terça-feira, 9 de dezembro de 2008

 

A difícil arte da conscientização ambiental nas grandes empresas: o caso Wal-Mart

Paulo Stekel



O caos ambiental é evidente já há muito tempo, mas só agora estamos tomando pé da gravidade do problema. Os primeiros a perceber o problema foram as ONGs de todo o mundo, que já alertavam para o quadro atual desde 1980. Depois vieram os cientistas, corroborando as previsões dos ambientalistas. Em seguida, os cidadãos do mundo começaram a fazer sua parte (não todos, obviamente), reciclando o lixo, plantando árvores, denunciando degradações ambientais, etc. Isso tem forçado as grandes empresas a adotar políticas ambientais, planos de redução de impacto ambiental devido a suas atividades e a apoiar ações de consumo consciente. Mas não tem sido uma tarefa fácil. Há muitos “fios soltos”, de modo que nós, cidadãos, por vezes temos dificuldades em diferenciar o que sejam ações sinceramente pró-ativas de parte das empresas ou simples “tentativas de fazer o politicamente correto” com vistas a silenciar a opinião pública. Cada caso é um caso e deve ser analisado com cautela.

Há cerca de um ano temos observado que as unidades do Wal-Mart Brasil (Hipermercado BIG, Nacional, etc.) têm apoiado o consumo consciente através da venda a baixo custo das sacolas retornáveis de algodão, um projeto que ajuda a diminuir o uso de sacolas plásticas na compra de produtos. Eis uma iniciativa louvável, com toda certeza.

Contudo, paralela e contraditoriamente, temos observado que, ao entrar em qualquer supermercado da rede Wal-Mart portando bolsas ou sacolas, somos surpreendidos por uma norma absurda: temos que envolver nossos pertences em sacos plásticos que, depois de terminadas nossas compras, vão para o lixo do próprio supermercado. Conversávamos com alguns clientes – como nós também o somos – e vários deles reconheceram ser contraditório encontrarem junto aos caixas as sacolas de algodão para venda, com cartazes dizendo que nós, povo, deveríamos nos conscientizar, que deveríamos aderir a campanha para diminuirmos o uso de sacolas plásticas, mas ao olharmos para nossas bolsas, vemos que elas foram obrigatoriamente envoltas em sacos plásticos... Há poucos anos atrás, ou entrávamos com nossas bolsas ou as deixávamos em um guarda-volumes na entrada do supermercado. Por que isso mudou? Não podem implantar outros sistemas de vigia, para evitar que larápios ajam dentro dos supermercados? Precisamos ser todos suspeitos, na maior cara-de-pau, como se fôssemos ladrões em potencial? Isso chega a ser uma afronta a nossa Constituição...

Interpelado sobre os sacos plásticos, o gerente da unidade em que estávamos esclareceu que era um “mal necessário”. Mas é legal? Parece que o é. É moralmente ético? Acreditamos que não. Se por um lado se coloca o cidadão de bem na mesma vala comum do bandido que rouba em supermercados, sabemos que nenhum cidadão de bem quer ser colocado no mesmo nível. Será que acontece o mesmo nas unidades do Wal-Mart nos EUA? Acreditamos que não, porque aquele país, apesar das inúmeras críticas que recebe, dá muito mais importância à liberdade do cidadão comum do que o nosso querido Brasil. Fazemos vistas grossas a atentados à liberdade individual que, se ocorrem nos EUA, geram batalhas judiciais capazes de mudar hábitos no país inteiro. Para comprovar, basta ficarmos atentos aos noticiários.

Entramos em contato com a assessoria de imprensa do Wal-Mart na região sul, através de Juliano Filipe Rigatti (Comunicação Externa, Assuntos Corporativos, Wal-Mart Brasil - Operação Sul), e recebemos no dia 08 de dezembro a seguinta nota oficial sobre o assunto (os grifos são nossos):

Nota Wal-Mart Brasil

“O Wal-Mart tem como meta mundial reduzir em 25% os resíduos sólidos em três anos. No Brasil, a empresa assumiu ainda um compromisso de reduzir em 50% o volume de sacolas plásticas distribuídas nas lojas até 2013. É um grande desafio porque trata-se de modificar a cultura da população, mas os primeiros passos já foram dados com sucesso. Um deles é a sacola retornável, a mais barata do mercado. Desde o lançamento, em maio, a empresa já vendeu mais de meio milhão de unidades, o que mostra que o consumidor está cada vez mais atento à questão ambiental. Outra iniciativa inédita credita o cliente que não usar sacolas plásticas. Projeto piloto em Salvador e Recife, o programa foi lançado há duas semanas e repassa ao cliente integralmente o custo da sacola não utilizada. Para ter este benefício, o consumidor pode usar qualquer sacola retornável que tiver.

Em relação aos resíduos recicláveis gerados pelas lojas, no Rio Grande do Sul eles são recolhidos pela Juntapel, parceira da rede no Estado, que faz a destinação correta do material.

Quanto aos plásticos que envolvem os pertences dos clientes, trata-se de uma prática do mercado para a segurança do próprio cliente. A rede também estuda alternativas em relação a este tema.


Como se pode ver, apenas o último parágrafo se refere aos sacos plásticos que envolvem nossos pertences e, depois de um texto discorrendo sobre os (louváveis) projetos de diminuição de impacto ambiental desenvolvidos pelo Wal-Mart Brasil, alguns até bem sofisticados (reconhecemos), uma decepção: não se encontrou ainda nenhuma alternativa para um problema relativamente simples, que é o uso dos sacos plásticos em nossas bolsas e volumes em geral. Fomos informados de que o Wal-Mart está aberto a sugestões. Muito bem, caro leitor. Aproveite e faça a sua sugestão, já que você deve ser o maior interessado em ter seus direitos garantidos, bem como o meio ambiente preservado. Entre em contato, seja por e-mail, seja através das caixinhas de sugestões nos próprios supermercados, e dê sua opinião sobre o que pode ser feito. Mas garanta seus direitos de liberdade e de preservação, que não são de modo algum incompatíveis.

Dando o exemplo, de nossa parte, fazemos algumas sugestões: implantar um lacre de material não poluente para as aberturas das bolsas, que seria aberto apenas na saída; implantar um chip eletrônico em todos os produtos que são alvo de roubo (já há chips nos mais caros!); aumentar os níveis gerais de segurança (mais câmeras, seguranças, sistemas eletrônicos de rastreamento dos produtos), procurando sempre minimizar impactos ambientais por causa deste incremento; retornar ao sistema de guarda-volumes pelo menos nas unidades com menor fluxo de clientes.

Em meio a estes “fios soltos” há, sim, iniciativas pioneiras do Wal-Mart Brasil. Uma delas é o Hipermercado Ecoeficiente, inaugurado no bairro de Campinho, zona norte do Rio de Janeiro, em 03 de dezembro último. O modelo servirá de base para as novas lojas em todo o país, reduzindo no mínimo em 25% o consumo de energia e em 40% o de água.

Segundo Héctor Núñez, presidente do Wal-Mart Brasil: “Esta loja é resultado de um trabalho que fazemos desde 2005, testando e introduzindo mudanças em nossas unidades que contribuem para o meio ambiente. Muitas já são permanentes e utilizadas em várias de nossas lojas, independente do formato. Em Campinho reunimos mais de 60 dessas iniciativas. É a primeira vez que uma loja desse porte contempla tantas mudanças relacionadas à sustentabilidade. Todas as lojas do Wal-Mart Brasil serão ecoeficientes, em diferentes níveis, de acordo com as possibilidades geográficas e físicas de cada unidade. As soluções implantadas variam de acordo com as características do terreno, localização da unidade e o tipo de loja, mas o desafio é introduzir o maior número possível de iniciativas e, assim, potencializar o benefício de cada mudança.”

Uma iniciativa muito boa, com certeza. Quiçá, outras empresas possam enveredar pelo mesmo caminho, de forma sincera, engajada e permanente. Mas, se problemas mais complexos foram resolvidos nesta loja, por que os sacos plásticos continuam envolvendo nossos pertences? Cidadãos, vamos às sugestões!

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