sábado, 8 de novembro de 2008

 

Hipocrisia papal... preconceito oficial

Paulo Stekel



Depois de afirmar com todas as letras que o Cristianismo (Católico, diga-se de passagem!) é a única religião verdadeira, jogando todas as demais no Inferno, o Papa Bento XVI resolveu se superar: acaba de aprovar medidas que levarão psicólogos a evitar que gays se tornem seminaristas. Isso seria uma resposta aos vários escândalos envolvendo pedofilia que custaram indenizações milionárias ao Vaticano nos últimos anos.

O infame documento divulgado recentemente pela Congregação para a Educação Católica, afirma que o emprego de psicólogos pode ser “útil em certos casos”. Neste caso, os psicólogos deverão detectar possíveis “sintomas” como “as dependências afetivas fortes”, a “identidade sexual incerta” e “a tendência arraigada à homossexualidade”, diz o texto, que dá ênfase à “rigidez de caráter” necessária aos futuros sacerdotes. Se necessário, os psicólogos poderão indicar terapias, no caso de se manifestarem problemas psicológicos (recorrerão ao mesmo expediente de certos grupos protestantes que pretendem “curar” gays?).

Contudo, o que o Vaticano entende por dependências afetivas? O que seria uma identidade sexual incerta? A identidade homossexual não é incerta. É uma identidade! E deve ser respeitada. Rigidez de caráter não tem nada a ver com a identidade sexual de alguém. E a rigidez de Bento XVI não se traduz, necessariamente, por rigidez ética. Aliás, seus antecessores deram vários sinais de falta de ética no trono de São Pedro, como no caso dos Papas que flertaram com o nazismo... que pretendia eliminar judeus, negros, ciganos e homossexuais...

Ainda que o procedimento de recorrer a psicólogos, que não farão parte do corpo docente, não venha a ser obrigatório e deva contar com “o consentimento prévio, livre e explícito do candidato”, o documento, intitulado “Orientações para o uso das competências da psicologia na admissão e formação dos candidatos ao sacerdócio”, e que foi preparado por seis anos até ser aprovado por Bento XVI, não deixa claro o que acontecerá no caso de um candidato se recusar a passar por uma junta de pessoas prontas a devassar suas inclinações pessoais.

As medidas foram ordenadas pelo papa João Paulo II (falecido em 2005), depois que vários escândalos envolvendo pedofilia e relações homossexuais de padres católicos chegaram a público pela imprensa internacional. A Igreja Católica, atualmente muito desgastada, em alguns casos foi obrigada a pagar indenizações milionárias.

A doutrina católica considera a homossexualidade algo intrinsecamente equivocado e, sendo assim, ensina que homossexuais não poderiam se tornar sacerdotes. Tanto que o cardel Zenon Grocholewski, prefeito da congregação vaticana para a educação afirmou sem qualquer receio que “a homossexualidade ainda que não praticada é um desvio, uma irregularidade, uma ferida”. Na verdade, a Igreja Católica só reproduz o preconceito evidente em vários trechos da Bíblia, que não reconhece nem os direitos dos homossexuais, nem os das mulheres, que são consideradas como inferiores e submissas ao homem. Aliás, por serem associados (equivocadamente) às mulheres em seu comportamento, é que os homossexuais masculinos são tão abominados no texto bíblico. Ou seja, uma dupla afronta à dignidade feminina, como se pode ver.

O preconceito vergonhoso da Igreja Católica chega ao ponto de considerar os sacerdotes com tendências homossexuais como mais frágeis e com tendência a ceder com mais facilidade ao ato sexual que os sacerdotes heterossexuais, o que não é confirmado por nenhuma pesquisa científica. Mas, desde quando a Igreja se mostra científica? Sua visão retrógrada neste âmbito já prejudicou a humanidade por muito tempo (lembre-se da Inquisição, da queima de Giordano Bruno, da quase queima de Galileu...). Para a Igreja, a homossexualidade é um comportamento "intrinsecamente ruim" e uma inclinação "objetivamente desordenada". Que belo jogo de palavras!

O livreto aprovado por Bento XVI, e que contém 17 páginas, afirma: “Muitas incapacidades psicológicas mais ou menos patológicas se pronunciam apenas depois da ordenação como sacerdote. (...) Os erros em discernir a vocação não são raros”. Mais ou menos patológicas? Se a Igreja se refere à incapacidade de aderir ao celibato, isso também não atinge os padres supostamente heterossexuais? Não há pedofilia e quebra de celibato por padres heterossexuais? Claro que sim! Agora, querer associar isso tudo a uma parcela minoritária (cerca de 10% das pessoas) é puro preconceito ou algo pior, como declarou Franco Grillini, presidente da associação homossexual italiana, Gaynet: “Isso é puro racismo, a típica obsessão homofóbica da hierarquia eclesiástica. (...) A homofobia na Igreja é cada vez mais evidente. (...) A orientação sexual de um padre deveria ser irrelevante, já que o que a igreja exige é sua castidade. Uma medida assim contribui apenas para alimentar a exclusão.”

Existem cerca de seis mil e quinhentos seminários no mundo e a expulsão dos seminaristas com tendências homossexuais já é uma regra aprovada desde 1961. Contudo, a regra é aplicada poucas vezes, e sabem por que? Por causa da diminuição nos últimos anos da ordenação de padres no Ocidente. Então, quando há falta de sacerdotes, os homossexuais servem? Por que, então, também não ordenam mulheres, se ambos são reprovados como sacerdotes pela doutrina católica?

Entre as recomendações estabelecidas no documento aprovado estão as que pedem que se exclua os candidatos que não tenham sido "castos" por pelo menos três anos, bem como os que tenham tido relações homossexuais, além dos que se declararem publicamente homossexuais, ostentem “atitudes gays” (???) ou que participem de reuniões, clubes ou manifestações desse tipo. É a nova caça às bruxas!

A condenação dos homossexuais por Bento XVI, o ex-soldado nazista, é algo presente em sua biografia mesmo antes deste ter sido ordenado Papa de uma Igreja que flertou com o nazismo sem dar maiores explicações à humanidade. Desde 1981, quando era o presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, fez côro com João Paulo II na hipócrita condenação moral ao amor homossexual, tornando-se um dos maiores críticos católicos da homossexualidade. Eis algumas de suas palavras, presentes em vários documentos: “Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são grave depravação e intrinsecamente desordenadas, não podendo em caso algum receber qualquer aprovação. (...) A igreja classifica os casamentos homossexuais como imorais, artificiais e nocivos. Fazem parte da ideologia do mal. (...) O homossexualismo é uma desordem moral!"

Duas atitudes desde sempre mancharam a autoridade e a moral da Igreja, que pretendeu um dia comandar o mundo com mão de ferro: a homofobia (intolerância à homossexualidade, manifestando reações diversas à mesma, como violência física, verbal ou psicológica) e a misoginia (discriminação às mulheres, consideradas como inferiores ao homem). Ambas as atitudes, defendidas por todos os Papas até aqui, são um atentado à razão e aos direitos humanos, um pensamento medieval arcaico e infame, abominável e desumano. Não há qualquer prova científica de que as mulheres sejam inferiores aos homens em qualquer capacidade que seja, assim como não há qualquer prova científica de que, em termos de normalidade, alguma coisa faça distinção entre os homossexuais e os heterossexuais. Portanto, ao afirmar que “o homossexualismo é intrinsecamente mau", como o fez Bento XVI e em outros termos seus antecessores, é tão obtuso e vil como a Inquisição, que era capaz de incinerar pessoas humildes simplesmente porque, sendo canhotas, estavam servindo ao Diabo...

Se a Igreja Católica deseja sobreviver ao Século XXI, é bom que reveja seus posicionamentos ultrapassados, aceitando a homossexualidade como uma via da natureza, reconhecendo o direito das mulheres de exercerem o sacerdócio, reconhendo a importância do uso de preservativos, etc. Continuar resistindo num tempo em que a humanidade está se libertando das antigas amarras que limitavam sua verdadeira felicidade como espécie, amarras muitas das quais foram criadas pela própria Igreja, é um suicídio para o Vaticano. Já há igrejas protestantes que realizam casamentos gays, que ordenam mulheres e que não condenam o uso de preservativos. Por que a Igreja Católica continua achando que é superior às outras e bate pé na arrogância, mesmo depois dos grandes fiascos do passado?

A demonização da homossexualidade pela Igreja é uma das causas do aumento dos grupos homofóbicos que agridem gays pelo mundo todo. A maior parte destes grupos é constituída de cristãos católicos, que acham que estão, com sua violência sem sentido e nada cristã, garantindo a supremacia de alguma coisa que valha a pena. É a mesma atitude de grupos cristãos racistas brancos, que receosos de perder terreno para a população negra, que consideram como inferior, saem desatinados a matar pessoas simplesmente por sua cor. Isto deve ser considerado abominável aos olhos de qualquer religião que se preze.

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Como se previa: "Eles não vieram!" (Comentando as explicações de Blossom Goodchild)

Paulo Stekel




Sinceramente, alguém esperava o contrário? Sim, milhares de pessoas acreditaram nela... Há alguns meses todos nós estávamos com nossas caixas de entrada lotadas com emails referentes à mensagem supostamente recebida pela canalizadora autraliana Blossom Goodchild a partir de uma espécie de “Federação Extraterrestre” intitulada “Federação da Luz”.

A mensagem e sua promessa, a de que uma nave extraterrestre seria vista no hemisfério sul durante três dias, a partir de 14 de outubro, ganhou mais notoriedade do que se poderia imaginar em casos semelhantes. Afinal de contas, promessas como estas feitas por pseudocontatados golpistas já ocorreram até no Brasil e o resultado, evidentemente, foi o mesmo: a decepção.

Chegou o dia 14 de outubro, e “eles” não vieram. Aguardou-se a explicação de Blossom, que veio somente no dia 16. Assim que o vídeo foi postado no YouTube, as comunidades de Ufologia das principais redes sociais na Internet iniciaram acalorados debates, explicações, argumen-tos prós e contra. Incrivelmente, ainda havia gente defendendo Blossom.

Em uma comunidade do Orkut, por exemplo, foram postados trechos mal-traduzidos do vídeo de Blossom Goodchild, trabalho feito por gente que se acha a nata da seriedade ufológica no Brasil. Então, um membro resolveu corrigir a tradução, fazendo considerações pertinentes, e foi quase que imediatamente expulso da comunidade (???), sem maiores explicações. Parece que o assunto irritou os ufólogos que se consideram sérios, mas que querem na realidade, é evitar holofotes cruzados. (Risos)

Assista abaixo o vídeo traduzido de Blossom, com suas “explicações” sobre o motivo dos extraterrestres não terem aparecido. A tradução foi feita pelo Marcelo, o membro expulso da comentada comunidade de Ufologia. Além de excelente ator, o Marcelo também sabe como traduzir corretamente a partir do inglês.



http://br.youtube.com/watch?v=3XYPXEnmnoE

As legendas, bem como a tradução, são de Marcelo L. Callegaro.

Depois de assistir ao vídeo, a primeira questão que se nos apresenta é: Blossom é uma fraude ou simples-mente uma crédula?

Ainda que muitos possam simplesmente dizer que ela é uma fraude, como certos pseudocontatados brasileiros que agem como grilheiros de terras nas horas vagas, nos parece que o caso dela é o de uma credulidade excessiva nas próprias canalizações, bem como uma ausência de critérios na hora de definir o que pode ser transmitido ao público e o que precisa ser filtrado ou aguardar por algum indício mínimo de veracidade.

Sempre alertamos as pessoas para que não creiam em quaisquer profecias com datas programadas para isso ou aquilo. Quantas vezes o apocalipse já mudou de data? Quantas vezes o contato final com extraterrestres foi marcado? Quantas vezes a 3ª Guerra Mundial foi prevista? Muitas. E em todas a previsão falhou. A cada ano inventam uma nova data para explodir o mundo...

Blossom realmente pode ter acreditado piamente no que dizia a mensagem que achava ter recebido de extraterrestres, como ela mesma deixa transparecer no vídeo. Talvez não tenha ganho tanto dinheiro, como revela no esclarecimento. Mas isso não a exime da responsabilidade por aquilo que anuncia publicamente, desiludindo milhões de pessoas, afirmando categoricamente algo que não tinha base suficiente para ser dado a público.

Por outro lado, muito nos decepciona a atitude de certos grupos ufológicos, que nem se dão ao trabalho de debater o assunto com vistas a orientar as pessoas para situações futuras semelhantes. Simplesmente defenestraram quem se atreveu a debater, a contestar, a argumentar. Não é à toa que a Ufologia goza de pouca credibilidade e tem pouco apelo nos meios científicos. Há que se diferenciar a Ufologia séria do Ufomarketing que tomou conta do meio, em especial no Brasil, desde que alguns congressos nacionais de certa monta e algumas revistas especializadas apareceram. Apareceram e pararam no tempo. Apareceram e apenas se aproveitaram comercialmente do fenômeno, sem contribuir de fato para a elucidação dele. E, por que? Porque, ao banalizar comercialmente o assunto, embaçaram a visão dos pesquisadores, permitindo a criação e a divulgação de algumas “lendas ufológicas” que transformaram a Ufologia mais numa crença exótica ou numa quase-seita, do que em um campo de pesquisa científica, apenas para utilizarmos uma expressão preferida pelo saudoso general Moacir Uchoa.

Aliás, relembrando o general Uchoa, que era um contatado adepto da mediunidade e da canalização, mas que nunca cedeu à tentação de fixar datas e prometer contatos ao grande público, a Ufologia sem a espiritualidade é capenga, incompleta e sem possibilidade de adentrar na complexidade do fenômeno UFO. Mas os métodos paracientíficos neste caso precisam ser adaptados, já que incluem questões subjetivas de difícil comprovação pelos métodos científicos cartesianos que regem a chamada "Ufologia Científica", que não tem nada de "holística".

Mas, o que fez Blossom Goodchild não é ciência, nem paraciência, é credulidade pura, e perigosa, como se viu. Todos nós que acreditamos na existência de seres extraterrestres e na possibilidade deles estarem nos visitando gostaríamos de que o que ela afirmou fosse verdade. Contudo, não caímos na tentação de abdicar da razão e ceder unicamente à emoção. O senso crítico tem que permanecer de alguma forma, para não corrermos o risco de uma esquizofrenia pseudoreligiosa contagiosa...

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Viagem Astral – O que realmente se projeta?

Paulo Stekel



Introdução

Você já teve a sensação de flutuar durante o sonho? Já teve a sensação de cair? Já teve a sensação de não estar de fato dormindo, mas vendo a si mesmo deitado na cama? Se sua resposta é sim, provavelmente você experimentou a projeção astral (termo mais adequado) ou, como dizem outros, uma viagem astral, um desdobramento astral ou uma experiência fora do corpo.

Para quem entende do assunto, a projeção astral é a capacidade que temos de sair do corpo físico e viajarmos por planos invisíveis, utilizando o que se chama de “corpo astral”. É um fenômeno comum a todos nós, mesmo que não tenhamos consciência do fato.

Contudo, quem é esse “eu” que “sai” ou se projeta do corpo? O espírito, a mente, a consciência? São termos para a mesma coisa? Orientais e ocidentais pensam da mesma forma sobre o assunto? Eis algumas dúvidas suscetíveis de controvérsias.

O astral

O corpo astral é considerado pelos espiritualistas em geral como a parte extra-física do corpo físico. Parece ser igual ao físico (daí a noção popularizada de “duplo astral”), mas menos denso, e normalmente invisível e intangível. Quando estamos em estado de vigília, o corpo astral repousa junto ao físico. Quando dormimos, ele se destaca e se projeta segundo as tendências mentais. Desta forma, parece que o corpo astral depende das disposições da mente do indivíduo, não sendo, portanto, confundível com a mesma.

Muitos pesquisadores da projeção astral dizem que o corpo astral se mantém ligado ao físico por uma espéice de “cordão de prata”, um laço energético, também chamado cordão astral ou cordão vital, que vai diminuindo de espessura à medida que o corpo astral se afasta do corpo. Isso parece discutível, pois muitas pessoas que relatam tais experiências dizem não ter visto nada semelhante. De fato, isso parece um pouco como resquício da visão materialista que vigorou até poucas décadas, segundo a qual tudo tinha que ter seu substrato físico. Se a projeção for um processo mental, não há qualquer necessidade de um cordão de ligação. A conexão seria literalmente “sem fio”. Esta é uma visão mais sofisticada perfeitamente explicável pela nossa atual tecnologia “wireless”. Se, no mundo físico, há a energia eletromagnética que pode ser transmitida assim, por que não haveria um processo similar sendo coordenado por nossa mente?

O plano astral é visto como um Universo Paralelo ao nosso. Este universo é regido pelas formas-pensamento, que são geradas pelo ato de pensar com intensidade quando se está consciente no mesmo. Não existe ali espaço nem tempo, mas sim forma-pensamento, de modo que ao se pensar em um lugar, quase de imediato se é transportado para lá.

Onde, então, situa-se o plano astral, se este parece totalmente dependente de nossa mente? Seria uma espécie de “zona neutra” dentro de nossa mente ou manifestando-se através dela? Se não pensarmos no plano astral com as mesmas regras do plano físico, isso pode fazer muito sentido. Contudo, ainda não significaria sua não existência ou um simples fenômeno psicológico. Seria algo real, para a mente, segundo a perspectiva da mente. A propósito, as filosofias orientais deixam claro que mesmo nosso mundo físico ilusório é bem real quando visto pela perspectiva da mente, mostrando-se, contudo, bastante limitado e impermanente quando a mente o percebe a partir de outros níveis mais sutis.

Adaptação de linguagem e novas respostas

Estamos acostumados a uma literatura em linguagem muito arcaica quanto ao que tange a viagem astral, plano astral e corpo astral. Muito do que ainda se apresenta vem dos textos de teosofia, que são do século XIX (Blavatsky, Leadbeater, Besant). A nomenclatura nunca foi revista adequadamente. Mesmo a nomenclatura da Projeciologia desenvolvida por Waldo Vieira é bastante complexa e não acrescenta argumentos realmente novos, a despeito dos termos etimologicamente elaborados. Os livros de Robert Monroe se detêm muito nos relatos do fenômeno, mas trazem poucas respostas sobre o que realmente se projeta, pois isso requer uma compreensão muito mais profunda da própria essência da mente.

Para os orientais, a mente tem a capacidade de se expandir, de viajar a outros lugares sem o corpo, e mesmo de projetar uma imagem visível a outros do corpo ao qual está ligado, o que é chamado de “espectro” ou “energia fantasma”. Esses relatos vêm geralmente no caso de pessoas mortas. Mas o fato do corpo ter morrido não significa que a mente tenha se inutilizado. Ela ainda mantém a capacidade de projetar uma imagem do corpo ao qual estava ligada por um bom tempo, de anos a séculos, dependendo do caso.

Só para exemplificar a diferença de visão sobre o que sobrevive à morte (deve ser a mesma coisa que se projeta no astral?), analisemos a opinião espírita corrente e a visão do budismo:

Quando se pergunta a um espírita onde se encontra a pessoa que morreu, ou o seu espírito, um médium pode responder: “aqui, do meu lado!” Ou então: “Aí do seu lado, não vê?” Isso evidencia a noção de um espírito “local”, que pode ser definido, localizado e mesmo observado nos mesmos moldes do corpo físico. Ainda que os espíritas possam dizer que o espírito, neste caso, sempre está ligado ao perispírito, e que este é que é percebido, fica clara a noção de que esse conjunto é a consciência, mente ou ser que sobrevive à morte.

Quando se pergunta a um budista tibetano onde se encontra a pessoa que morreu, ele responderá: “Por aí”. E ainda apontará para todos os lados e para o espaço. Por que? Porque para ele, a mente é o ser que partiu. Esta mente abrange o espaço e não pode ser contida. Ele esteve contida enquanto o ser estava vivo. Quando ele morre, a mente se liberta. Mas, pelas tendências cármicas que gerou quando num corpo, tende a retornar em outro corpo, o que chamam os budistas de “renascimento” e nós, ocidentais, erroneamente, de “reencarnação”. Este último termo é equivocado porque nada “reentra na carne”; algo apenas “nasce mais uma vez”, e esse “nascer” equivale a manifestar-se num corpo. Isso nos dá dicas de que a mente manifesta-se no corpo, no cérebro e na personalidade, mas não é nenhuma destas coisas. Não é uma alma, um espírito ou um ego que sobrevive à morte, mas simplesmente um fluxo puro universal. A fonte está em lugar seguro... Isso equivale a dizer que seja lá o que for que anima o corpo, é não-local.

O que queremos dizer é que podemos aceitar quaisquer das duas argumentações sobre a mente e o astral, mas isso afetará a percepção da experiência em si e, de fato, afeta. Quando no astral, as imagens que vemos refletem mais nossas crenças que algo real. Assim, um espírita perceberá um espírito de luz onde um tibetano poderia perceber a energia de um Buda. Mas, o que realmente está lá? É algo que requer estudo mais aprofundado.

Como ocorre?

A viagem astral pode ser involuntária ou voluntária. Pode ocorrer durante um sonho ou nas experiências de quase-morte (EQM). Nós mesmos já vivenciamos a primeira possibilidade (em sonho) por diversas vezes desde a adolescência, mas sempre de modo involuntário, nunca provocado. Mas há muitas pessoas que dizem fazer a viagem astral voluntariamente e de modo controlado. Nunca percebemos nenhum cordão de prata, mas percebemos alguma presença a nos guiar, ainda que se mantivesse invisível. Os próprios pesquisadores reconhecem que ninguém jamais conseguiu tocar o cordão de prata ou esmiuçá-lo detidamente.

Um amigo relatou-nos ter tido experiências de viagem astral quando estava em coma, à beira da morte. Na verdade, tinha sido dado como morto e já o preparavam para ser entregue aos cuidados da funerária. Disse-nos que podia ver seu próprio corpo sendo costurado na mesa de cirurgia após um grave acidente de carro, e relatou ter encontrado uma entidade supostamente feminina do “outro lado”. Esta entidade disse-lhe que ainda não era a hora e que uma nova chance lhe tinha sido dada, pois sua missão não estava completa. Então, ele voltou a si e a enfermeira pasmou-se de ouvi-lo pedir água, quando era dado praticamente como sem volta. Até esta época, sua prática religiosa era nula. Nos anos seguintes, o vimos passar por muitos caminhos diferentes (dos mórmons ao candomblé e à umbanda), de modo que cremos ser ele hoje um autêntico “universalista”. A experiência (e o acidente, obviamente), de fato, mudou sua personalidade, que de egocêntrica, orgulhosa e vaidosa, passou a refletir uma mente mais humana, humilde, serena e menos agressiva. Ele ainda não sabe o que realmente aconteceu, mas foi positivamente afetado.

Uma amiga relatou-nos que em todas as vezes em sua vida em que recebeu anestesia geral (foram algumas vezes), viu-se fora do corpo, ouvia tudo o que os médicos diziam e podia sair do quarto, flutuar sobre a mesa cirúrgica, etc. Contudo, sempre sentiu-se bem com a experiência e não queria retornar, devido ao bem-estar gerado pela experiência. Mas acabava voltando, como que à força. Uma energia, ou consciência, a fazia retornar.

Nós mesmos passamos por algo parecido em uma de nossas experiências. Ela ocorreu por volta de 1998. Mas não é que não queríamos voltar, na verdade não o conseguíamos. Algo parecia nos impedir. Então, tivemos a intuição de entoar um mantra hebraico (o mantra “qadosh”, do qual falamos detidamente em artigo anterior - http://revistahorizonte.blogspot.com/2008/10/msica-canalizao.html#links ), e imediatamente após entoá-lo por três vezes, sentimos como que uma mão puxando-nos para o corpo. Podíamos perceber uma figura branca, numa veste azul-clara, à nossa direita. Então, despertamos, sem maiores problemas. Antes disso, havíamos tido a clara sensação de ter atravessado a parede e de nos postarmos frente a um espelho. Não vimos nossa imagem no espelho, mas apareciam outras imagens nela, de seres que certamente costumam andejar por ali. Na mesma ocasião tivemos, no astral, uma experiência de premonição. Parece que a projeção nos deixa suscetíveis a estas manifestações.

O consenso quase geral é de que estes seres percebidos durante a projeção astral são desencarnados, mas há também quem pense serem ou seres vivos deste próprio plano ou então projeções mentais relacionadas à nossa própria experiência cármica destas e de outras vidas. Esta última é a visão praticamente compartilhada pelo budismo tibetano. Isso não significa que não possam existir outras consciências fora do mundo físico. Mas devemos analisar bem cada experiência e não cair na nomenclatura comum a doutrinas que encapsulam a experiência em moldes absolutos. Para alguns, a projeção astral é como se fosse uma meditação profunda na qual a mente escapa momentaneamente dos limites do corpo e tem a mesma liberdade que teria após a morte, salvo pelo fato de retornar em seguida.

Mas, qual é a sensação que temos no momento em que estamos nos projetando no astral? Há várias características, entre elas: a sensação de se estar no espaço vazio; dificuldade de respirar, mas sem perder os sentidos; percepção do braço esticando; olhar-se no espelho e não se ver (como nos ocorreu); passar pelas pessoas sem ser observado; emitir alguma espécie de luz própria; sentir-se mais leve; não fazer sombra; sentir-se deslizando; sentir-se livre; ter uma visão aperfeiçoada; observar a si próprio e não ver o corpo.

É perigoso viajar no astral?

Quase todos nós já ouvimos de alguém que “sim”, é perigoso viajar no astral através da projeção, pois podemos não mais voltar. Mas, quem fala assim não conhece realmente o assunto, nem se dá conta de que parecemos viajar todas as noites, quando dormimos, desde que nascemos, e não pode haver qualquer perigo extremo nisso. Os mais drásticos dizem que podemos morrer fazendo viagem astral. Mas também podemos morrer dormindo, não é mesmo? Podemos morrer de tantas formas estúpidas não contempladas na categoria “perigo” que esta advertência parece mais querer causar pânico que alertar.

Outra advertência comum dada por amadores é a de que seres trevosos podem cortar o cordão de prata do viajante a seu revés. Isso seria um “assassinato astral”, mas muito difícil de ocorrer sem que o corpo físico fosse atacado diretamente por elementos também físicos. A tendência na viagem astral, no caso do menor risco, é o retorno imediato ao corpo físico. Ademais, a consciência, na projeção, apenas transfere-se do físico para o astral, mantendo uma continuidade. O corpo no qual está manifestando é algo secundário. A consciência é quem comanda os processos. Seres bons e maus existem em todos os planos. Eles se atraem por afinidades. Então, basta cada um saber do que é feito, que tipo de energias emana, e terá condições de saber que energias pode atrair. Se no físico atraímos pessoas afins com nossa ética e comportamento, no astral não pode ser diferente. A culpa não pode ser do plano astral, mas de nós mesmos.

Benefícios da projeção

As pessoas que dizem fazer a projeção astral com freqüência relatam inúmeros benefícios ou vantagens desta prática. Uma delas é a possibilidade de, estando fora do corpo, observar eventos físicos e extrafísicos, sem o uso dos sentidos físicos ordinários. Neste estado, a pessoa que se projeta observa, trabalha, participa e aprende fora do seu corpo, especialmente sobre o novo mundo que se descortina diante de si, um mundo “espiritual” fluido, que torna realidade seus pensamentos (bons ou maus) através da geração das formas-pensamento.

Por vezes a pessoa que viaja pelo astral encontra outros seres, ou o que parecem ser outros seres. Alguns são imagens de pessoas conhecidas do projetor que já morreram. Outras, seres desconhecidos. A pessoa ainda pode vir a lembrar de vidas anteriores ou se ver auxiliada energeticamente por estes “seres astrais”. Mas ela também pode encontrar neste plano o duplo astral de pessoas vivas que também estão dormindo, como pessoas queridas, desafetos, parentes, etc. Este elemento parece corroborar a idéia de que o astral é apenas mais um plano onde nossa consciência pode se manifestar.

Neste nível, por vezes são vistos seres chamados de “amparadores”, outras vezes nomeados de anjos de guarda, guias, mentores, etc. Foi o que nós mesmos experimentamos no que relatamos há pouco. Os amparadores, seja lá o que forem (desencarnados, anjos, mestres) estão sempre presentes, assistindo e orientando o projetor, ainda que este não os perceba. Eles podem mesmo auxiliá-lo a se projetar.

Diferença entre sonho e viagem astral

Na verdade, segundo os pesquisadores, o estado de sono, no qual ocorre a maior parte das experiências de projeção, é constituído de três tipos de estado:

Os Sonhos espontâneos ou naturais: Neles, que são a maioria das experiências, não sabemos que estamos sonhando, não interferimos, mas sentimos todos os acontecimentos. As pessoas muito estressadas ou doentes sequer lembram destes sonhos comuns.

Sonhos lúcidos: Nestes, sabemos que estamos sonhando e podemos mudar os eventos, tomando decisões. Segundo os especialistas, um sonho lúcido nada mais é uma projeção astral do tipo semi-consciente.

Projeção astral ou viagem astral: Sua condição imprescindível é que se saiba, se tenha a certeza de que se está vivenciando uma Experiência Fora do Corpo. Mesmo não se sabendo onde se está, é importante que se tenha a certeza de não se estar sonhando, nem no corpo físico. Há graus desta lucidez, mas em qualquer grau, deve-se ter a certeza da singularidade da experiência.

Comparando o sonho comum e a projeção astral, podemos dizer que: No sonho, ocorre a atividade mental habitual – na projeção, ela é muito mais rica; no sonho, as imagens que surgem não podem ser controladas – na projeção, podemos controlar tudo à nossa volta, incluso fazer surgir ou desaparecer imagens; no sonho, o senso crítico está ausente – na projeção, ele se faz presente sempre, como no estado de vigília; no sonho não nos lembramos claramente das imagens e do enredo – na projeção, podemos lembrar de tudo como num evento ocorrido em estado de vigília; no sonho, não temos a sensação de sair do corpo – na projeção, essa sensação é uma experiência única e inesquecível; no sonho, as imagens são deformadas e irreais – na projeção, são nítidas; no sonho, as imagens são menos claras que no estado de vigília – na projeção, podem ser ainda mais intensas; no sonho, as lembranças podem ser mais fortes quando comparadas com projeções mais longas, o que parece ser um paradoxo.

A visão oriental

No Budismo há o conceito de siddhis, as “perfeições” ou espécies de poderes supra-humanos, como clarividência, clariaudiência, telepatia, telecinese, etc. Há os siddhis inferiores e os siddhis superiores. Os fenômenos psíquicos comuns estudados pela Parapsicologia geralmente recaem na categoria dos siddhis inferiores. Os superiores são aqueles poderes que conduzem os seres ao despertar. Um exemplo, é a capacidade que seres elevados, como Mestres, Bodhisattvas e Buddhas têm de dar aos seres não apenas o que eles desejam, mas o que necessitam. Assim, os ensinamentos espirituais vindos destes seres são legítimos siddhis superiores, ainda que aqueles ligados à fenomenologia física não os entendam como poderes superiores. Na mesma categoria está a capacidade de conhecer as vidas anteriores de alguém, o que habilita um ser superior a prescrever o melhor método para que um discípulo avance no caminho espiritual.

O Budismo reconhece fenômenos como a mediunidade e a viagem astral, mas eles não são considerados como o que há de mais importante, além de serem referidos com termos diferentes dos usados no Ocidente. Estariam na categoria dos siddhis inferiores. Os budistas consideram o que chamamos de plano astral como um lugar inferior ao que chamamos de plano mental. Na verdade, o mental coordena o astral, o etérico e o físico.

A consciência ou mente dos mortos ainda se manifesta no astral por um tempo após a morte, mas deveríamos deixá-los seguir seu curso em paz, sem tentar atraí-los pelo apego que restou de nossa parte. Agindo assim, em pouco tempo eles encontram seu caminho e os resquícios de sua personalidade desaparece, deixando-os aptos a renascer em outro corpo. Na verdade, só existe um continuum mental, não um eu que sobreviva à morte. Só há estados de consciência. Um estado é um modo de ser. Então, só há modos de consciência. Não há uma alma concreta, como vista pelo espiritismo, pelo cristianismo e por algumas tendências do movimento “nova era”. Há um fluxo linear, um fluxo mental puro que vai se obliterando pelos níveis mais físicos à medida que se reveste deles para se manifestar, mas não um eu que saia imutável da experiência de uma vida, pois as experiências não são lineares. Se nossas células todas mudam no curso de poucos anos, de modo que não podemos dizer que temos o mesmo corpo desde o nascimento, o que dizer da mente, da consciência, que passa por tantas fases ao longo da vida?

Mais importante que desenvolver os siddhis inferiores (no qual a viagem astral se enquadra) é desenvolver os siddhis superiores, como as virtudes, por exemplo. Contudo, isso não significa não reconhecer a realidade da viagem astral ou proibí-la. Há muitos especialistas em viagens astrais no mundo hinduísta e budista. Contudo, sem um objetivo nobre – o benefício de todos os seres –, nada pode ser alçado à categoria de siddhi superior. A viagem astral pode ser útil nas mãos de pessoas compassivas e que buscam a sabedoria, mas não nas mãos daquelas que encantam-se com fenômenos impermanentes ou que buscam ambiciosamente todo o poder a qualquer custo.

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