segunda-feira, 9 de julho de 2007

 

Entrevista: GABRIEL JAEGER – Reflexões sobre o Budismo hoje [versão completa]



[Entrevista concedida por um monge brasileiro residente na Índia a Paulo Stekel]


Já no primeiro contato com o monge Gabriel fomos gentilmente tratados. Tínhamos intenção de entrevistá-lo desde os primeiros números de Horizonte – Leitura Holística, mas, por força maior, só conseguimos agora. Nossa opinião é a de que o relato de um monge brasileiro vivendo em um monastério budista na Índia pode ajudar a dissipar alguns equívocos que geralmente os leigos têm sobre as bases do Budismo.
Gabriel Jaeger é monge ordenado no budismo tibetano desde fevereiro de 2004, quando tomou seu primeiro nível de votos de Kyabje Trulshik Rinpoche. Seu nome de ordenação, recebido na Índia, é Ngawang Tenphel. O início do seu treinamento monástico se deu no monastério Chokling Gompa, na colônia tibetana de Bir, estado de Himachal Pradesh, Índia.
Khenpo Sherab concedeu a Gabriel Jaeger a segunda categoria de votos monásticos de acordo com o budismo tibetano equivalente a ordenação para noviços. Em seguida, em um encontro com S.S. o Dalai Lama, Gabriel pediu a Sua Santidade que lhe concedesse a categoria completa de votos, ou de Bikshu. S.S. o Dalai Lama aceitou o pedido e disse que se deveria conversar com seu assistente pessoal para ver os procedimentos necessários. De acordo com seu assistente, S.S. o Dalai Lama aconselhou que ocidentais permaneçam três anos treinando como noviços para então tomarem os votos completos de um Bikshu com ele próprio. Assim, em 2007 se completarão os três anos que Gabriel permanece em treinamento como noviço sugeridos por S.S. o Dalai Lama quando, então, receberá sua ordenação completa.
Gabriel Jaeger nasceu em Porto Alegre (RS – Brasil) em 1981. Sua trajetória no budismo começou cedo, aos 15 anos, quando encontrou os ensinamentos através de um livro de um mestre budista tibetano. Sua vida foi tão impactada pela leitura e pelas perspectivas budistas que passou a procurar um mestre ou professor que pudesse lhe ensinar o caminho. No final de 1995, seu primeiro professor foi Padma Samten, brasileiro ordenado lama no budismo tibetano, e que o introduziu ao seu próprio mestre, Chagdud Tulku Rinpoche, que viveu no Brasil durante os últimos 10 anos de sua vida treinando alunos brasileiros e construindo o primeiro templo de arquitetura tradicional tibetana na América latina. Com 16 anos, o monge Gabriel mudou-se para uma nova área recém concedida ao centro no qual estudava a convite de seu diretor espiritual Lama Padma Samten, que estabelecia agora o Instituto Caminho do Meio. Lá, Gabriel Jaeger permaneceu estudando, praticando e trabalhando na manutenção do centro em torno de 7 anos - de 1997 ao final de 2003 -, quando deixou o centro para sua ida e subseqüente treinamento como monge na Índia.
Atualmente, Gabriel Jaeger vive e estuda na universidade monástica Dzongsar Chokyi Lodro, na cidade de Chauntra, estado de Himachal Pradesh, Índia. De lá, ele dirige e movimenta uma iniciativa pela promoção de uma cultura de paz através do valorizar métodos e conhecimentos que proporcionam um profundo olhar sobre a natureza da vida e de nossa própria mente. O projeto recebeu o nome de Montanha Dourada – Ciência da vida e da mente em prol de uma cultura de paz, que expõe suas atuações e trabalhos no site www.montanhadourada.org . Gabriel dirige também um projeto de tradução de textos budistas de suas principais línguas originais – pali, sânscrito, chinês e tibetano –,o qual ainda está em desenvolvimento, mas já dando assessoria pela internet através de uma lista de discussões e aprendizado da língua tibetana coordenada pelo monge Gabriel.

Na entrevista com o monge Gabriel fizemos várias perguntas, envolvendo sua vida na Índia, sua escola religiosa, a cultura tibetana, os textos sagrados e os rumos do budismo no Ocidente. Tratamos também de algumas questões polêmicas, como a liberdade política para o Tibete, o fundamentalismo e a sexualidade dos monges. Gabriel respondeu a todas as perguntas com a sobriedade e a sinceridade propostas pelo Buda.

Horizonte: O que o motivou a sair do Rio Grande do Sul, mudar sua vida completamente e se tornar um monge budista?

Gabriel: Minha busca pela espiritualidade começou aos meus 14 anos, quando não encontrava respostas para certas questões quando ao sentido da vida e uma inserção positiva e significativa no mundo. Na tentativa de aprender meditação, encontrei o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Porto Alegre, minha cidade natal. Lá comecei a praticar semanalmente e seguir alguns dos grupos de estudos orientados pelo presidente do centro, na época, Alfredo Aveline. Encontrei nos ensinamentos e práticas as respostas que tanto buscava. Aos poucos fui aumentando a freqüência e participação no centro. Em dezembro de 1996, Alfredo Aveline foi ordenado lama por seu mestre S.E. Chagdud Tulku Rinpoche. A partir daí, suas atividades dentro do Dharma aumentaram muito e o grupo também. Um ano depois fui convidado pelo Lama Padma Samten a residir e cuidar da nova sede que havia sido adquirida em uma área rural, no município de Viamão, RS. Lá permaneci durante 7 anos ajudando na manutenção do centro, conduzindo as práticas diárias de meditação, fazendo retiros periódicos e aprendendo o Dharma junto a Lama Samten e em retiros periódicos com Chagdud Tulku Rinpoche, no Kadro Ling, seu templo recém construído na cidade de Três Coroas, RS. Em ambos os centros tive um contato mais próximo com as práticas do budismo tibetano, as quais, em grande parte do veículo tântrico vajrayana, eram desempenhadas em sua lingual original tibetana. No contato com a cultura tibetana descobri e fui aprendendo aos poucos sobre o treinamento de monges de uma forma tradicional. Tive uma grande conexão e vontade de desempenhar tal treinamento que incluiria tanto o aprendizado do tibetano e da comprensão dos textos como dos rituais e, posteriormente, retiros que se extenderiam por anos na busca de realizar ou experienciar de forma direta o conhecimento adquirido previamente.
Ao longo dos anos esta vontade se manteve presente. Cheguei a conversar sobre esta possibilidade com Chagdud Rinpoche, o qual disse que era possível ir e treinar como um monge na Índia ou Nepal, mas que era uma vida e costumes bem diferentes dos ocidentais e geralmente era dificil para os mesmos se acostumar e resistir a tal treinamento.
Entretanto, anos depois tal semente sempre presente veio a desabrochar e eu tomei a decisão de tentar seguir meu coração. Alguns amigos e sangas budistas se mobilizaram e apoiaram minha busca. Seis meses depois tinha-se arrecadado os fundos necessarios para a passagem à Índia. Na busca de orientação para onde iria, e após o falecimento de Chagdud Rinpoche, pedi conselhos ao seu filho, Jigme Tronge Rinpoche. Ele aconselhou a possibilidade de ser aceito em um monastério que ele próprio havia estudado quando ainda muito jovem, o monastério Chokling Gompa, onde o filme de Dzongsar Khyentse Rinpoche, “A Copa”, foi filmado.
Assim, me juntei à comitiva de brasileiros que estava a ir ao Nepal para a cremação de Chagdud Rinpoche. De lá já iria direto à cidade de Bir (Índia), onde localiza-se o monastério Chokling Gompa. Logo na chegada, um vislumbre de uma cultura totalmente diferente. A cidade de Bir é um tibetezinho em meio a Índia. Uma comunidade de tibetanos com alguns monastérios ao redor. Tive a felicidade de ser aceito no monastério por seus abades Neten Chokling Rinpoche e Orgyen Tobgyal Rinpoche.
Me transferi para as dependências do monastério e começei meu treinamento como um monge. Neste monastério haviam três “escolas”, a primeira chamada Lobdra, onde se aprende a ler e escrever em tibetano. A segunda chamada Datsang onde se aprende o desempenho dos rituais e cerimônias. E uma terceira chamada Tsangkam, local de retiro onde os monges desempenham os tradicionais 3 anos, 3 meses e 3 dias de retiro incessante de meditação.
Permaneci alguns meses na primeira escola aprendendo a ler e escrever. Logo depois pedi permissão para ser transferido para a escola dos rituais, onde permaneci mais alguns meses.
No decorrer do ano que havia passado pude perceber que a língua tibetana falada é diferente da língua acadêmica ou textual. Mesmo já conseguindo me comunicar um pouco em tibetano, não conseguia entender nada dos textos e liturgias. Conversando com tibetanos, vim a saber que a compreensão dos textos era ensinada somente nas universidades monásticas. Decidi que deveria me transferir então, pois não fazia sentido para mim recitar os textos sem entendê-los. No ano seguinte, me mudei para a universidade monástica Dzongsar Chokyi Lodro Shedra dirigida por seu lama-raiz, Dzongsar Khyentse Rinpoche, e por seu abade, Khenpo Kunga Wangchuk Rinpoche. Neste monastério é onde estou até os dias de hoje, desempenhando a formação tradicional em filosofia e diáletica budista.

Horizonte: Qual é a escola tibetana da qual você faz parte?

Gabriel: Meus primeiros passos no budismo, ainda no Brasil, foram através de Chagdud Rinpoche e Lama Padma Samten. Ambos provindos da linhagem Nyingma do budismo tibetano. Entretanto, recebi uma transmissão e abordagem do budismo muito ampla de Lama Padma Samten, o qual tomava como base os ensinamentos cernes de Buda, como as Quatro Nobres Verdades e o Sutra do Coração. Tais categorias de ensinamentos são estudadas e praticadas por todas as escolas do budismo tibetano, como também nos diferentes países onde o budismo Mahayana se estabeleceu.
Dentro desta perspectiva aberta e reconhecedora da preciosidade das várias categorias de ensinamentos como expressões da sabedoria e meios hábeis da mente liberta de um Buda, tive a oportunidade de receber ensinamentos ocasionais de diferentes professores budistas. Desde o budismo Zen japonês ao Chan chinês, como também das quatro linguagens do budismo tibetano. Esta abertura e perspectiva é mantida e praticada por grandes mestres dentro do budismo tibetano, como S.S. o Dalai Lama, S.S. Sakya Trizin, Dzongsar Khyentse Rinpoche e muitos outros.
Tal perspectiva iniciou-se há alguns séculos no Tibet, principalmente por Jamyang Khyentse Wangpo, e, posteriormente, se espalhou através dos esforços de Jamgon Krontrol Rinpoche e Jamyang Khyentse Chokyi Lodro. Ambos, na aspiração de ensinamentos preciosos de algumas linhagens que estavam perigando a se extingüirem, foram na busca de encontrar os textos e receber as transmissões dos poucos mestres que ainda detinham tais ensinamentos. Posteriormente, ambos tornaram-se detentores destes ensinamentos provindos de várias linhagens e passaram a transmití-los. Tal movimeno deu origem ao que veio a se chamar a abordagem Rime ou não-sectária do budismo tibetano.
O monastério onde vivo hoje, Dzongsar Shedra, foi fundado no Tibete por um destes mestres, Jamyang Khyentse Chokyi Lodro. Aqui, o abade e professores mantêm esta perspectiva não-sectária e estudamos diferentes comentários textuais de grandes mestres provindos de diferentes linhagens. Também temos a alegria de conviver harmoniosamente com monges provindos das diversas linhagens do budismo tibetano sobre um mesmo teto. Ao perguntar, certa vez, aos meus professores aqui a qual linhagem eles pertenciam, a grande maioria se disse Rime, justificando sua asserção pelo fato de que em todas as linhagens encontramos a essência dos ensinamentos do Buda. Foi de grande felicidade ouvir isto, pois pude confirmar minha própria perspectiva desde o ínicio de meus passos no budismo. Assim, digamos que sou um monge que segue os passos ensinados pelo mestre Buda e que tenho aprendido a reconhecer aqui na Índia, através de meus professores, tal caminho proferido por Buda em suas diversas manifestações através dos diversos métodos oferecidos pelas linhagens de realização presentes.

Horizonte: Pode alguém seguir o Caminho do Buda sem pertencer formalmente a uma escola – seja tibetana ou não, seja esse alguém leigo ou monge?

Gabriel: Com certeza! Digamos que o que Buda veio a reconhecer em sua “iluminação” tenha sido a realidade tal como é, livre de nossas pré-concepções e tendências habituais. Todos nós somos livres e somos dotados de tal capacidade. Entretanto, devido a estarmos arraigados a velhos hábitos e conceitos, não conseguimos “ver” através desta perspectiva. Vemos o mundo e nós mesmos através das “lentes” conceituais enraizadas e padronizadas em nossa mente. Vemos somente o que é possível ver através de tais lentes ou referenciais. Buda reconheceu esta prisão e descobriu como sair dela. Posteriormente, ensinou os passos que levariam a tal liberdade em diversos métodos que se adaptavam as pré-disposições psicofísicas dos ouvintes. Em uma última análise, Buda ensinou como desconstruir samsara, ou percepção delusória. Para desconstruir tal construção é necessário reconhecer suas causas, sendo que a principal seria o apego e solidez que damos às nossas próprias identidades, ao nosso próprio self. Seria contraditório dizer que é necessário construir e solidificar um self ou identidade budista para atingir a liberação do mesmo. Em verdade, o budismo inteiro é uma bengala útil para caminharmos enquanto não temos boas pernas. No final, quando recuperarmos nossa saúde, tal instrumento não é mais necessário.

Horizonte: Como você se sente estando inserido numa cultura e etnia – a tibetana – que, como os judeus do passado, agora se tornou um povo sem pátria, sem independência?

Gabriel: Ao longo dos anos minhas sensações e concepções para com os tibetanos vêm mudando. Na medida em que conheço mais a fundo seus valores, seus sentimentos, suas próprias concepções e formas de pensar e agir, tenho percebido mudanças em meu olhar para com os mesmos.
De fato, é uma cultura completamente diferente da nossa, a brasileira. Entretanto, continuam sendo seres humanos dotados de qualidades e dificuldades como todos nós. Buscando felicidade e ausência de sofrimento, seres humanos como todos nós. Minha sensação é de ter aprendido muito e estar a continuar meu aprendizado na relação direta e íntima com este povo das montanhas. Um povo antigo, simples mas com uma grande preciosidade em suas mãos e completamente enraizada em sua cultura, o budismo.

Horizonte: Os tibetanos sinceramente acreditam que o Tibete será uma nação livre novamente?

Gabriel: Difícil falar por todos. Mas, digamos, a grande parte que pude ouvir, sim. Não seria nem mais um acreditar, mas seria não deixar o sonho de serem livres desaparecer. Todos sabem dos poucos progressos feitos em direção à liberdade desde 1959. A grande parte tem conhecimento da nova perspectiva de S.S. Dalai Lama, líder politico e religioso do povo tibetano que, agora, abriu a possibilidade de um diálogo com os chineses dentro de uma perspectiva da qual não se buscaria mais uma autonomia política e militar para os tibetanos, mas simplesmente uma gerência interna cultural e religiosa presidida e dirigida por tibetanos. S.S. Dalai Lama acredita que ambos, Tibete e China, podem se tornam grandes parceiros, viver em harmonia e progredir economica e espiritualmente juntos.
Entretanto, em uma última entrevista na BBC, Sua Santidade ressaltou: “Eu espero que os chineses sejam espertos o suficiente para reconhecerem esta possibilidade de diálogo aberto onde não haverá perdedores. O povo tibetano deposita grande fé na minha pessoa, e assim, vem até hoje suportando minha abordagem de não-violência. Agora, já estou chegando a uma idade avançada e não sei até quando estarei presente entre vocês. Da mesma forma, uma vez que eu não esteja mais aqui, talvez nosso povo, os tibetanos, venham a tomar um novo caminho em sua busca por liberdade, diferente de minha perspectiva pacífica. Isto poderá trazer mais problemas ao governo chinês. Espero que eles reconheçam isso e abram as portas para um diálogo comigo e com o governo tibetano em exílio em breve.”

Horizonte: Que diferenças e semelhanças você percebe entre o povo tibetano e o povo brasileiro?

Gabriel: Digamos que o Tibete antigo era um país feudal. O Tibete apresenta três grandes regiões: U e Tsang, Kham e Amdo. Podemos perceber grandes diferenças entre o povo, língua e costumes tibetanos em cada uma destas regiões. Tenho mais contato com os tibetanos provindos da região de Kham. Poderia dizer que estes se assemelham em muitos aspectos à cultura da região sul do Brasil, do gaúchos, à qual pertenço. É um povo de guerreiros. Grande parte dos tibetanos provindos desta região formavam o exército tibetano antes da invasão chinesa. Um povo com uma fala “sem cerimônias” (risos). Falam diretamente o que pensam sem deixar nada implícito e com grande honestidade. Em grande parte usam cabelos e barba compridos, e um facão na cintura... muito parecido com os gaúchos tradicionais (risos).
Entretanto, atualmente, os tibetanos residentes no Tibete sofreram já uma grande influência da cultura chinesa. É fácil de constatar comparando estes com os tibetanos nascidos na Índia, os quais sofreram grande influência através da cultura e hábitos indianos. Acredito que nos dias de hoje não existem mais tibetanos “puros”, como na época em que eram praticamente isolados do contato com o mundo ao seu redor.

Horizonte: Como é estudar numa universidade monástica “não-sectária” [rigme, tib.]? No que ela se diferencia de outras universidades monásticas budistas, tibetanas ou não?

Gabriel: Acredito que uma das principais diferenças é o intercâmbio entre monges provindos de diferentes monastérios das várias linhagens. Ocorre constantemente este intercâmbio, quando discutimos e aprendemos uns com os outros sobre variantes e nuanças presentes em cada escola, como também indagamos por vezes quais seriam suas causas. Percebo muitas vezes, no contato com monges que cresceram em monastérios pertencentes a uma linhagem específica, esta limitação, a do conhecimento somente da mandala simbólica e de significados inerentes à sua própria linhagem. Muitas vezes esta limitação pode vir a gerar o engano de que há ensinamentos, métodos e professores melhores ou piores que outros. De fato, os melhores ensinamentos, métodos e professores são aqueles que ajudam a nos transformar em pessoas melhores e a nos desenvolver dentro do caminho espiritual.

Horizonte: Que lugar realmente ocupam as Escritas Sagradas (sânscrito, pali, tibetano, chinês, etc.) no Budismo? Se existirem textos em português considerados importantes no futuro, escritos por praticantes brasileiros de grande grau de realização espiritual, isso poderia alçar a Língua Portuguesa ao mesmo nível dos textos e da língua dos tibetanos?

Gabriel: Podemos constatar através de fatos históricos que Buda Sakyamuni nasceu, viveu e se iluminou concomitantemente à cultura religiosa dominante na época, o Hinduísmo. As escrituras sagradas dos Vedas e da Yoga foram compiladas e preservadas em língua sânscrita. Assim, todo o treinamento e cultos religiosos da época eram proferidos basicamente em língua sânscrita.
O povo era naturalmente embebido pelos conceitos provindos de tal segmento espiritual. O próprio Buda, ainda jovem, com o nome de Sidarta foi batizado e treinado no aprendizado das bases de sua cultura e religião. Posteriormente, ele veio a ensinar para este povo nestes padrões, dentro desta linguagem e universo conceitual. Naturalmente, constatamos muitas idéias afins e outras das quais Buda resignificou, ainda assim, em grande parte, usando a mesma terminologia contida nas escrituras sagradas Hindus.
É dito que Buda passou grandes períodos ensinando na região de Magadha e pela região do reino de Patna, na Índia. Lá ele haveria ensinado no próprio dialeto local e posteriormente, após seu falecimento, seus ensinamentos vieram a ser compilados neste mesmo dialeto, o Maghadi. De fato, não havia um idioma chamado Páli. Isto foi uma terminologia estabelecida posteriormente, quando os textos do cânone budista foram para fora da Índia. Entretanto, há diversas perspectivas e teses diferentes quanto à verdadeira origem da língua a que chamamos de Páli nos dias de hoje, como também quanto a qual língua o Buda teria usado na grande maioria de seus discursos.
Os ensinamentos contidos em língua páli incluem o que foi proferido e relembrado pelos discípulos do Buda em três grandes concílios após seu falecimento. Durante este período muitos outros sutras ou textos contendo as palavras de Buda foram surgindo. Grande parte destes não foi aceita dentro dos concílios, e algumas pequenas cisões na sanga ocorreram. Em meados de 100/200 a.C. ocorreu um novo concílio organizado pela parte excluída, no qual foram incluídos os sutras já existentes e adicionados muitos outros. Tal novo concílio compilou estes ensinamentos na língua sânscrita, dando surgimento ao canône budista em sânscrito e ao movimento Mahayana do budismo. A partir do século III d.C. a Índia passou a receber a visita constante de peregrinos chineses em busca de conhecimento, em grande parte, do budismo. Muitos destes peregrinos passaram décadas estudando a língua, a filosofia, e praticando o caminho de Buda. Alguns tornaram-se grandes tradutores, e contribuíram em grande parte para a tradução dos textos do canône sânscrito para a língua chinesa. Desde o canône completo até tratados de medicina, astrologia e tantra estão incluídos no conjunto do canône budista em língua chinesa.
Posteriormente, em meados do século VII d.C., a partir de uma iniciativa do rei tibetano Trison Detsen, muitos peregrinos tibetanos foram enviados às terras sagradas da Índia com o propósito de estudar e trazer estes ensinamentos para serem enraizados no teto do mundo, o Tibete. Tomi Sambhota, um dos ministros assessores do rei, estudou a língua sânscrita e o budismo por 15 anos, na índia. Retornando ao Tibete, criou um sistema de escrita e gramática tibetana com base na língua sânscrita. Assim, se iniciou um processo de séculos de esforços tibetanos na tradução dos textos budistas contidos e preservados no sânscrito.
Durante todo este período, os textos budistas foram traduzidos para outras línguas orientais, mas podemos vir a realçar que nos dias de hoje, as principais línguas que preservaram e continuam a transmitir o budismo em sua integridade e totalidade são o páli, o sânscrito, o chinês e a língua tibetana. Entre estas, constatamos a importância de ambos, chinês e tibetano, devido à grande parte dos textos mahayana em sânscrito terem sido destruídos e perdidos ao longo da história da Índia. Tais textos foram preservados e podem ser acessados em sua íntegra nos canônes chinês e tibetano.
Entretanto o budismo, ou melhor, a visão de Buda, não está presa ou limitada ao contexto semântico e conceitual das escrituras. O Buda se expressa de forma perfeita e completa através da realização e experiência direta de seus ensinamentos. O transmitir desta experiência e a liberação que ela traz consigo são os meios hábeis e extraordinários dos grandes mestres desde o próprio Buda. Acredito que o nível de importância não está propriamente na língua pela qual tais ensinamentos foram preservados e são transmitidos. Mas, sim, na capacidade de liberação que eles possam vir a ter. Em um nível talvez até um pouco extremo, mas importante de ser refletido, poderíamos vir a perguntar: se os ensinamentos não proporcionarem liberação, mesmo que estes sejam as palavras do próprio Buda, qual seria sua funcionalidade?
Podemos perceber que as palavras de Buda perduram, sua essência é dotada tanto de qualidades essencialmente humanas como de uma sabedoria que transcende a própria concepção de humanidade e existência. Tal essência continua a ser estudada, tal caminho oferecido continua a ser trilhado. Os resultados continuam a ser verificados e aplicados dentro de contextos e culturas completamente diferentes ao longo da história. Ainda que adaptados à linguagem, contexto local e as tendências e pré-disposições de seus ouvintes, tais ensinamentos proferidos por brasileiros ou tibetanos, ocidentais ou asiáticos, serão sempre como se fossem as próprias palavras do Buda, caso provenham da mente brilhante e livre, presente em todos os seres.

Horizonte: O que você pensa da idéia cada vez mais difundida de que logo nascerá uma escola de "Budismo Ocidental", fruto do contato da cultura oriental com a ocidental, através de adaptações, como fizeram os tibetanos ao adaptar o Dharma budista à sua realidade? No que esta suposta escola poderia ser diferente das escolas tibetanas, por exemplo?

Gabriel: Acredito que este seja um processo natural, como ocorreu em todas as culturas pelas quais o Budismo foi transmitido e incorporado. É fácil de perceber hoje, vivendo imerso na cultura tibetana, como o Budismo é praticado aqui, e no Brasil; quais os motivos pelos quais os brasileiros vêm à busca da espiritualidade e do Budismo, como também o universo de contato e diálogo que o Budismo passa a encontrar sendo absorvido e aplicado dentro de nossa cultura.
O Brasil, como o ocidente em geral, nos últimos séculos vem sofrendo grandes transformações científicas, tecnológicas e político-econômicas. Estamos nós, brasileiros, vivendo este período de descobertas e do usufruir do resultado de nossas descobertas. A ciência se mostra interessante e benéfica dentro desta perspectiva. Grande parte do povo, incluindo a parte intelectual e a mais isenta de educação, demonstra uma especial confiança na ciência e nos resultados que vêm trazendo tanto a nível tecnológico, como também em outras áreas, como a medicina. Talvez possamos dizer que nossa comunidade tenha gerado uma espécie de fé na ciência. Entretanto, essa corrida e busca pelo desenvolvimento científico e tecnológico tem demonstrado muitas falhas ao longo de seu processo, principalmente a nível humano e de bom senso, como também espiritual. É natural observar este contato e buscas de soluções, já em tentativa por outros segmentos religiosos. Muitos destes vêm suprindo e preenchendo diferentes áreas de necessidade. O Budismo vem chegando nesta época, apresentando tanto uma qualidade especial e inteligente de diálogo com as várias ciências quanto meios de preencher e compatibilizar o cultivo de qualidades humanas junto ao próprio progresso científico-tecnológico.
Um outro aspecto que observo, particularmente em nosso povo brasileiro, é o fato de que somos um povo, em grande parte, de muita fé. Acreditar em algo, em algum propósito mais elevado, nos movimenta, nos preenche e nos dá sentido. Vemos, desde a Igreja Católica até as práticas da Umbanda e xamânicas, uma grande enfâse nos rituais. Tais cerimônias transportam as pessoas para um âmbito incomum ao corriqueiro de suas vidas. Um universo onde elas passam a sentir mais seus corações e sentimentos, como também um mergulho interno nas profundezas de seu ser. Neste âmbito vemos uma forte atração pelo Budismo Vajrayana Tântrico e sua influência na transformação de muitos brasileiros.
Acredito que um “Budismo brasileiro” não será um Budismo diferente em essência do original, mas tomará forma a partir do que nós brasileiros buscamos nele, como também quais métodos melhor nos levarão ao resultado pretendido. Quem vem à Ásia e vê o Budismo “original” presente nestes países, percebe já de imediato muitos sinais característicos de como o Budismo vem se estabelecendo e sendo aplicado no Brasil e no ocidente em geral.

Horizonte: Por que entre os praticantes budistas espalhados pelo mundo não se tem notícias de fundamentalismo radical e violento, como, infelizmente, vemos em praticantes de outras religiões? A percepção que o público em geral tem de que no Budismo isso não ocorre é verdadeira?

Gabriel: Acredito que em todas as religiões encontramos praticantes fundamentalistas e alguns violentos. Entretanto, isto não quer dizer que estes estejam seguindo os preceitos de seu caminho espiritual. Ou talvez, os mesmos tenham se identificado mais com algum tipo de abordagem de seu caminho e o interpretado de uma forma limitada de acordo com suas próprias pré-concepções, tendências e objetivos. A partir disto, podemos ver um possível surgimento de um “materialismo espiritual” gerador de fundamentalismo e violência. No caso do Budismo, ainda que encontremos em alguns de seus praticantes fundamentalismo ou pelo menos tendências fundamentalistas, esta não é uma tendência geral. Por que? Penso que há uma forte tentativa do próprio Buda e dos mestres subseqüentes a purificar isto, a se contrapôr a estas tendências como se fossem os próprios obstáculos à realização do caminho de Buda. Vemos um intenso e claro incentivo ao desempenho de práticas e ações positivas e pacíficas, tais como generosidade, ética, compaixão, meditação e o cultivo de bom senso e sabedoria. O caminho budista está baseado nestas condutas, sem elas não há o Budismo.
Entretanto, encontramos sim, ao longo da história, fatos de disputas fundamentalistas e muitas vezes violentas entre grupos budistas. Mas relembro, isto não tem nada a ver com o Budismo, mas com “seres humanos”, como acredito que em grande parte, tais ocorrências em outras religiões, têm o mesmo fundamento.

Horizonte: Os monges tibetanos não podem casar, mas os monges da Escola Terra Pura japonesa podem, pelo que soube diretamente de um deles. No caso dos japoneses, isso teria sido permitido há séculos porque se constatou que muitos monges mantinham esposas às escondidas. Como esta questão é encarada no Budismo Tibetano? Um monge poderia casar? Como ficaria seu status, neste caso?

Gabriel: Acredito que este seja um tópico delicado de se tratar. Entretanto, tentarei expor algumas de minhas percepções quanto a isto. Quando retornamos à cultura indiana e hinduísta presente na época de Buda, vemos que haviam quatro principais etapas na vida de um bom Hindu. Estas seriam a infância, a adolescência (treinamento e estudos), o casamento e a criação dos filhos e uma última etapa, já na entrada da velhice, de dedicação total à espiritualidade e ascetismo.
Nesta última fase, o hindu deixa todos os seus apegos e afazeres mundanos com total renúncia e dedica-se única e exclusivamente à prática espiritual. Mesmo anterior a Buda, dentro da espiritualidade Hindu, podemos perceber a tendência a propor que sentimentos como apego, desejo, ódio e ignorância eram qualidades que nos afastavam do divino. Buda também veio a perceber tal obstáculo, e da mesma forma renuncia à vida de príncipe e toma um caminho ascético na floresta, junto a outros yoguis. Entretanto, Buda não propôs um formato rígido em seus ensinamentos, mas ensinou de acordo com as buscas e dificuldades das pessoas, ensinou tentando oferecer algum nível de liberação aos seus ouvintes. O cerne de seu caminho foi o monástico. Podemos vir a crer ter sido o próprio método que o levou à liberação ou ter sido o método que mais se adequava às pessoas de sua época.
Ao longo da história e da transmissão do Budismo nos diversos países, este vem se adaptando e se transformando às necessidades e dificuldades humanas e locais. Tanto na China como no Tibete houve tempos de perseguição ao Budismo e aos monges, onde os mesmos tiveram que deixar seus votos ou viver à “paisana”, em meio a atividades mundanas, ainda que secretamente mantendo seus estudos e práticas budistas a nível interior. Tais ocorrências vieram a proporcionar uma nova categoria de “monge” ou “yogue” ou “praticante do Buda-Dharma. Proporcionou a característica de se poder praticar os ensinamentos em quaisquer situações, mesmo que casado, com filhos e desempenhando funções comuns necessárias à sobrevivência. Tal perspectiva já era sustentada e praticada por grandes seres realizados na Índia, ainda que em muito menor número.
De acordo com a visão encontrada nos textos clássicos budistas em língua tibetana poderíamos dizer que a essência/natureza dos votos monásticos é, de acordo com a visão Madhyamika do vinaya, “a mente da renúncia”. Que renúncia seria esta? De acordo com a visão Mahayana dos votos, tal mente de renúncia não significa em sua essência a renúncia aos afazeres do mundo e suas ilimitadas manifestações (noção comum entre ocidentais para com a conduta dos monges), mas sim, de acordo com o veículo dos sravakas e dos preceitos pratimoksha, o que deve ser abandonado e renunciado é a “delusão”. Esta seria a essência/natureza dos preceitos pratimoksha. No caso do Budismo Tibetano, encontramos as diversas categorias de seres com suas variadas pré-disposições mentais, sendo detentores simultaneamente dos votos pratimoksha, bodisatva e tântricos. Como é possível para um monge praticar tais votos simultaneamente sem conflitos?
No pratimoksha toda ação de mente, fala e corpo deludida, ou tendo como base aflições como apego, inveja, raiva, etc., devem ser abandonadas, tanto para o próprio benefício como para o benefício dos outros (outra noção geralmente equivocada por ocidentais é dizer que os votos monásticos em essência são somente para benefício próprio). Tal visão é incorreta, pois isto está ligado à aspiração, busca, pré-disposições e método de uma categoria de praticantes específica, que foi nomeada como hinayana. Os votos monásticos podem ser tomados e observados dentro de uma perspectiva hinayana, Mahayana ou vajrayana.
Mas então, um monge deveria abandonar o veneno (devido a ser agente de sofrimento) de ações deludidas de corpo, fala e mente. Ou seja, não deveria matar, roubar, mentir, ter relações sexuais etc. Entretanto, a pergunta subseqüente seria: Como prática essencial do Mahayana, deveria um monge gerar compaixão aos seres e engajar-se na prática das seis paramitas? Da mesma forma, com base em seus votos tântricos, como um monge poderia cultivar a experiência direta da natureza perfeita e ausente de existência inerente sem tomar contato com os fenômenos que se apresentam, fugindo deles? Esta seria naturalmente uma quebra da essência de seus votos tântricos.
Dentro da perspectiva destas práticas talvez o monge encontre freqüentemente circunstâncias nas quais, tomado de compaixão e dotado dos meios hábeis, terá o natural movimento de agir para o benefício dos seres mesmo que isto venha a ser um falta para com algum preceito.
Como deveria proceder o monge neste caso? Talvez ele devesse abandonar a compaixão e seus votos de bodhichita e sua prática das paramitas, isolar-se e desculpar-se ao ser necessitado de ajuda?
Esta é exatamente a razão pela qual os votos monásticos, quando mantidos por seres com predisposições hinayanas, não atingem a iluminação completa, pois revificam e reforçam uma existência inerente ao agente, a ação e ao objeto do qual foi direcionado a ação. Como seria o contrário? Como um monge observaria seus votos pratimoksha junto ao cultivo da mente bodhichita e de seus votos de bodisatva? Como observar ambos junto ao treinamento de cultivar a percepção direta dos fenômenos em sua verdadeira natureza?
De acordo com o veículos dos sravakas e da observação dos preceitos pratimoksha, a delusão deve ser abandonada. Os Bodisatvas reconhecem que a delusão não tem uma existência inerente de forma verdadeira e, assim, a transformam na percepção direta da verdade última (dharmata). No mantra secreto, delusão é reconhecida como a natureza de sabedoria primordial e, através disso, é mantida como o próprio caminho. Desta forma, enquanto que todos concordam que a delusão deve ser abandonada, de acordo com o caráter individual de cada um, um método específico é aplicado. Uma analogia comum nas escrituras budistas é a de que veneno pode ser usado em três diferentes formas: 1. Pode ser rejeitado; 2. Usado como um componente para fazer um remédio; 3. “Empoderado” pelo mantra com base na realização direta de sua natureza e, assim ingerido. O conselho natural dos mestres, de acordo com estes ensinamentos, é o de que, se o praticante não tiver um nível de realização que reconhece diretamente a ausência de existência inerente dos fenômenos, não se terá o potencial de transformar o veneno e, assim, ele de fato envenenará a pessoa. Neste caso, é melhor rejeitar o veneno (ou seja, observar alguma categoria dos votos pratimoksha).
Da mesma forma, caso não se tiver a realização direta que reconhece os fenômenos como a própria manifestação da sabedoria e natureza última, é melhor não ingerí-lo, mas transformá-lo em um componente para a criação de um remédio (observação dos votos de bodisatva e cultivo da bodhichita). Por último, através da realização direta da perfeição e natureza do veneno, ingerí-lo não causará mal algum, mas se transformará no próprio caminho, em realização e qualidades transcendentais (observação dos votos tântricos e natural cultivo da percepção última).
Poderíamos dizer que a ação de um ser realizado não está limitada a qualquer regra ou contexto, mas fundada na compaixão e amor pelos seres e na capacidade de liberação através de sua ação. Caso queiramos penetrar neste nível de ação, podemos verificar através de um exame e controle de qualidade se estamos agindo baseados na realização e motivações acima ou se estaríamos simplesmente seguindo nossos sentimentos (apegos, desejos, invejas, raiva, etc.) e tendências cármicas arraigadas.
A primeira é a própria manifestação e exercício da liberdade última.
A segunda é o simples reforçar das grades de nossa própria prisão.

Horizonte: No livro “Sete anos no Tibet”, Heinrich Harrer diz que a homossexualidade é comum nos mosteiros tibetanos. Diz ainda que percebeu que os lamas toleram estas práticas porque, pelo menos, evitariam o contato dos monges com membros do sexo oposto, o que, segundo ele, é proibido com ênfase nos códigos de ética dos monastérios. Qual é a verdade desta afirmação? Perguntamos isso porque muitas pessoas que se dizem homossexuais gostariam de se tornar praticantes – monges ou leigos – e têm receio do preconceito que poderiam sofrer ao buscar o caminho budista, coisa comum em outras religiões. Como os mosteiros encaram isso?

Gabriel: Considero sua pergunta interessante. Me faz refletir sobre algumas coisas. Talvez iniciaria contando um pouco da minha própria experiência ao chegar e dar início à minha vida e rotina dentro de um monastério tibetano como monge. Digamos que foi um bombardeio de diferenças culturais... para com tudo.
Com referência a sua pergunta, tive algumas impressões quanto a uma forte tendência homossexual, não somente para com os monges tibetanos, mas para com os indianos do sexo masculino em geral. Culturamente os indianos andam de mãos dadas com seus amigos, demonstram carinho publicamente, sentam no colo um dos outros, fazem cafuné, etc.
Para mim, a primeira vez que vi tal cena, foi constatar com absoluta certeza que estava a presenciar uma grande comunidade homossexual na Índia (risos). Fui observando tal conduta por todos os lados...
Quando iniciei minha vida como monge no monastério tive o impulso de defesa em várias ocasiões... (risos) quando fui abordado por algum outro monge me abraçando, fazendo carinho no meu corpo ou entrelaçando seus dedos nos meus como namorados fazem no Brasil. Para um monge “gaúcho” tais sinais eram claros e dignos de serem interrompidos (risos).
Com o tempo, após alguns meses, percebi que não rolava mais nada além disto. Era uma demonstração de carinho entre amigos homens muito parecida à que temos em nossa cultura entre adolescentes do sexo feminino. Pude constatar este carinho publicamente e dentro das paredes dos quartos dos monastérios. Igual, nada a mais nem a menos.
Por outro lado, isto não quer dizer que não “exista homossexualismo” entre monges, como também que não existam monges que pulam a cerca (do monastério... risos) para exercitar seu heterossexualismo. Em um monastério encontramos seres humanos, não encontramos Budas. Alguns destes seres humanos já com um elevado grau de conhecimento e realização do caminho, outros recém iniciando, outros com muitas dificuldades, etc.
Entre estes tantos, encontramos grande parte dos monges sendo deixados por seus pais ainda muito jovens, na idade de cinco anos. Estes crescem dentro da estrutura do monastério, como crianças e adolescentes vivendo em um internato, em uma escola. Talvez não possamos dizer que os mesmos são de fato “monges”, mas sim que seguem as regras do monastério (ou preceitos monásticos) como um garoto segue as regras de uma escola. Usam as roupas monásticas como um menino usaria o uniforme escolar, e assim por diante. Tais crianças chegam a sua pré-adolescência e começam a ocorrer as transformações que levam à passagem para adolescência. Coisa que acontece com todo ser humano...
Isto inclui mudanças no corpo. Tais mudanças provocam a experiência de sensações diversas, prazerosas e desprazerosas no contato com as coisas e, estas, proporcionam uma diversidade de sentimentos inexistentes anteriormente. Tais mongezinhos vão experienciando estas mudanças dentro do ambiente do monastério. Curiosos e livres de malícia, vão experimentando estas novas sensações na forma de brincadeira com seus coleguinhas monges onde, em alguns casos surge uma grande proximidade, confiança e amizade entre os mais próximos (aqui não incluiria sexo, mas toque e carinho, como experiência).
Entretanto, como para todos nós, esta fase de descobertas passa, e entramos em nossa adolescência, onde começamos a fazer nossas escolhas e a desenvolver nossas formas de pensar e de nos inserir no mundo. Alguns monges decidem deixar seus votos, terem uma vida normal. Casam, constituem uma família, etc. Outros decidem continuar a vida monástica, e já maiores começam a compreender as limitações e abrangências deste caminho. Grande parte o toma com seriedade, e se tornam bons monges. Outros, manifestam grandes dificuldades de lidar com variados sentimentos e mesmo usando as vestes monásticas acabam transgredindo seus votos algumas vezes. Estes, se descobertos, são convidados a deixar o monastério, tanto por terem transgredido seus preceitos como por não serem um bom exemplo para a comunidade monástica.
Nunca ouvi ou vi qualquer incentivo quanto à conduta homossexual como substituindo a conduta ou vontade heterossexual dentro de um monastério. Tanto uma como a outra quebram os votos de renúncia de um monge ligados ao abandono da delusão e de suas causas.
Entretanto, para com um praticante leigo, não vejo grande motivo para discriminação. A raiz da ação ser negativa ou não, não está na própria ação, mas em seus resultados. Uma ação, seja ela heterossexual ou homossexual, desempenhada na base de desejo e apego, reforça nossa delusão e nossa prisão frente a estes sentimentos. Assim, ela é considerada como um obstáculo dentro do caminho budista. Ainda assim, se gerarmos a “visão” da natureza verdadeira do agente, da ação e do objeto do qual a ação é direcionada, não há apego ou desejo, mas há somente uma dança da mente primordial e das energias puras do corpo correndo através canais por toda a extensão do corpo. Isto equivale a “qualquer ação ou contato com a realidade”. Agora, poderíamos dizer, que para isto, precisamos de “algum” treinamento.

Horizonte: Para encerrar, gostaríamos que você fizesse suas considerações finais e deixasse uma mensagem de motivação para nossos leitores, que são pessoas que buscam a espiritualidade nas mais variadas formas de expressão.

Gabriel: Acredito que todos nós desejamos felicidade, desejamos nos afastar do sofrimento. Este é um sentimento básico de um ser humano. Não afirmaria que o Budismo, ou qualquer outra religião, seria o meio definitivo para todos os seres satisfazerem esta aspiração. Acredito que somos dotados do livre-arbítrio de escolhermos nosso caminho e de delinearmos nossos objetivos de vida.
Entretanto, jogo a pergunta: São nossas escolhas e objetivos realmente tomados por livre- arbítrio ou são elas manifestações de nossas próprias tendências habituais e pré-concepções?
Penso que para alguns o Budismo é muito benéfico, para outros o Cristianismo, Judaísmo, a própria Ciência…tudo dependende de nossas verdadeiras buscas. Tenho constatado que nossa felicidade não está somente na dependência de nós mesmos, mas em como nos relacionamos com o mundo e as pessoas ao nosso redor.
Relações positivas constroem um universo positivo ao nosso redor. Ao compreendermos isto, talvez venha a ser natural refletir sobre ecologia, bom senso, compaixão, diálogo, meditação e uma inserção benéfica na sociedade.
Desejo a todos vocês boas reflexões. Recebam minhas preces e melhores votos de paz, alegria e sabedoria.

Gabriel Jaeger (Monge Ngawang Tenphel). Dzongsar Chokyi Lodro Shedra - Índia

 

A Ordem do Templo e os Descobrimentos Portugueses (1ª parte)



[Manuel O. Pina]

Introdução
Falar da Ordem do Templo, mais conhecida vulgarmente como Ordem dos Templários ou, simplesmente, Templários, em ligação com os Descobrimentos Portugueses pode parecer à primeira vista estranho pois, aparentemente, nada tem a ver uma coisa com a outra: a Ordem do Templo aparece no início do século XII, fundada oficialmente em 1118, e os Descobrimentos Portugueses começam quase três séculos mais tarde, no final do século XIV, e prolongam-se pelo século XV e início do século XVI. Quando se iniciam as primeiras viagens marítimas dos portugueses, já a Ordem do Templo fora extinta por decreto papal (bula), os seus membros perseguidos, torturados e mortos, principalmente em França, país de onde terão saído os cavaleiros que a haviam criado.
Existem centenas, talvez milhares de livros sobre a Ordem do Templo. No entanto, quanto mais se escreve, quanto mais se pesquisa parece que os mistérios que a rodeiam se adensam, tornando-nos incapazes de perceber como é que uma organização inicialmente criada sob um voto de pobreza (ela chamava-se “Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo”), com a finalidade de defesa dos peregrinos em viagem à Terra Santa e Jerusalém, se torna num curto espaço de tempo na organização mais poderosa e mais rica da Europa, ao ponto de não só o papa, como reis e imperadores preferirem manter as melhores relações com ela a enfrentar o seu poder de alguma forma. Durante o tempo em que existiu, a Ordem do Templo era quem mandava, efectivamente na Europa.
Nessa altura, a Europa era o mundo. Nada mais existia a não ser mitos e fantasias. O mundo reduzia-se ao Oriente próximo, norte de África e, especialmente, a Europa. Mandando na Europa, os Templários eram na verdade os senhores do mundo.
O conhecimento que eles demonstraram ter na época ainda hoje nos espanta. Vivendo em pleno final da Idade Média, uns dois séculos antes do movimento renascentista, eles dominavam a matemática e a arquitectura com conhecimentos que ultrapassavam em muito o que se sabia na época. Como exemplo deste conhecimento deixaram-nos aquelas jóias maravilhosas chamadas de catedrais góticas cujos segredos de construção há muito perdidos continuam a fascinar os arquitectos de hoje. Eles fizeram com que o comércio se desenvolvesse de maneira espantosa ao criarem a “carta de crédito”, uma inovação que dinamizou os negócios a distância e fez desaparecer os perigos do transporte de grandes somas em dinheiro (ouro), sempre sujeito a roubos e assaltos nas estradas europeias. Assim, por exemplo, alguém em França que tivesse negócios com Espanha e precisasse de efectuar o pagamento entregava o valor aos templários em França, que emitiam a “carta de crédito”. Em Espanha os Templários devolviam o dinheiro mediante a “carta de crédito” apresentada, deduzindo naturalmente os juros da transacção. Podemos dizer que foram eles os fundadores das modernas instituições bancárias.
Por outro lado, no plano esotérico ou espiritual, eles apoderaram-se e ocuparam todos os pontos onde, desde a mais remota antiguidade se sabia serem pontos de energias telúricas especiais. O paganismo havia aí construído os seus locais de culto. Os templários substituíram-nos por capelas devotas à Senhora do Ó, a São Miguel, a Maria Madalena.
Os Templários foram, no seu tempo, o que podemos chamar de uma “grande multinacional”, uma vez que operavam em quase todos os países existentes na época com uma organização uniforme. Eles foram o que a Igreja Católica veio a ser mais tarde, por meios menos lícitos, principalmente a partir da Inquisição. Os Templários tinham uma hierarquia perfeitamente definida, uma regra única e espalhavam-se pelos diversos países na forma de Priorados, cada um dos quais com a sua própria hierarquia encabeçada pelo Grão-Mestre. As autoridades locais, os reis, os imperadores, não tinham nenhum poder sobre eles – eram como um Estado dentro de outro Estado.
Tendo sido inovadores na sua organização como protótipos das grandes multinacionais dos dias de hoje, foram também inovadores nos aspectos de publicidade e “marketing”, a grande arma das empresas dos nossos dias. Eles lançaram talvez a primeira grande campanha de “marketing” de que há registo na História, que foi a saga dos Cavaleiros da Távola Redonda, do Rei Artur e a demanda do Santo Graal. Não se sabe bem se o rei Artur existiu de facto ou se foi a transformação em mito de uma divindade celta. Não se sabe bem onde ficava Avalon, A maioria apontam-na em Inglaterra mas a saga do rei Artur fala da Bretanha, e a Bretanha, região de grande implantação celta, fica situada no noroeste da França. Por outro lado a historia do rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola Redonda é escrita mais de 500 anos depois da sua provável existência.
A demanda do Santo Graal é também escrita no século XII, época de grande expansão templária na Europa. Os seus principais escritores, Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach viveram nesse século.
As virtudes atribuídas aos Cavaleiros da Távola Redonda, são as virtudes atribuídas aos Cavaleiros Templários. Os Cavaleiros Templários são também considerados como os “Guardiães do Santo Graal”. Foi esta a grande primeira campanha de “marketing” que se conhece da História e catapultou os Templários, tornando-os conhecidos, respeitados e temidos em toda a Europa, e adensando os mistérios que os rodeavam.
António José Saraiva, ilustre historiador da cultura portuguesa, afirma que os “os templários são ainda hoje (e sobretudo hoje) uma instituição difícil de entender”. Para Paulo Alexandre Loução, autor de alguns livros sobre os templários, diz que “não poderia estar mais de acordo. Estando a Ordem do Templo tão ligada ao gnosticismo primitivo e à tradição esotérica universal, tal não é para admirar. A seu ver, só podemos compreender esta Cavalaria dó Graal, penetrando, na medida do possível, na sua missão esotérica”.
Como verdadeira Escola de Mistérios, a Ordem do Templo encerra em si, ainda hoje, muitos mistérios. Ninguém sabe qual a razão da sua formação e quais eram os seus reais objectivos. Sabe-se apenas que 9 Cavaleiros demandaram a Palestina integrados na 1ª Cruzada e aí fundaram a Ordem, inicialmente como Milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo, com a missão de defenderem os peregrinos à Terra Santa. Destes 9 Cavaleiros, alguns estão perfeitamente identificados, como Hughes de Payens, que foi seu primeiro Grão-Mestre entre 1118 e 1136. Seriam todos oriundos do centro da Europa, França, mas sobre alguns existem sérias dúvidas sobre a sua verdadeira identidade.
O que motivou estes 9 Cavaleiros a formarem a Ordem do Templo? Victor Mendanha diz no seu livro “História Misteriosa de Portugal” que, “por detrás de uma Ordem Secreta existe sempre outra Ordem Secreta”. Raymond Bernard, no seu livro “As Mansões Secretas da Rosacruz” informa-nos de que Cavaleiros e Mestres Espirituais de várias regiões da Europa se terão reunido na famosa “Gruta Ferrata”, próximo de Roma, e aí, numa cerimónia muito especial, terão decidido a criação da Ordem do Templo. Para alguns, esta reunião teria sido realizada por uma sociedade secreta, hoje tão controversa, denominada “Priorado do Sião”. O que é facto é que a tradição fala de uma colaboração estreita entre a Ordem do Templo e o Priorado do Sião, sendo aquela o braço armado desta. Esta colaboração terá cessado por motivos que ainda hoje desconhecemos e teria sido consumada numa cerimónia denominada “O Corte do Olmo”.
Os reais objectivos da Ordem do Templo permanecem na obscuridade. Aqueles 9 Cavaleiros mantiveram-se em Jerusalém durante 9 anos. Durante este tempo não há notícia de terem admitido mais ninguém nas suas fileiras. Não vemos como é que uma força de 9 Cavaleiros poderia oferecer alguma protecção eficaz aos peregrinos da Terra Santa. Conta-se que tomaram como residência inicial os antigos estábulos do Templo de Salomão e aí terem descoberto segredos que lhes permitiram desenvolver rapidamente a sua organização e atingirem um poder tal que os colocava acima dos soberanos da época. Para mim, como mais tarde se veio a demonstrar na génese de Portugal, os seus objectivos eram dois:

Entrar em contacto com o gnosticismo das primitivas igrejas cristãs.
Entrar em contacto com o mundo esotérico islâmico.

Desta forma pretendia-se unir a tradição ocidental com a tradição oriental.
O que é facto é que alguma coisa aconteceu durante a permanência desses 9 Cavaleiros em Jerusalém. Não é possível atingir-se o poder que a Ordem do Templo atingiu se não se possui um grande segredo que atemorize os senhores mais poderosos da Terra, reis, imperadores e a Igreja de Roma. Que segredo era esse? Talvez documentos sobre a verdadeira história de Jesus e as primitivas igrejas cristãs.
Como se sabe, foi S. Jerónimo que compilou os Evangelhos e os organizou na vulgata, para nós designada como Bíblia. Numa carta aos bispos Chromatius e Heliodorus fala de um Evangelho secreto de S. Mateus, escrito em hebraico pelo próprio punho de S. Mateus. Segundo S. Jerónimo “continha matérias que são mais para destruir (a igreja de Roma) do que para edificar.
A Ordem do Templo, apesar da vastíssima e variada documentação publicada a seu respeito, muita da qual não corresponde minimamente à verdade, continua, depois de toda a pesquisa que tem sido efectuada, a guardar um segredo, aparentemente inviolável. Segundo Fernando Pessoa, ela foi implantada para tentar encontrar o segredo que foi perdido. Diz mais Fernando Pessoa:

“Cristo foi morto pela incompreensão dos judeus, pelo fanatismo da Ordem Sacerdotal e pelo poder da Ordem Materialista de Roma.
A Ordem do Templo foi morta pela incompreensão de alguns dos seus membros, que a denunciaram, pelo fanatismo de Roma e pela Ordem Temporal na pessoa do rei de França.
Morta deste modo, só a sua morte sobreviveu, e a demanda consiste em descobrir o que se esconde sob ela”.


Os Templários em Portugal
Alguém já afirmou que Portugal foi fundado como uma nação templária. Esta não é uma afirmação gratuita pois há numerosos indícios que nos podem levar a essa conclusão.
A fundação de Portugal e da Ordem do Templo acontecem ao mesmo tempo: a Ordem do Templo foi fundada em 1118 e, ainda que a independência definitiva de Portugal só tenha ocorrido em 1143, podemos considerar que a batalha de S. Mamede, de D. Afonso Henriques contra sua mãe D. Teresa em 1128, no dia de S. João Baptista, estabelece a independência de facto. S. João Baptista é o santo mais venerado pelos Templários. Coincidência? Vejamos.
Dentro da Igreja Católica o grande defensor e promotor da Ordem do Templo junto ao Papa, e que lhe confere as regras à semelhança das da Ordem Monástica de Cister, é o abade Bernardo de Claraval, hoje S. Bernardo. É através dele que a Ordem do Templo é reconhecida pela Igreja de Roma. Bernardo de Claraval é primo do Conde D. Henrique, que é natural da Borgonha e que veio para a Península Ibérica onde lhe foi dado a governar o Condado Portucalense. D. Henrique esteve na Terra Santa pouco antes da fundação da Ordem do Templo.
O Conde D. Henrique, esposo de D. Teresa e pai do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, é oriundo da Borgonha, região de onde partiram alguns dos Cavaleiros que fundaram a Ordem do Templo. Desta forma, D. Afonso Henriques também era primo de Bernardo de Claraval.
Bernardo do Claraval é também o grande advogado e defensor da independência de Portugal, e foi graças à sua influência junto da Santa Sé que a independência de Portugal foi reconhecida pelo Papa.
Os 9 Cavaleiros fundadores da Ordem do Templo permanecem em Jerusalém até, pelo menos, ao ano de 1127. No entanto. Há registos de que os Templários já estavam instalados em Portugal em 1126, pertencendo-lhes já nessa altura as terras de Font’Arcada e o castelo de Soure, doações feitas por D. Teresa, na altura já viúva do Conde D. Henrique.
Na batalha de S. Mamede, o então infante D. Afonso Henriques vence as forças de sua mãe, D. Teresa, e toma as rédeas do poder. D. Afonso Henriques, já aclamado rei, concede à Ordem de Cister, a Ordem de S. Bernardo, vastas regalias e privilégios, doação de terras e construção do Mosteiro de Alcobaça.
O território português abrange quase a totalidade da antiga Lusitânia, nome que etimologicamente significa “expansão da luz”. Luz, como todos sabemos significa “conhecimento”. Não quer dizer que o conhecimento tivesse origem na Lusitânia, mas que lhe competia expandi-lo recolhendo-o de onde ele estivesse. E foi isto mesmo que aconteceu mais tarde. Portugal levou e trouxe; levou o que de melhor havia na Europa em matéria de conhecimento científico e trouxe para a Europa o conhecimento de outros povos. Esta missão, prevista ou não pelos Templários, mas queremos acreditar que sim, no dizer de Jaime Cortesão, na sua “História dos Descobrimentos Portugueses” “(…) a obra da unificação humana.”
Mas para que esta obra de unificação humana pudesse ser realizada, era necessário reunir os meios e as condições. A fundação de Portugal, no extremo ocidental da Europa, virado para o grande mar Atlântico, cumpria uma das primeiras condições. A outra seria a de expandir o seu território e garantir a independência e estabilidade de fronteiras. A Ordem do Templo teve participação muito activa na conquista e consolidação do território português, alargando as suas fronteiras até às que hoje ainda conserva, tornando Portugal o país com as fronteiras mais antigas da Europa.
Já vimos que um dos objectivos da Ordem do Templo na Palestina era o de entrar em contacto com o gnosticismo primitivo das primeiras igrejas cristãs. Ora ninguém sabe como é que o Cristianismo chegou à Península Ibérica. Talvez tivesse chegado pelo norte de África, uma vez que se mantinham contactos e relações entre a península e os estados mouros africanos. No século IV surgiu um movimento gnóstico cristão que marcou de forma indelével a religiosidade dos povos da Galiza e da Lusitânia. A este movimento chamou-se “Priscilianismo. Este movimento está na base do cristianismo português que mais tarde os Templários, a Ordem de Cister, a rainha Stª Isabel, os frades franciscanos e a Ordem de Cristo modelaram.
Aquele que deu o nome ao movimento, Prisciliano, era um galego rico, instruído e de estirpe nobre. Aparentemente viajou pelo Egipto e pela Síria onde se terá iniciado nas doutrinas gnósticas. Ao chegar ao território que mais tarde veio a ser Portugal, encontrou já um grupo de gnósticos liderado por um Mestre Marcos. O priscilianismo, logo catalogado de heresia pela Igreja de Roma, teve forte implantação no território e durou até à fundação de Portugal.
O priscialianismo era uma Confraria formada por uma elite muito culta e que, paradoxalmente, teve também forte adesão popular. Praticavam o ideal da fraternidade humana, tinham reuniões nocturnas e secretas e o seu ensinamento era iniciático, razão pela qual o voto de silêncio era total. A Confraria era formada por homens e mulheres, estando estas em total igualdade com aqueles, tendo muitas um papel activo nas liturgias, como era norma entre os movimentos gnósticos. Defendiam o livre exame e a investigação individual das escrituras e adoptaram muitos dos Evangelhos apócrifos.
Este movimento foi considerado herético pela Igreja de Roma, que não podia permitir que a sua doutrina prosperasse, pois já suscitara a atenção de gente tão importante como Sto. Agostinho. Prisciliano acabou por ser assassinado legalmente pela Igreja de Roma, em nome de Deus e do Cristianismo.
Os Templários encontraram assim terreno fértil para a sua implantação.
A Ordem do Templo tinha duas faces, a invisível e a visível. A invisível era secreta e constituía o seu núcleo duro. A face visível era a manifestação da vontade ditada pela face invisível. Não é de estranhar assim que, D. Afonso Henriques tenha pertencido a essa face invisível, tal foi a colaboração que ele recebeu da Ordem nas suas campanhas de conquista do território. Não se sabe qual a função que ele desempenhava na Ordem, mas tratando-se do monarca, essa função teria que ser importante.
Com o alargamento territorial impunha-se estabelecer as bases da sua administração e defesa. As Ordens Monásticas, principalmente as que tinham uma componente guerreira, foram as grandes beneficiadas na distribuição de terras e doações. A Ordem do Templo recebeu uma parte importante dessas doações. Muitos dos castelos localizados em pontos estratégicos foram construídos pela Ordem do Templo.
Os Templários tinham particular estima por S. João Baptista e São Miguel Arcanjo. Já vimos que a batalha de S. Mamede foi travada no dia de S. João Baptista. O Patrono de Portugal até ao século XVII era São Miguel Arcanjo transformado em S. Jorge.
Os reis que sucederam a D. Afonso Henriques, sempre ajudados pelos Templários, continuaram o trabalho de consolidação territorial, estabelecendo as fronteiras mais antigas da Europa. Mas foi com D. Dinis que os meios ganharam um forte impulso. Quando falo em meios, quero dizer que não é possível um país, grande ou pequeno, lançar-se numa aventura marítima, como o fez Portugal, se não tiver os navios e os materiais para os construir.
D. Dinis foi rei entre 1279 e 1325. Os Descobrimentos Portugueses começaram com a redescoberta da Ilha da Madeira em 1420 e dos Açores em 1427 no reinado de D. João I, cerca de 100 anos depois de D. Dinis. Casado com Isabel, princesa de Aragão, mais tarde rainha Sta. Isabel, D. Dinis foi autor de uma obra extraordinária:

Desenvolveu a agricultura tornando o país autónomo neste capítulo
Fundou a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo.
Como pessoa de grande cultura para a época, apoiou as artes e as letras, ele próprio poeta e autor de numerosos poemas e “cantigas de amigo” e “cantigas de maldizer”.
Desenvolveu a construção naval, criando uma armada.
Conduziu as negociações e firmou o primeiro tratado de aliança com a Inglaterra, um tratado que ainda se encontra em vigor e foi útil a Portugal em diversas ocasiões.
Mandou florestar o território e plantar pinhais, como o de Leiria, que viriam a dar, 100 anos mais tarde a matéria-prima para a construção das caravelas que viriam a navegar por todo o planeta.
Foi um diplomata de enorme talento, como ficou provado na questão dos Templários.

A forma como D. Dinis tratou a questão dos Templários foi talvez a realização mais notável do seu reinado.
Felipe IV de França, conhecido como Felipe o Belo, temeroso do poder da Ordem do Templo, que constituía um Estado dentro do Estado, e ambicionando as riquezas que esta parecia possuir, com o apoio do Papa Clemente V mandou prender todos os Cavaleiros do Templo, numa sexta-feira dia 13 de Outubro de 1307. O Papa aprovou a extinção da Ordem do Templo no Concílio de Viena em 1312. A maioria dos Templários foi executada na fogueira, incluindo o seu Grão-Mestre Jacques de Molay, em 1314. O rei Filipe tentou tomar posse dos tesouros dos templários, no entanto quando seus homens chegaram ao porto, a frota templária já havia partido misteriosamente com todos os tesouros, e jamais foi encontrada. Os possíveis destinos dessa frota seriam Portugal, onde os templários seriam protegidos; Inglaterra, onde se poderiam refugiar por algum tempo, e Escócia onde também se poderiam refugiar com bastante segurança.
É de supor que essa frota ou parte dessa frota tenha demandado portos portugueses.
Quando D. Dinis recebeu instruções de Roma para extinguir a Ordem do Templo e prender os seus Cavaleiros, não fez nada disso. Rodeou a questão com rara mestria: protegeu os Templários portugueses e os que haviam fugido de França e procurado refúgio em Portugal; criou uma nova Ordem, a que chamou “Ordem de Cristo” e transferiu para ela todos os bens dos Templários e os próprios Cavaleiros; e o mais extraordinário de tudo, conseguiu a aprovação do Papa para esta mudança e para a nova “Ordem de Cristo”.
Que motivos tinha D. Dinis para assim proceder? Quando em toda a Europa os Templários foram perseguidos, presos, torturados e queimados na fogueira, D. Dinis protege-os e acolhe-os na “Ordem de Cristo” cujo emblema irá emoldurar as velas das caravelas portuguesas.
E o que é que teria motivado D. Dinis quando resolveu nacionalizar outras Ordens, como a de Santiago, libertando-a da dependência da Ordem do mesmo nome de Castela e Leão, como a Ordem de Avis, libertando-a dos laços que a ligavam à sua irmã castelhana “Ordem de Calatrava”.
A protecção da Ordem do Templo por D. Dinis começa logo no início do seu reinado. No livro do mestrado de Cristo da Chancelaria de D. Manuel I, podemos ler o seguinte:

“D.Dinis diz que o Mestre da Cavalaria do Templo lhe mandou dizer que ricos-homens, cavaleiros, alcaides e outros homens pousam nos casais e lugares da Ordem do Templo, e fazem muito mal e muita força, e filham ende pão e vinho, carne e cevada e outras cousas, contra a vontade sua e dos que hi moram.
Isso, diz El-Rei, só ele o pode fazer: quem o fizer ficará por seu inimigo”


Logo que a ordem do Papa foi recebida, D. Dinis determinou de imediato que ninguém tocasse nem nos bens nem nos próprios Cavaleiros, gorando assim a expectativa de muitos membros do clero que logo começaram a tentar apropriar-se de propriedades templárias. O próprio Papa, na altura João XXII, viu neutralizada pelo rei português a sua oferta do castelo de Tomar ao seu amigo Cardeal Bertrand.
D. Isabel, a esposa de D. Dinis, que viria a tornar-se santa pelos muitos milagres que lhe são atribuídos, foi a principal promotora do culto do Espírito Santo em Portugal. Este culto era muito caro aos templários que o haviam levado para Portugal e que também constituía uma heresia aos olhos de Roma. O aio de D. Isabel era Cavaleiro Templário. Quando o clero, apoiado por Roma, quis abolir o culto do Espírito Santo, nada pôde fazer, pois este culto tinha o apoio explícito do rei, da rainha, da Ordem do Templo e mais tarde da Ordem de Cristo.

 

Os Paradigmas da Era de Aquário (versão completa)



[MARTA SILVA LOWENSTEIN - Revisão e correção, a pedido
da autora, por VITOR DE FIGUEIREDO]


Inicialmente, parece-nos cabível e necessário definir o significado da palavra latina PARADEIGMA; o que, realmente, significa este termo.
“Paradeigma”, em grego, significa exemplo, norma, modelo ou padrão, paradigma.
Na Filosofia Platónica, é o “mundo das ideias”, protótipo do mundo sensível em que vivemos. Platão usa este termo na seguinte sentença: “Talvez se encontre no céu um paradigma para este que, tendo-o precedido, quer lá se estabelecer.”
Ainda a propósito de paradigma, Pierre Weil afirma que: “Na sua origem, o termo foi usado mais especialmente em linguística, para designar em gramática um exemplo tipo.” E acrescenta: “A força de um paradigma reside no consenso de uma determinada comunidade científica, em certa época.”
“Uma revolução científica é, antes de tudo, uma revolução de paradigma. Quando uma geração de cientistas produz uma nova síntese, a antiga geração se extingue e dá lugar a uma nova geração, que adere ao novo paradigma. Alguns teimam em se agarrar a alguns aspectos ultrapassados do antigo paradigma; são fatalmente erradicados do novo meio ou da nova comunidade científica, e às vezes se agrupam para constituir grupos “ortodoxos.” A respeitabilidade de um cientista é uma consequência directa da sua adesão ao novo paradigma.”… “A transição de um paradigma para outro caracteriza-se por uma crise.”
Diz Edgar Morin: “… paradigma é um modelo conceptual que dirige todos os novos discursos.”
Enfim, um paradigma acaba sendo, por consenso, uma palavra que especifica, que individualiza o que seria mais do que um modelo, mais do que uma regra ou de um conjunto de regras ou conceitos. Paradigma é um termo abrangente para modelo ou conceito, onde se toma uma ideia como um alicerce para a actuação, para o discurso.
Os “Paradigmas da Era de Aquário…”. Uma Era seria uma época que, no nosso caso, é um ciclo astrológico de 2 160 anos.
À medida que o Sol se desloca, aparentemente, pela Esfera Celeste, coloca-se em alinhamento com determinadas constelações estelares. Pela sua característica aparente de movimentação, a cada dois mil cento e sessenta anos, ele passa para uma diferente constelação. Este movimento do Sol (aparente) chama-se precessão. Quando ele se acerca de uma outra determinada constelação, após os dois mil cento e sessenta anos, diz-se que se completou uma Era, e às Eras foram dados, simbolicamente, os nomes das respectivas constelações.
Podemos tentar dizer isto de outra maneira, com uma explicação mais técnica (ou astrológica), necessária para aqueles que não estão familiarizados com a Astronomia e a Astrologia. Todavia, talvez esta explicação, apesar da tentativa bem intencionada, não ajude muito mas, em nossa opinião, é válida:

Em 130 a.C., O filósofo, astrónomo e matemático grego, Hiparco, em resultado da sua observação regular de 1 020 estrelas, que lhe serviram de referência, constatou que o chamado Ponto Vernal (ponto equinocial da Primavera), que é o ponto de intersecção da eclíptica com o Equador Celeste, não é fixo. Este Ponto desloca-se com movimento regressivo (anti-horário), atrasando-se 30º (um signo do Zodíaco) em cada 2160 anos e dando uma volta completa aos 12 signos do Zodíaco em 25 920 anos terrestres (1 ano cósmico).
A eclíptica é um círculo imaginário correspondente à órbita (aparente) do Sol, em volta da Terra num ano (órbita que, na verdade, é a Terra que descreve em volta do Sol).
O Equador Celeste é o círculo máximo da Esfera Celeste, perpendicular ao eixo da Terra.
A Esfera Celeste é o globo ilimitado que rodeia a Terra por todos os lados e onde parecem estar cravadas as estrelas, agrupadas em constelações.
Para completarmos esta análise (desprezando o movimento de rotação diário da Terra, que traz o dia e a noite) temos de considerar dois movimentos da Terra:
O primeiro: – O da revolução da Terra, inclinada sobre seu próprio eixo, em torno do Sol, durante um ano, que provoca a sucessão das estações e à qual, dividida a circunferência de 360º em 12 meses, corresponde um signo astrológico mensal de 30º. É como se o Sol passasse por todos os 12 signos do Zodíaco.
O segundo: – É o do “Ponto Vernal”, a que já aludimos, onde 1 “ano cósmico” corresponde a 360º e 25 920 anos terrestres, correspondendo a cada signo do Zodíaco uma “Era” de 2 160 anos.

De acordo com Jaap Huibers, autor de “Aquário – A Nova Era – Homem conhece a ti mesmo” (Editora Hemus), onde nos apoiámos parcialmente para esta análise, a cronologia das últimas 4 Eras é a seguinte:

– De 4 304 até 2 154 a.C. : Era de Touro;

– De 2 154 até 4 a.C. : Era de Carneiro ou Áries;

– De 4 a.C. até 2 146 d.C. : Era de Peixes;

– De 2 146 até 4 296 d.C. : Era de Aquário.

O referido autor considera 2150 anos para cada Era. Se considerarmos o ano de 4304 a.C. como início da Era de Touro, e os “nossos” 2 160 anos, podemos alterar estas datas para:

– A Era de Touro, de 4 304 a.C. a 2 144 a.C. ;

– A Era de Áries, de 2 144 a.C. a 16 d.C. ;

– A Era de Peixes, de 16 d.C. a 2 176 d.C. ;

– A Era de Aquário, de 2 176 d.C. a 4 336 d.C.

A data de mudança de uma Era para outra é muito imprecisa, pois, pela “movimentação do Sol”, a sua passagem de uma constelação para outra, dura alguns anos. No aspecto histórico da Humanidade esta mudança também não ocorre bruscamente de um dia para o outro.
Na Era de Touro cultuou-se o “Touro de Ouro”. Depois de Moisés, iniciou-se a Era de Áries, quando o Sol passou para a constelação de Carneiro. Foi quando se acentuou o misticismo e a civilização egípcia conheceu o seu apogeu.
E no início da Era de Peixes conhecemos o apogeu (e queda) da civilização romana, assim como o início da civilização Judaico-Cristã.
A cada Era têm-se atribuído influências cósmico-energéticas que, teoricamente, teriam influenciado o comportamento da Humanidade. Não se sabe se, efectivamente, isto ocorre ou não, mas tem-se constatado, realmente, a existência de modelos, ou padrões de comportamento, comuns e específicos a cada uma destas Eras.
O que a História Ocidental tem registado com mais detalhes são os modelos, ou mais especificamente os paradigmas das grandes Eras, ou ciclos, da evolução da Civilização Ocidental. A Era de Touro, genericamente entre 4000 a.C. e 2000 a.C. – a Era do Império Egípcio – foi, basicamente, a era dos faraós ou reis-deuses. Com a mudança do eixo económico-cultural para a Grécia, tivemos o início da Era de Áries, a era das cidades-estado, dos grandes filósofos, da democracia “escravocrata” grega, onde os ricos eram livres, mas dependiam do trabalho dos escravos para manterem o seu poder e suas fortunas.
Também do ano 2000 a.C. até ao ano 1º da era Cristã, conhecemos o surgimento do Império Romano, época dos ditadores, dos grandes Césares e, paralelamente, o militarismo, proporcionando um grande desenvolvimento das ciências e das artes (geralmente aplicadas a fins militares; por exemplo, as grandes obras de engenharia e cantuária da Roma Imperial).
É nesta Era que, na outra margem do Mediterrâneo, se desenvolveu a cultura Judaica, a era dos grandes rabinos detentores da cultura, e das tribos com seus chefes comandando e decidindo os destinos das pessoas.
A Era de Peixes, iniciando-se nesta conjuntura Judaico-Romana, assistiu, perplexa, a um dos maiores cismas filosófico/religiosos que a História conheceu.
Dentro da cultura Judaico-Cristã, que surgiu deste cisma, temos alguns aspectos importantes a salientar, antes de entrarmos no detalhe dos paradigmas da Era de Aquário, que parece ter-se iniciado já neste século.
A era da cultura Judaico-Cristã viveu, basicamente, sob alguns paradigmas especiais. Citamos, por exemplo: a autovalorização, o egocentrismo, a divisão, a estagnação do desenvolvimento cultural-filosófico, a procura das emoções imediatas, o exclusivismo e, basicamente, a separação; nos governos, diversas formas de ditadura prevaleceram.
Numa breve definição, a autovalorização é o abuso da palavra EU, o discurso sempre na 1.ª pessoa, os discursos auto-laudatórios, enfim, o Rei-Sol – “Le État c’est moi”, como disse um dos reis Luíses da França. O egocentrismo é alicerce da autovalorização, é a centralização de todo o pensamento no próprio Ego.
O que seria a divisão? Basicamente, é o anti-holismo. Homens separados por fronteiras entre um país e outro, as cercas e muros separando os jardins, as cidades-estado muradas, os homens separados das mulheres (nas sinagogas, igrejas e mesquitas), as crianças não participando da vida dos adultos, o patrão distante do empregado, etc.
Pierre Weil exemplifica: “Se olharmos em nosso redor, neste final do 2.º milénio da era Cristã, seremos obrigados a reconhecer que vivemos numa época caracterizada pela divisão, pelas dissenções, pela violência e pela guerra.”
“O fantasma da separação traz consigo consequências danosas para a harmonia do Homem tanto interna como externa: o apego e a possessividade, que trazem consigo o medo de perder o que se julga possuir; a raiva, a agressão e a violência ligadas à defesa da posse de ideias, pessoas ou coisas, sem contar o ciúme, a competição e o orgulho paranóico…” O paradigma Newtoniano-Cartesiano ainda domina a mente da maioria dos cientistas actuais… Os conceitos de espaço e tempo absolutos, e o de objectos materiais separados, movendo-se nesse espaço e interagindo mecanicamente; o rigoroso conceito de determinismo e a noção de uma descrição objectiva da Natureza, baseada na divisão Cartesiana entre matéria e mente.”
“O antigo paradigma afectou a prática económica contemporânea: a fragmentação das especializações, o desvirtuamento dos valores superiores da Humanidade, a abordagem competitiva na exploração da Natureza, o esgotamento progressivo dos recursos naturais, o consenso de que a Natureza existe para o Homem, a visão do Homem como ente consumidor (o que levou a um consumismo desenfreado), a confusão entre riqueza material e felicidade, a tecnologia ao serviço da destruição em massa.”
Na educação, o conhecimento torna-se uma espécie de mercadoria a ser adquirida e guardada no armazém da memória. Na medicina, assistimos ao desaparecimento da clínica geral e à fragmentação em superespecializações que levam os pacientes a sentirem-se perdidos diante da frequente ausência de uma visão sintética do seu caso.
Os sistemas políticos reinantes nos últimos séculos, propugnando a luta pelo poder, o maquiavelismo pregando que os fins justificam os meios, levaram a população global a uma total descrença em seus dirigentes.
Na filosofia, um sem número de teorias levou a que os próprios filósofos não mais se entendessem, e nenhum deles é capaz de conhecê-las todas a fundo.
Nesta Era de Peixes, anteriormente a esta excessiva divisibilidade ocorrida nos últimos séculos, houve, especialmente durante a Idade Média, uma absurda estagnação de todo o desenvolvimento humano. O rigorismo e o determinismo do comportamento obrigaram o Homem a viver, durante mil anos, sob a égide dos papas e senhores feudais, sem acontecer qualquer mudança ou desenvolvimento filosófico-cultural. Aqueles poucos que ousaram buscar a Gnose foram considerados hereges, condenados e queimados vivos.
Erbnest Becker, em seu livro “A Negação da Morte”, explica o aspecto psicológico deste fenómeno: “Com relação à estagnação, podemos citar Kierkegaard, que nos fornece algum esboço descritivo do estilo de negação, ou o que seriam as mentiras de carácter – o que é a mesma coisa. Ele pretende descrever o que hoje chamamos de homens inautênticos, aqueles que evitam desenvolver a própria originalidade. Eles acompanham os estilos de vida automáticos e displicentes aos quais foram condicionados quando crianças. São inautênticos pelo facto de não pertencerem a si mesmos, não serem suas próprias pessoas, não agirem a partir do seu próprio centro, não verem a realidade nos termos desta. São os homens unidimensionais, totalmente imersos nas brincadeiras de ficção em moda na sua Sociedade, incapazes de transcender o seu condicionamento social. São os homens de empresa, no Ocidente; os burocratas, no Oriente; os homens tribais aprisionados à tradição; o homem de toda a parte, que não entende o que significa pensar por si próprio e que, se o fizesse, se esquivaria ante a ideia de tamanha audácia e risco.”
Neste mesmo livro, Erbnest Becker continua afirmando: “Kierkegaard dá-nos uma descrição do homem imediato: …seu eu, ou ele próprio, é algo incluído com “o outro”, no âmbito do temporal e do mundano. Assim, o eu adere imediatamente ao “outro”, querendo, desejando, divertindo-se, etc., Porém, passivamente; …ele consegue imitar os outros homens, observando como se conduzem para viver, e assim, ele vive também de uma certa forma. Na cristandade, ele também é cristão, vai à igreja todos os domingos, ouve e entende o sacerdote; realmente, eles se entendem um ao outro; ele morre; o sacerdote o conduz à eternidade pelo preço de dez dólares – mas ele não foi um eu e nunca se tornou um eu… Pois o homem imediato não reconheceu seu eu; ele só se reconhece por sua roupa… Ele se reconhece como um eu só pelas aparências.”
Este é o “Homem da trivialidade”, que se embala nas rotinas diárias da sua Sociedade, que permanece contente com as satisfações por ela oferecidas; ele tranquiliza-se com a sua TRIVIALIDADE. “É o homem desprovido de imaginação, que vive num sector de experiência trivial, no que toca ao andamento das coisas, daquilo que geralmente ocorre.”

Um outro paradigma da cultura Judaico-Cristã seria o exclusivismo, baseado, essencialmente, na propriedade privada. Isto é “a minha casa”, “o meu carro”, “o meu filho”, “a minha escola”. É tudo “MEU”, o que “eu tenho e que é exclusivo para o meu usufruto, e somente MEU”!
No aspecto filosófico, a Era de Peixes caracterizou-se também, basicamente, por ser a era dos grandes líderes. O importante para uma pessoa era o que o outro dizia, e seguia-se (muitos ainda seguem) a orientação desses líderes, sua filosofia, e os conselhos desses verdadeiros “condutores de homens”. É a era dos mestres, dos grandes professores, dos líderes carismáticos, dos “gurus”.
Estamos agora a entrar lentamente na Era de Aquário, a chamada Era onde o Sol estará alinhado com a constelação de Aquário.
Mas, entre a grande Era de Peixes e a nova Era de Aquário, em que transitamos, aconteceu um interregno, que se caracterizou por ser a época da “contracultura”, a grande época dos “hippies”, da geração “beatnik”.
Sabemos hoje que foi uma época tipicamente de transição, de adopção de novos paradigmas, e que mostrou ser uma época de profunda crise, de quebra ou demolição de antigos valores, especialmente dos morais.
Enquanto não se ajustavam os novos paradigmas, a Sociedade observou, atónita, a “revolução” dos anos 60, cuja culminância de agitação ocorreu em Paris, em Maio de 1968, e cujo início se dera com o movimento “Beat”, de São Francisco da Califórnia, nos meados dos anos 50.
Os principais paradigmas do movimento “Beat” (ou hippie) foram: a auto-anulação, a fragmentação do Ego, a antidivisão, a transformação e fuga da realidade – apoiada no uso abusivo de drogas alucinatórias – e no plano dos governos a democracia, maior abertura ideológico-política, o antimilitarismo (as passeatas gigantescas contra a guerra do Vietname, cujo mote principal era: “Make love, not war” (“Faça amor, não faça guerra”).
O movimento “Hippie” trouxe para quem o vivenciou, e mostrou para quem o observou à distância, a auto-anulação voluntária e a vida em comunidade. Nesta época, também sentimos quebrarem-se muitos dos conceitos antigos da Cultura Judaico-Cristã. Intensificou-se a busca por outras soluções.
Nesta época começou a entender-se e a perceber-se o mundo e a sociedade contemporânea de uma maneira diferente. Doris Peçanha, no seu livro “Movimento Beat, Rebeldia de uma Geração” (Ed. Vozes), diz que “O movimento “Beat” surgiu no cenário norte-americano na década de 50, caracterizando-se por contestar a ordem estabelecida em favor de uma plasticidade na cultura, nas emoções e no intelecto.”
“Optaram por uma nova forma de vida e de representá-la literariamente, determinando uma mudança decisiva na literatura e no comportamento da juventude em geral.”

Todavia, o movimento “Beat” trazia internamente o germe da sua auto-anulação: O inimigo da geração “Beat” e da contracultura, de um modo geral, não foi apenas o poder manipulador e neutralizador da sociedade tecnocrática, mas encontrava-se também no seio do próprio movimento, na medida em que, desejando opor-se à racionalidade louca do sistema, muitos sucumbiram no irracional, entregando-se totalmente ao comando dos seus impulsos.
Diz André Stephanie: “Não pode haver revolução fundada em uma negação da realidade.”
Doris Peçanha conclui, dizendo: “Os “Beats”, que mostraram os exageros da racionalidade tecnocrática, caíram na situação antiética de negar o sistema como um todo e, ao fazê-lo, suprimiram o representante psíquico da figura paterna.”
“Ora, o espírito revolucionário conduz a substituir o pai e não simplesmente a banir a relação paterna.”

“O movimento “Beat” apontou novas formas de viver, vigorou como expressão ficcional, mas sucumbiu tragicamente às forças de desintegração interna e externa. Constituiu um dos sonhos perdidos dos anos 60, a matriz onde se gerava um frágil mundo alternativo e que, sendo parte integrante da contracultura, era tudo de que se dispunha para enfrentar o totalitarismo tecnocrático.” “Enfim, os “Beats” buscaram uma revolução, mas foram incapazes de concretizá-la, enquanto antiédipos; foram negativistas da História e, portanto, incapazes de realizar politicamente um projecto histórico.”
No alvorecer desta Era de Aquário estamos a viver a passagem de um ciclo de materialidade para um ciclo de espiritualidade. Esta Era levará essas mudanças a transformações das necessidades humanas, raciais e planetárias.
Seguindo a lógica da divisão por Eras, e mirando-se o futuro através da perspectiva do passado, é evidente que uma nova Era haverá de começar quando o Sol entrar plenamente na constelação de Aquário, em sua lenta precessão na Galáxia. Uma nova fase de religiosidade e misticismo, e de verdadeiro e tradicional gnosticismo, se realizará no mundo, através do Homem, revelando-nos ideais mais altos e mais nobres do que os nossos actuais conceitos emergentes da Civilização Cristã.
O processo de preparação da Era de Aquário já se iniciou – e, provavelmente, já estamos bem dentro dele – e, como Aquário é um signo aéreo, científico e intelectual, a nova filosofia, ou dizendo de outro modo, a nova corrente de pensamento, estará baseada na Razão e será capaz de resolver os enigmas da Vida e da Morte de um modo que satisfaça tanto a mente quanto o instinto religioso/filosófico.
Os novos paradigmas da Era de Aquário estão voltados para serem o desenvolvimento pessoal, o desinteresse pessoal, o altruísmo, a unificação, a superação, o autoconhecimento e a integração ou não separação.
Entendemos por desenvolvimento pessoal a ansiosa busca de compreensão maior dos fenómenos humanos e do autoconhecimento. Ultimamente, afirmando a chegada da nova Era, aumentou muito a procura do entendimento do Eu, a percepção dos fenómenos da Natureza e dos fenómenos místicos e metafísicos.
Mas, talvez o novo e grande paradigma para esta Era de Aquário seja o conceito, cada dia mais difundido e estudado, de Holismo.
Pierre Weil define esse movimento filosófico comportamental como: “O sentimento de mal-estar generalizado diante dos grandes problemas da actualidade, tais como: a violência interindividual, a violência política internacional sob a forma de guerras, o perigo da proliferação nuclear, o desequilíbrio ecológico, entre outros, que têm levado à construção de pontes sobre todas as formas de fronteiras criadas, em última instância, pela mente humana. Entre outros, podemos citar as organizações internacionais (a ONU e a UNESCO, por exemplo), os movimentos de encontro das grandes tradições espirituais, os encontros interdisciplinares, e o advento de uma mentalidade de trabalho de equipa em todos os domínios das ciências e da tecnologia."
Um bom exemplo prático do que veio a ser designado de Holismo, é citado por Pierre Weil como sendo: “O aparecimento de movimentos alternativos à destruição, em medicina e terapia, o conceito de medicina psicossomática e a abordagem holística em terapia; e, enfim, os primeiros encontros entre Ciência e Sabedoria são já a aplicação prática deste conceito holístico. “… A palavra holístico está a infiltrar-se subrepticiamente na Ciência, na Educação e na Terapia, sem que se tenha feito um esforço para conhecer a sua origem e traçar a história da evolução deste conceito”.
Existe uma palavra que, de tanto se ter tentada sua definição, acabou perdendo muito do seu significado ou potencial de expressão: AMOR. Mas, se tomarmos o conceito holístico como fundamento para uma nova definição, então é este autor que nos ajuda, quando nos diz que “A vida é indivisível; só é dividida pela mente humana. Cabe ao Homem descobrir essa unidade que está por detrás das aparências… Portanto, o ser humano tem de voltar-se para dentro para verificar o que realmente é, qual o seu mais alto potencial, qual a mais nobre faculdade que possui, e não imaginar-se como uma espécie superior de animal… Essa tarefa de autocompreensão e autoconhecimento é o que há de mais importante para a felicidade e paz de toda a Humanidade. Somente os que entram profundamente dentro de si mesmos e conseguem dissolver completamente a separação, o apego e a rejeição, e realizam sua verdadeira natureza, encontram condições de viver o verdadeiro Amor, o qual assume características de equanimidade, dirigindo-se a todos os seres do Universo”.

Apesar de estarmos no limiar desta nova Era, temos de nos voltar para uma personalidade que viveu há 2 000 anos, no limiar da Era passada. É claro que nos estamos a referir a Cristo. Seu discurso foi tão importante que sobreviveu a estes 2 000 anos de História!
Pinchas Lapide, em seu livro “O Sermão da Montanha, Utopia ou Programa” (Ed. Vozes), cita Eckhart: “Jesus era a um só tempo mestre de doutrina e mestre da vida”; e explica que: “O mestre de doutrina educa por sua fala prudente, sua sensibilidade e pedagogia. Do mestre de vida espera-se um pouco mais. Não apenas o saber, mas a sabedoria; não apenas os conhecimentos, mas a irradiação; não apenas a retórica, mas a arte de viver – harmonia interna entre doutrina e vida, palavra e acção”.
O discurso de Jesus está claramente expresso no Sermão da Montanha. Pinchas diz que “O sermão da Montanha e os Evangelhos, no seu conjunto, são o produto de determinado momento histórico caracterizado pela crise iminente. Todavia, acaso isso significa que seu condicionamento histórico o despoje de sua actualidade hodierna?”
Como provam os factos, o Sermão da Montanha enquadra-se perfeitamente no momento histórico actual e ainda é uma proposta de paradigma para a Era de Aquário. Pinchas afirma que “…O assim chamado equilíbrio do medo, a crescente escalada armamentista das superpotências e a capacidade já alcançada do género humano em deslizar para o suicídio global – esta situação apocalíptica, reveste o Sermão da Montanha de nova relevância em nossos dias …Acaso o nosso tempo, tal como a era de Jesus, não é assinalado por ameaças de catástrofes, por dúvidas e busca quase doentia de alicerces firmes?…”
O melhor que a razão humana poderia realizar hoje seria levar a regra áurea das casas de Deus e implantá-la nos Parlamentos e Ministérios: “O QUE QUISERDES QUE VOS FAÇAM OS HOMENS, FAZEI-O TAMBÉM A ELES” (Mateus 7,12).
“URGE O TEMPO NO RELÓGIO DO MUNDO. NOSSO TEMPO DE PROVA EXPIROU!” (P. Lapide).
A Era de Aquário traz-nos uma veemente esperança de que a solução para a existência humana não mais esteja, somente, na procura do retorno à Natureza, nem na obediência cega à figura paterna e a líderes ou governantes.
Erich Fromm, no seu livro “A Revolução da Esperança”, sugere-nos “…Uma nova visão de que o Homem pode novamente sentir-se à vontade no mundo e vencer sua sensação de apavorante solidão, que ele pode alcançar pelo pleno desenvolvimento dos seus poderes humanos, da sua capacidade de amar, de usar sua razão, de criar e gozar a beleza, de partilhar sua humanidade com o seu próximo…” …“O novo laço que permite ao Homem sentir-se concordante com todos os homens é fundamentalmente diverso da submissão ao pai, ou à mãe, ou a governantes ou líderes. É o laço harmonioso da FRATERNIDADE, no qual a SOLIDARIEDADE e os laços humanos não serão viciados pela restrição da liberdade emocional ou intelectual” (grifos meus).
Poderíamos ficar aqui enumerando mais umas centenas de pensamentos dos filósofos antigos e modernos a respeito do que deva ser uma sociedade ideal…
Era de Aquário ou não, utopia ou não, todos os homens, indistintamente, devem procurar uma nova solução. “BELEZA, BONDADE E SENTIDO PARA A VIDA deverão ser encontrados aqui, bem diante dos nossos olhos”.
Por mais absurdas que possam parecer as ideias e os paradigmas da nova Era de Aquário, elas já existiam na Era de Áries. Os filósofos gregos já tinham encontrado uma parte da solução. E muitos dos filósofos cristãos também. Se juntarmos esses retalhos de pensamentos faremos uma belíssima colcha. Aparentemente, uma colcha de retalhos; mas poderíamos construir uma nova vida, reabilitando o Homem.
Até que ponto estes novos paradigmas virão naturalmente, sem esforço, causa-nos alguma dúvida. Ou o Homem terá de tomar a decisão de adoptar estes novos paradigmas? Neste caso, terá de se reeducar e educar as próximas gerações. E teríamos de construir uma nova pedagogia.
Uma nova pedagogia, ou a velha pedagogia resgatada? Não precisamos inventar uma nova pedagogia. Podemos inspirar-nos em Coménius: “Na educação Comeniana, a união com Deus é alvo para ser atingido, porque, de contrário, o que se aprende não passa de vã jornada, um exercício de mera vaidade.”

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