segunda-feira, 10 de março de 2008

 

Psicologia Transpessoal - em busca da unidade do ser

Parte 4 - O enfoque holístico em Psicologia

Ana Maria Garcez




"O homem é livre de tudo o que sabe e escravo de tudo o que ignora." (Rohden)

"Deus dorme nos minerais, sente nos vegetais, sonha nos animais e desperta no homem." (Ditado oriental antigo)

"Um em tudo
O tudo em Um.
Se apenas isto por compreendido
Não te preocupes mais com tua imperfeição."
(Seng Tsan)

"De uma determinada geração de homens e mulheres bem poucos alcançam a finalidade suprema da vida humana. A oportunidade de chegar ao conhecimento unitivo será , de uma forma ou de outra, oferecida, até que todos os seres humanos compreendam, de fato, quem eles são." (Aldous Huxley)

4.1 A Psicologia Transpessoal

O desenvolvimento da psicologia humanista, na década de sessenta, afirma Capra (1993), com sua ênfase sobre a auto-realização, gerou um novo movimento que tratava dos aspectos espirituais, transcendentes ou místicos da auto-realização. Este movimento foi denominado "Psicologia Transpessoal".

Como seus interesses aproximam-se das tradições espirituais, muitos psicólogos que aderiram a esse movimento, trabalham em sistemas conceituais que pretendem unir e integrar a psicologia na busca espiritual.

No nível transpessoal, conforme este autor:

"(...) o objetivo da terapia é ajudar os pacientes a integrar suas experiências transpessoais com suas formas ordinárias de consciência no processo de crescimento interior e desenvolvimento espiritual." (p.373)

Os modelos conceituais que se ocupam do domínio transpessoal, segundo este autor, incluem a psicologia analítica de Jung, a psicologia do ser de Maslov, e a psicossíntese de Assagioli.

Segundo Capra (1993), ao romper com Freud, Jung abandonou os modelos newtonianos de psicanálise e desenvolveu numerosos conceitos que são inteiramente compatíveis com os da física moderna e da teoria geral dos sistemas. Revela que Jung estava consciente dessas semelhanças pois mantinha contato estreito com muitos dos mais eminentes físicos de seu tempo.

Este mesmo autor destaca as diferenças entre as concepções de Freud e Jung. Aponta que a teoria freudiana da mente baseava-se no conceito do organismo humano como uma complexa má quina biológica, onde a vida mental, na saúde e na doença, refletia a interação de forças instintivas no interior do organismo e seus choques com o mundo exterior. Assinala que apesar das concepções de Freud sobre a dinâmica destes fenômenos terem mudado com o tempo, este nunca abandonou sua orientação cartesiana básica. Jung, no entanto, comenta o autor, não estava interessado em explicar os fenômenos psicológicos em termos de mecanismos específicos, mas tentou, diferentemente, compreender a psique em sua totalidade, especialmente suas relações com o meio ambiente mais vasto.

Conforme Capra (1993), Jung via a psique como um sistema dinâmico auto-regulador, caracterizado por flutuações entre pólos opostos, tendo usado o termo "libido" para descrever sua dinâmica, porém dando-lhe um significado muito diferente de Freud. Acrescentando que, para Freud, "libido" era um impulso instintivo intimamente ligado à sexualidade, com propriedades semelhantes às de uma força na mecânica newtoniana, enquanto Jung concebeu a libido como uma "energia psíquica" geral, considerando-a uma manifestação da dinâmica básica da vida.

Constata o autor, no entanto, que a diferença fundamental entre as psicologias de Freud e de Jung está em suas respectivas concepções do inconsciente.

Observa que o inconsciente para Freud era predominantemente de natureza pessoal, contendo elementos que nunca foram conscientes e outros que foram esquecidos ou reprimidos. Por seu lado, Jung reconheceu essa posição mas considerava o inconsciente muito mais do que isso. Para ele, o inconsciente era a própria fonte da consciência, sendo que já existe ao nascer. Grof (1987) esclarece que para Jung o inconsciente não era um depósito psicobiológico de tendências instintivas rejeitadas, memórias reprimidas e proibições assimiladas subconscientemente, como pensava Freud, mas o via como um princípio criativo e inteligente, ligando o indivíduo a toda a humanidade, à natureza e a todo o cosmos.

Ressalta que, através da análise de seus próprio sonhos e dos sonhos e fantasias de seus pacientes, Jung descobriu que estes contém imagens e motivos que podem ser encontrados nos mais diversos pontos da terra assim como em diferentes períodos da história da humanidade.

Desta forma suas observações o levaram a concluir que há um inconsciente coletivo, além do inconsciente individual, que é comum a toda a humanidade. O conceito de inconsciente coletivo, complementa, propõe um vínculo entre o indivíduo e a humanidade como um todo, envolvendo padrões formados pelas experiências remotas da humanidade, que refletem-se em sonhos assim como nos motivos universais de mitos e contos de fada no mundo inteiro.

Franz (s.d.) afirma que os conceitos de inconsciente coletivo e arquétipos de Jung sofreram muitas interpretações errôneas. Ela esclarece que na concepção de Jung, os arquétipos são os dinamismos inconscientes por trás das representações coletivas conscientes, acrescentando que eles a produzem, mas não são idênticas a elas. Revela também que Jung enfatizou que os arquétipos são estruturas que só podem ser isoladas de modo relativo pois se interpenetram num grau extraordinário, sendo possível na prática estabelecer associações de sentido, de motivo e de identidade entre todos os símbolos arquetípicos, mas que uma delimitação racional de certos motivos é arbitrária.

Segundo Fadimam e Frager (1979) o conceito de inconsciente coletivo constitui uma das maiores contribuições da obra de Jung à Psicologia.

Acrescentam que Jung dedicou-se ao estudo das antigas tradições ocidentais e orientais sendo que estas últimas lhe forneceram a primeira confirmação exterior de muitas de suas próprias idéias, especialmente do seu conceito de individuação.

Os mesmos autores apontam que:

"Jung descobriu que as descrições orientais do crescimento espiritual, do desenvolvimento psíquico e da integração, correspondem rigorosamente ao processo de individuação que ele observou em seus pacientes ocidentais." (p.46)

No entanto preocupou-se em apontar importantes diferenças entre os caminhos de individuação oriental e ocidental, pois reconhece que a estrutura social e cultural onde o processo ocorre, é muito diferente no Oriente e no Ocidente.

Conforme Hall (1981), Jung enfatizou que o alvo da vida é a individuação, e que segundo ele, a individuação é a manifestação, na vida, do potencial inato e congênito da pessoa. Acentua que a individuação é mais uma busca do que um alvo e que, o ego neste processo, alcança, repetidas vezes, pontos nos quais deve transcender a imagem que fazia de si mesmo até então. Revela, por isso, que é uma experiência dolorosa. Este autor afirma que muitos sintomas neuróticos são causados pela tentativa do ego no sentido de recuar diante de um desenvolvimento necessário no processo de individuação, e que Jung propunha que o sujeito "vivenciasse" seu conflito interno até chegar a uma solução, não apenas lidando com os sintomas no sentido de eliminá-los. Isso pressupõe, acrescenta ele, que a pessoa "participe" do seu sofrimento, ao invés de ser uma vítima passiva.

Revela ainda este autor que a individuação descreve "o processo pelo qual as potencialidades de uma psique particular se manifestam no curso de uma história de vida." (1988, p. 64)

Outro importante conceito desenvolvido por Jung foi o se "sincronicidade". Consiste segundo Franz (s.d.) numa conexão entre um evento interior (sonho, fantasia, pressentimento) e um evento exterior, que não é considerado causal, ou seja, de causa e efeito, mas antes de uma relativa simultaneidade, apresentando-se ambos os eventos um mesmo significado para o indivíduo que passa pela experiência.

O princípio da sincronicidade, conforme Jaffé (1988), tornou possível a classificação científica e a compreensão de numerosos fenômenos até então inexplicáveis. Com base nesses conhecimentos, afirma, a parapsicologia passou a ser a ponte entre a psicologia do inconsciente e a microfísica.

Jaffé (1988) revela que para Jung, a parapsicologia não era apenas objeto de pesquisa científica, experiências e teoria, já que sua própria vida era rica de experiências pessoais no domínio dos fenômenos espontâneos e acausais ou misteriosos.

No entanto, afirma ela, os fenômenos ocultos revelados em certas ocorrências acausais, as percepções extra-sensoriais, consistiram para Jung, motivo de grande interesse. J. B. Rhine comprovou estatisticamente através de experiências, que o homem possui a faculdade paranormal de ter percepções extra-sensoriais (ESP). A partir daí, Jung apoiou-se amplamente nos resultados positivos das pesquisas de Rhine. Acrescenta ainda a autora que a principal objeção à sustentação científica dos fenômenos parapsicológicos baseia-se na impossibilidade da explicação causal, sendo que para o homem ocidental é uma dificuldade quase insuperável abandonar a categoria da causalidade - válida como absoluta desde Descartes - e aceitar a realidade das relações acausais.

Entretanto, acrescenta esta autora, Jung constatou que em determinadas circunstâncias há necessidade de recorrer à outro princípio elucidativo, no caso a sincronicidade.

Atualmente, este ponto de vista parece estar sendo confirmado por numerosas conquistas na física.

Grof (1987), acredita que a contribuição fundamental de Jung para a psicoterapia foi seu reconhecimento das dimensões espirituais da psique e suas descobertas nos campos transpessoais. Revela ainda que o material resultante das inúmeras pesquisas psicodélicas que realizou, sustenta a existência do inconsciente coletivo, da dinâmica das estruturas arquetípicas, da compreensão junguiana da natureza da libido, da distinção feita por Jung entre ego e self, do reconhecimento da função criativa do inconsciente, do processo da individuação e da sincronicidade. Ressalta que as diferenças encontradas nos conceitos junguianos em relação às suas experiências psicodélicas são relativamente poucas, se comparadas com as similaridades ou concordâncias.

Segundo Grof (1987) cabe a Maslow o crédito pela primeira formulação explícita dos princípios da psicologia transpessoal.

Uma de suas grandes contribuições, destaca este autor, foi seu estudo sobre indivíduos que tiveram espontaneamente, experiências místicas ou de "pico". Refere o autor que na psicoterapia tradicional, experiências místicas de qualquer tipo são consideradas sérias psicopatologias, e encaradas como processo psicótico. Porém revela que Maslow, em seu estudo, demonstrou que as pessoas que tiveram experiências espontâneas de "pico" beneficiavam-se delas com freqüência e mostravam uma clara tendência para a auto-realização. A partir desse fato delineou os fundamentos de uma nova psicologia.

Conforme Frick (1973) Maslow propunha uma ciência menos preocupada com a tecnologia e a an lise reducionista e mais comprometida com uma concepção holista, funcional e dinâmica. Revela que Maslow chamou este enfoque de "ponto de vista holista-dinâmico".

Outro sistema de psicologia a ser abordado aqui é a "psicossíntese", desenvolvido pelo psiquiatra italiano Assagioli.

A psicossíntese constitui, conforme Grof (1987), uma nova técnica de terapia e auto-exploração, cujo sistema conceitual é fundamentado na suposição de que o indivíduo está em um constante processo de crescimento, atualizando seu potencial oculto. Focaliza os elementos positivos e criativos da natureza humana e acentua a importância funcional da vontade.

O processo terapêutico da psicossíntese, resume o referido autor, envolve quatro estágios consecutivos. Primeiramente o cliente toma conhecimento de v rios elementos de sua personalidade. O passo seguinte é a desidentificação com esses elementos e a tentativa de controlá-los. Após descobrir gradualmente seu centro psicológico unificado, é possível ao cliente a realização total da psicossíntese, que se caracteriza pela culminância do processo de auto-realização e integração dos "eus" à volta do novo centro.

Conforme Assagioli (1982), entretanto, os vários estágios do processo da psicossíntese estão intimamente inter-relacionados e não precisam ser seguidos numa estrita sucessão de fases ou períodos distintos. O processo pode ser iniciado em vários pontos simultaneamente e os diferentes métodos podem ser criteriosamente alternados de acordo com as circunstâncias e as condições internas.

De acordo com Assagioli (1982, p. 43), a psicossíntese é ou pode tornar-se:

"Um método de desenvolvimento psicológico e de auto-realização para aqueles que se recusam a permanecer escravos de seus próprios fantasmas interiores ou de influências externas, que se recusam a submeter-se passivamente ao jogo de forças psicológicas em curso dentro dela, e que estão determinados a tornarem-se os senhores de suas próprias vidas."

O modelo descrito por Assagioli, aproxima-se bastante das concepções junguianas.

É preciso fazer referência, ainda, ao trabalho desenvolvido por Pierre Weil, psicólogo e estudioso da Psicologia Transpessoal.

Segundo Weil (1991), a Psicologia Transpessoal, como um ramo da psicologia especializada no estudo dos estados de consciência, lida especialmente com a "experiência cósmica", "ou os estados ditos superiores" ou "ampliados" da consciência, que consistem na entrada numa dimensão fora da do espaço-tempo tal como se percebe pelos cinco sentidos. Trata-se, portanto, de uma ampliação da consciência comum que leva a uma realidade que se aproxima muito dos conceitos da física moderna.

Weil (1979), procura definir os diferentes estados de consciência existentes.

Refere que Tart definiu um estado de consciência como um sistema feito de subsistemas e estruturas sendo que, como sistema, um estado de consciência é um conjunto de eventos energéticos.

Este autor cita como exemplo que no estado de consciência de vigília, percebemos um pedra com sua cor acinzentada, suas nuanças, sua forma e textura. No estado de consciência cósmica, percebemos a estrutura atômica e energética desta pedra e podemos, inclusive, "viajar" dentro dela até nos confundirmos com a mesma, quando desapareceria a diferença observador e objeto observado. Conclui que em cada estado de consciência percebemos a mesma realidade de modo diferente, mas nem por isto mais ou menos verdadeiros.

Os principais estados de consciência que são conhecidos atualmente, segundo a descrição do referido autor são:

1 - Estado de consciência de sono profundo (sem sonhos): Registro no eletroencefalograma de ondas delta, extremamente lentas, abaixo de quatro ciclos por segundo. Os olhos ficam imóveis. Desaparece o mundo do ego (mente, emoções, os cinco sentidos), da dualidade, da tridimensionalidade do tempo e do espaço. A consciência forma uma unidade com a consciência universal ou cósmica.

2 - Estado de consciência de sonho

3 - Estado de consciência de devaneios: Estado intermediário entre o de vigília e o de sonho. Neste estado surgem as idéias criativas. A atenção é difusa e há receptividade. O eletroencefalograma registra uma predominância de ondas alfa, de 9 a 13 ciclos por segundo.

4 - Estado de consciência de vigília: Mais comum e mais conhecido de todos. Estado de consciência que nos encontramos quando estamos acordados, pensando, trabalhando, etc. No registro eletroencefalográfico, aparecem ondas beta, de freqüência bastante rápida, de 14 a 26 ciclos por segundo).

5 - Estado de despertar: Estado intermediário entre a consciência cósmica e a consciência individual no seu estado de vigília. O campo da consciência se amplifica. A concentração em estado de relaxamento profundo e a meditação são os instrumentos ideais para penetrar neste estado.

6 - Estados transpessoal ou de consciência cósmica: Resultante de uma integração do estado de consciência de sono profundo no de sonho, devaneio e vigília. Quanto mais expandida a consciência, tanto menor a freqüência das ondas do cérebro.

7 - Outros estados de consciência: Recebem outras denominações por serem induzidos de fora (por drogas, pela ação direta de outra pessoa, etc.). Estão dentro das faixas dos estados de consciência descritos.

Sendo a "consciência cósmica" o objeto essencial da Psicologia Transpessoal é necessário definir esse termo, a fim de explicitar o que ele representa.

A "consciência cósmica", segundo Weil (1989):

"(...) traduz uma experiência em que determinadas pessoas percebem a unidade do Cosmos e se percebem dentro dela (e não fora, como muitos poderiam imaginar); a experiência é acompanhada de sentimentos de profunda paz, plenitude, amor a todos os seres. Compreende-se de um relance o funcionamento e a razão de ser dos Universos, a relatividade das três dimensões do tempo e do espaço, a insignificância e ilusão do mundo em que vivemos, os erros monumentais cometidos por muitos seres humanos; uma iluminação acompanha muitas destas percepções. A morte é vista apenas como uma passagem para outra espécie de existência e o medo dela desaparece totalmente. Ela pode ser e é, em geral, o resultado de uma longa e lenta evolução; às vezes, no entanto, ela constitui o início de uma profunda transformação no sentido dos valores mais elevados da humanidade; neste último caso ela acontece em momento inesperado." (p.19)

Tabone (1988) refere que:

"Dentro da perspectiva da psicoterapia transpessoal é reconhecido o potencial humano para experimentar uma ampla gama de "estados alterados de consciência". Estes estados, que muitas vezes implicam uma expansão de identidade, são vistos como potencialmente úteis, saudáveis e provavelmente como tendo funções específicas." (p.104)

A psicoterapia transpessoal, afirma esta autora, "tem sido profundamente influenciada pelo Budismo, um dos mais antigos sistemas médico-filosóficos conhecidos, cujo conteúdo ético, religioso e espiritual é de grande profundidade." (p.105)

A psicologia budista, destaca, é vista como um suporte capaz de auxiliar o homem em sua busca do significado da vida e compreensão de si mesmo, da mente e da natureza da experiência.

Acrescenta que os psicólogos transpessoais estão buscando os ensinamentos espirituais e a sabedoria oriental. A abordagem transpessoal visa a integração de tais conhecimentos com a visão científica da psicologia ocidental, com o objetivo de desenvolver uma nova ciência e um novo modo de viver.

Jung (1983) revela que o ocidente possui uma tendência extrovertida e o oriente uma tendência introvertida. Por isso possuem uma característica complementar. Afirma que:

"No oriente o homem interior sempre exerceu sobre o homem exterior um poder de tal natureza que o mundo nunca teve oportunidade de separá -lo de suas raízes profundas. No ocidente, pelo contrário, o homem exterior sempre esteve de tal modo no primeiro plano, que se alienou de sua essência mais íntima." (p.498)

Assinala que ambos são unilaterais, o primeiro subestimando o mundo da consciência reflexa e o segundo, o mundo do espírito uno.

Com essa atitude extrema, afirma, ambos perdem metade do Universo e sua vida separa-se da realidade total.

Ao constatar que o homem ocidental tomou conhecimento da maneira de pensar do oriental, ao invés de aprendermos decór as técnicas espirituais do oriente e tentar imitá-las numa atitude forçada, deveríamos antes procurar ver se não existe no inconsciente uma tendência introvertida que se assemelhe ao princípio espiritual básico do Oriente.

Esta posição decorre do fato de ele reconhecer as diferenças fundamentais entre um e outro pólo, oriental e ocidental, e entender que deve haver uma busca de complementação, não uma inversão total de valores. Este também é o pensamento da Capra (1983) quando reconhece que não podemos adotar as tradições espiritualistas orientais no Ocidente sem, alterá-las em muitos aspectos importantes, para adaptá-las à nossa cultura.

A Psicologia Transpessoal, segundo Tabone (1988), considerando sua visão integradora do homem, do Universo e desta relação entre ambos, busca a união da moderna pesquisa científica da consciência com a tradição esotérica do mundo ocidental e oriental.

De acordo com esta autora os conceitos da psicoterapia transpessoal fundamentam-se na visão holística da realidade e correspondem às necessidades culturais e científicas do novo paradigma. O homem é visto como um sistema ou totalidade cuja estrutura específica emerge da interação dos níveis da consciência - físico, emocional, mental, existencial e espiritual - interligados e interdependentes.

O objetivo desses sistemas voltados para o nível transpessoal, observa Tabone (1988) é:

"Expandir a consciência e direcionar o processo de crescimento interior ou desenvolvimento espiritual rumo à consciência unitiva. Eles são indicados para as pessoas que intuem a totalidade e estão conscientizadas quanto às limitações da identificação exclusiva como o nível egóico." (p.170)

Conforme Capra (1991) a nova psicologia que surge, compatível com a visão sistêmica de vida (que vê o mundo em termos de relações e de integração) e que se harmoniza com as concepções defendidas pelas tradições espirituais, ainda não é uma teoria completa, desenvolvendo-se até agora na forma de modelos, idéias e técnicas terapêuticas pouco interligadas.

Este autor acredita que a nova psicologia tem uma perspectiva holística e dinâmica, considerando o organismo humano um todo integrado que envolve padrões físicos e psicológicos interdependentes.

Afirma ele que o foco da psicologia está se transferindo agora das estruturas psicológicas para os processos subjacentes, sendo a psique humana vista como um sistema dinâmico que envolve uma variedade de funções.

Ressalta este autor como uma grande conquista da psicologia contemporânea, uma adaptação da abordagem bootstrap à compreensão da psique humana. De acordo com essa abordagem, afirma, pode não haver uma teoria capaz de explicar o espectro total de fenômenos psicológicos, e tal como os físicos, os psicólogos terão que se contentar com uma rede de modelos interligados, usando diferentes linguagens para descrever distintos aspectos e níveis de realidade.

CONCLUSÃO

A partir da constatação da inadequação da ciência mecanicista para explicar certos fenômenos da física atômica e subatômica, revelou-se a necessidade da busca de um novo paradigma.

Com a mudança nos conceitos de realidade ocasionadas pela Física moderna, começa a surgir uma nova e consistente visão de mundo, que pode ser qualificada como orgânica, holística e ecológica.

O Universo passa a ser visto como um todo dinâmico, indivisível, cujas partes estão essencialmente inter-relacionadas, sendo entendidas dentro de um processo cósmico. Esta visão é compartilhada pelos místicos orientais, e uma identificação dos paralelismos entre a Física moderna e as concepções das tradições orientais foi realizada por Capra.

Essas similaridades, no entanto, que decorrem da metafísica da Física quântica, revelam apenas que as duas abordagens são complementares, uma vez que o físico experimenta o mundo através da mente racional e o místico da mente intuitiva. Como suas visões são convergentes, apesar da aparente falta de relação entre ambas, é necessário buscar não uma síntese, mas uma interação dinâmica entre a intuição mística e a análise científica. Assim, encontraremos um ponto de equilíbrio.

É preciso ressaltar que a nova concepção de Universo que surge não desqualifica a física newtoniana, mesmo porque os problemas surgem da aplicação da visão de mundo mecanicista e não da aplicação da física newtoniana.

Além disso, uma mudança de paradigma significa, essencialmente, que a abordagem anterior era limitada e não falsa. A ciência moderna demonstra, inclusive, que todas as teorias científicas são aproximações da verdadeira natureza da realidade.

Com relação às limitações impostas pelo paradigma mecanicista às diferentes áreas do conhecimento, acredito, como Capra, que cada ciência terá que identificar essas restrições em seu respectivo contexto.

Uma questão que decorre diretamente do modelo científico tradicional, reducionista, é a impossibilidade da formulação de enunciados científicos nas pesquisas da consciência em Psicologia. A ciência clássica está associada somente aos enunciados quantitativos e à medição, e a crítica que se faz é que ela é incapaz de lidar com a experiência, a qualidade ou os valores e, portanto, inadequada para compreender a natureza da consciência, uma experiência central do nosso mundo interior. Impõe-se, portanto, uma redefinição do conceito de ciência a fim de possibilitar o avanço da Psicologia, assim como de outros campos do conhecimento.

A teoria quântica já revelou o papel crucial da consciência do observador no processo de observação, descartando a tradicional idéia de uma descrição objetiva da natureza.

Na Psicologia, a ciência mecanicista não é apropriada ao estudo da pessoa global. É necessária, portanto, uma ciência baseada na experiência e na qualidade, de caráter complementar a abordagem já existente, que possibilite atingir a compreensão global da pessoa.

A visão de mundo holística, que enfatiza o todo em vez das partes, constitui o aspecto central do novo paradigma.

Comentei neste trabalho sobre as teorias psicológicas que apresentaram contribuições para uma compreensão mais global do ser humano, em reação às concepções existentes nas quais predominava a abordagem newtoniana.

Esses novos conceitos procuraram mostrar a relação indissociável mente-corpo, através do argumento de que o organismo é uma unidade integrada, de que o ser humano deve ser entendido como uma totalidade organizada, que busca espontaneamente o crescimento interior e a auto-realização.

Essas concepções culminaram no movimento transpessoal, que indo um pouco mais além, considera a dimensão espiritual do ser humano. As formulações psicológicas de Jung já consideravam as dimensões espirituais da psique.

Desta forma, a Psicologia Transpessoal ocupa-se com a expansão dos campos da pesquisa psicológica, incluindo os estudos dos estados de consciência, que possibilitam o conhecimento dos níveis que podem ser alcançados pelo homem, alguns dos quais estendem-se além dos limites usuais do ego e da personalidade.

O objetivo da expansão da consciência relaciona-se com o processo de crescimento interior, com o desenvolvimento espiritual em direção à unidade.

A abordagem transpessoal constitui, portanto, uma ampliação das concepções psicológicas tradicionais. E como tem uma proposta holística, não descarta a perspectiva científica ocidental, mas procura integrá-la à visão das tradições místicas orientais, configurando, assim, uma interação de abordagens complementares em benefício do ser.

Contudo, quero ressaltar que acredito que o desenvolvimento da Psicologia Transpessoal nos colocar bem mais próximos de solucionar antigas questões, que aguardam uma formulação e um entendimento mais convincente e consistente, como por exemplo, a questão da doença mental (psicose). O conceito de saúde mental, a partir deste novo enfoque holista, igualmente dever ser reformulado ao considerar a capacidade do indivíduo para integrar em sua vida, suas experiências de natureza incomum.

Finalmente, gostaria de registrar que me sinto gratificada pela oportunidade de desenvolver este estudo sobre um tema com o qual me identifico e sobre o qual nem sequer ouvi referências em todos estes anos de formação acadêmica, o que é compreensível. Procurei, assim, preencher esta lacuna, embora de forma breve, ressaltando que me sinto satisfeita pela possibilidade de explorar um campo que restitui ao homem seu caráter integral, unindo intuição e razão.

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