domingo, 3 de fevereiro de 2008

 

Psicologia Transpessoal - em busca da unidade do ser

Parte 3 - Crise e Transformação

Ana Maria Garcez



"Se hoje existe um campo em que é indispensável ser humilde e aceitar uma pluralidade de opiniões aparentemente contraditórias, esse campo é o da Psicologia aplicada. Isto porque ainda estamos longe de conhecer a fundo o objeto mais nobre da ciência - a própria alma humana. É pelo ser humano que devemos começar, para poder fazer-lhe justiça." Carl Gustav Jung

"É muito interessante à que na física moderna, quanto mais lógico se é, mais errado se está. Isso patenteia os limites da nossa lógica." Lama Govinda

3.1 Surgimento do Novo Paradigma

Conforme estudiosos de diversas áreas, atualmente vivemos uma revolução científica e epistemológica caracterizada pelo surgimento de um novo paradigma, o paradigma holístico.

Em grego, paradigma significa exemplo, modelo ou padrão. (Crema, 1991)

Capra (1983), a partir de investigações sobre as implicações sociais da atual mudança de paradigmas, constatou que os principais problemas do nosso tempo - ameaça de guerra nuclear, devastação do meio ambiente natural, a pobreza e a fome no mundo, entre outros - são facetas diferentes de uma única crise, uma crise de percepção.

Isso porque, explica o autor, a maioria de nós e nossas grandes instituições sociais adere aos conceitos e aos valores de uma visão de mundo obsoleta, a uma paradigma que é inadequado para lidar com os problemas do nosso tempo.

Revela ainda que pesquisadores da ciência, movimentos sociais e redes alternativas estão desenvolvendo uma nova visão de realidade que formar as bases das tecnologias, sistemas econômicos e instituições sociais do futuro.

Este autor lembra que o paradigma que agora retrocede, dominou nossa cultura por v rios séculos, quando modelou a moderna sociedade ocidental, influenciando também o restante do mundo, consistindo numa série de idéias e valores, tais como a concepção do Universo como um sistema mecânico, o corpo humano associado a uma m quina, a vida como competição, etc.

Todas essas suposições têm sido questionadas e nesta revisão surge o novo paradigma que enfoca uma visão holística de mundo, enfatizando o todo em vez das partes.

Weil (apud Crema, 1989), alerta que embora devamos reconhecer a emergência de um novo paradigma a ser assimilado pelo mundo contemporâneo, não podemos fazer uma negação do antigo paradigma, que provou ser eficaz no mundo da macrofísica.

Aponta também que a abordagem holística não é uma simples mistura de várias disciplinas, considerando essa concepção apressada e equivocada, que pode levar a distorções de uma proposta séria e legítima. Acredita que na holística, as correntes já existentes podem encontrar-se na busca de soluções criativas para os problemas específicos da nossa época, levando em conta a experiência do passado.

Conforme Weil (1989, p. 12):

"O que a abordagem holística exige é abertura de espírito dos especialistas para outras áreas vizinhas ou distantes, a dissolução das tendências reducionistas, e sobretudo, a adoção de uma ética natural ou provisoriamente forjada, para impedir que as aplicações tecnológicas irresponsáveis levem a humanidade para um desastre de conseqüências previsíveis."

A revolução científica que ora é anunciada define uma mudança de paradigma.

A transição de um paradigma para outro, caracteriza-se por uma crise que reflete as contradições de um modelo limitativo.

Crema (1991), faz uma análise do outro lado do progresso tecnológico, apontando que hoje vivemos numa época caracterizada pela divisão, pelas dissensões, pela violência, destruição e guerra. Crê que nosso mundo está numa crise provocada por lacunas e falhas do paradigma reinante e suas extrapolações.

Observa este autor que a felicidade prometida pela ciência moderna, pela tecnologia, não se confirmou.

Constata Capra (1993) igualmente, uma profunda crise mundial, considerada complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida - a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política.

Acentua que:

"A crise atual, portanto, não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições sociais, é uma transição de dimensões planetárias. Como indivíduos, como sociedade, como civilização e como ecossistema planetário, estamos chegando a um momento decisivo." (p.30)

Conforme Weil (apud Crema, 1991. p. 150):

"A mudança do paradigma newtoniano-cartesiano para um paradigma mais abrangente, o paradigma holístico, se deve a dois fatores essenciais: por um lado, a insuficiência da lógica clássica formal para explicar certos eventos paradoxais na física quântica e na psicologia transpessoal; por outro lado, a reificação do homem, com a conseqüente repressão dos valores superiores, particularmente o amor verdadeiro."

Crema (1989, p.59) reafirma esse ponto de vista ressaltado que:

"O paradigma holístico (relembrando, do grego Holos = Totalidade), representa uma revolução científica e epistemológica que emerge como resposta à perigosa e alienante tendência fragmentária e reducionista do antigo paradigma."

Weil (1990) no entanto esclarece que essa definição não implica na rejeição do antigo paradigma, com suas implicações na macrofísica, na biologia, psicologia, etc. Acredita que isto seria um contra-senso; afirma que os autênticos defensores do novo paradigma não tomam essa posição de rejeição.

Explica que o novo paradigma é mais abrangente e reconhece as limitações e os perigos do reducionismo cientificista ou da extrapolação desses critérios a domínios onde não se aplicam.

O referido autor considera importante que sejam estimuladas especulações e pesquisas no campo do novo paradigma, estabelecendo critérios metodológicos norteadores de sua atuação.

Afirma que:

"(...) do encontro entre ciência e tradição surgirão novas metodologias de pesquisa; integrando razão lógica, intuição e outros processos investigadores até agora ignorados ou rejeitados pelo establishment científico atual." (p.120)

3.2 A Visão Holística

A palavra "holística" vem sendo introduzida h aproximadamente quinze anos no vocabulário anglo-saxão e francês. Weil (1990) esclarece sua origem e significado:

"Holística vem do grego "holos" que significa "todo", "inteiro". Holística é, portanto, um adjetivo que se refere ao conjunto, ao "todo", em suas relações com suas "partes", à inteireza do mundo e dos seres." (p.13)

A criação do termo "holismo" é atribuída ao filósofo sul-africano Smuts, que em 1926, escreveu o livro "Holism and Evolution". O livro tenta definir a natureza da evolução e de um fator ou princípio Subjacente a esta evolução e a todo o Universo. Este fator é chamado "Holismo". (Crema, 1991)

Atualmente o vocábulo holístico é empregado tanto na literatura da microfísica como na da psicologia transpessoal.

A visão holística pode ser entendida a partir do novo paradigma holístico conforme a Universidade Holística Internacional (UNHI):

"Este paradigma considera cada elemento de um campo como um evento que reflete e contém todas as dimensões do campo (conforme a metáfora do holograma). É uma visão na qual "o todo" e cada uma de suas sinergias estão estritamente ligados, em interações constantes e paradoxais."

Na perspectiva holística, conforme este autor, não existe a dualidade sujeito-objeto, espaço interno - espaço externo, pessoal - transpessoal, ser - não ser, real - imaginário, etc. Esta só existe num plano relativo, que é ultrapassado pela abordagem holística do real. Esta visão é uma tentativa de aproximação entre a ciência e as tradições.

Como a visão holística não pode ser produto apenas de uma interpretação intelectual, necessita de uma abordagem holística.


3.2.1 Abordagem holística

Segundo Weil (1990) a abordagem holística "é o conjunto de métodos que permitem ao homem a compreensão da perspectiva holística." (p.17)

Esses métodos são agrupados em duas grandes categorias: a holologia e a holopraxis.

A holologia permite chegar ao conhecimento holístico pelo caminho intelectual ou experimental. Consiste no estudo teórico do antigo e do novo paradigma. Implica a interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade e integra o estudo dos textos tradicionais e das pesquisas científicas.

Para Crema (1991) a holopráxis na vida pessoal é o conjunto de métodos orientais e ocidentais que leva à vivência holística ou transpessoal. Entre eles a ioga, o tai-chi, as diferentes formas de meditação, o zazen, o sufismo, as artes marciais como o judô e o aikidô, os caminhos ocidentais de realização, a psicoterapia iniciática, a psicosíntese, o psicodrama.

Conforme o autor acima, na vida cotidiana podemos buscar a vivência holística praticando uma vida harmoniosa de valores éticos a amor altruísta.

Em um nível mais amplo e também mais superficial identifica a aplicação da visão holística na sociedade, através de iniciativas que tendem a construir pontes sobre as fronteiras internacionais, religiosas, culturais, profissionais e políticas. Portanto, para se chegar a uma visão holística integral é indispensável combinar os dois enfoques - holologia e holopraxis - de modo harmonioso.

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