados a noções de espaço e tempo semelhantes àquelas tratadas na teoria da relatividade.

Igualmente, acrescenta o autor, os místicos orientais asseguram que ao transcender o tempo, transcendem também o mundo de causa e efeito, sendo a causalidade uma idéia limitada a uma certa experiência do mundo que deve ser posta de lado quando esta experiência se amplia.

Capra (1983) revela que o Hinduísmo concebe a idéia de um cosmos orgânico, crescendo e movendo-se ritmicamente; de um Universo em que tudo é fluído e em permanente mudança, em que todas as forças estáticas são "maya", ou seja, ilusórias. Comenta o autor que os budistas denominam esse mundo de mudança incessante de "samsara" (que significa "em movimento incessante"), e afirmam que não faz sentido o apego a coisa alguma deste mundo, sendo que um ser iluminado para eles, é aquele que não resiste ao fluxo da vida mas permanece em movimento com ele.

Em todos os textos orientais, observa o autor, o mundo é concebido em termos de movimento, fluxo e mudança.

Ressalta que a física moderna também concebe, atualmente, o Universo como essa teia de revelações e que, à semelhança do misticismo oriental, reconhece que essa teia é intrinsecamente dinâmica. Explica ele, que o aspecto dinâmico da matéria emerge da teoria quântica como uma conseqüência da natureza ondulatória das partículas subatômicas, e que é ainda mais essencial na teoria da relatividade.

O autor revela que a física moderna mostra-nos (em nível macroscópico), que os objetos materiais não são entidades distintas, mas se encontram inseparavelmente vinculados a seu meio e que suas propriedades só podem ser compreendidas em termos de sua interação com o restante do mundo. Acrescenta que esta unidade e inter-relação mostrada na teoria da relatividade, aparece ainda mais notadamente em nível subatômico na descrição das interações entre suas partículas.

O mais estreito paralelo entre o vácuo do misticismo oriental e a física moderna, afirma este autor, é que assim como o vácuo oriental, o vácuo físico não é um estado de um simples nada, mas contém a potencialidade para todas as formas do mundo das partículas, que por sua vez, não são entidades transitórias do Vácuo Subjacente.

Os místicos orientais, observa o autor, possuem uma visão dinâmica do Universo semelhante à da física moderna. Compreendem que todos os fenômenos neste mundo de mudança e transformação estão dinamicamente inter-relacionados.

A hipótese bootstrap, definida por Chew, conforme Capra (1983), que parte da idéia de que a natureza não pode ser reduzida a entidades fundamentais, mas que deve ser compreendida através de sua autoconsistência, constitui a rejeição final da concepção mecanicista do mundo na física moderna. Segundo o autor, esta visão da natureza está em harmonia com o pensamento oriental, tanto em sua filosofia geral quanto em sua representação específica da matéria.

Na visão oriental, conclui, como na visão da física moderna, "tudo no Universo está conectado a tudo o mais e nenhuma parte dele é fundamental. As propriedades de qualquer parte são determinadas, não por alguma lei fundamental, mas pelas propriedades de todas as demais partes." (p.217)

As principais escolas do misticismo oriental, conforme Capra (1983), concordam com a visão que a filosofia bootstrap tem o Universo, concebendo-o como um todo interconectado no qual nenhuma parte é mais fundamental que qualquer outra, de tal forma que as propriedades de qualquer uma das partes são determinadas pelas propriedades de todas as outras.

Capra (1983), assinala que, apesar das abordagens diferentes, é possível encontrar muitos paralelismos entre as concepções dos físicos e dos místicos, conforme procurou descrever. Destaca ainda que ambos os métodos são empíricos, sendo que os físicos derivam seu conhecimento de experimentos e os místicos de insights na meditação. Ambas são observações sendo que apesar do objeto de observação dos dois ser diferente, ambos chegam à mesma conclusão: um, a partir do reino interior; o outro, do mundo exterior.

As implicações da aceitação desses paralelismos, reflete o autor, podem levar a alguns questionamentos. Esclarece que considera a ciência e o misticismo como manifestações complementares da mente humana, de suas faculdades racionais e intuitivas.

Segundo Capra (1983, p. 228):

"A ciência não necessita do misticismo e este não necessita daquela; o homem, contudo, necessita de ambos. A experiência mística é necessária para a compreensão da natureza mais profunda das coisas, e a ciência é essencial para a vida moderna. Necessitamos , na verdade, não de uma síntese mas de uma interação dinâmica entre a intuição mística e análise científica."

Alguns estudiosos, no entanto, manifestaram-se em oposição aos paralelismos propostos por Capra entre a física moderna e o misticismo oriental. Entre eles René Guénon e Ken Wilber.

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