sexta-feira, 19 de outubro de 2007

 

Editorial Nº 01 [19/10/2007]

Em defesa do direito à livre expressão




Em um ano de existência da Revista Horizonte – Leitura Holística, esta é a primeira vez que nos vemos inclinados a escrever um editorial, e com a função específica de esclarecer aspectos de nossa linha editorial e do que se constitui o chamado “direito à livre expressão”.

Temos publicado matérias polêmicas desde o primeiro número, versando sobre temas como a liberdade de expressão sexual, o fundamentalismo religioso, a pseudo-espiritualidade, as mudanças climáticas e o boicote aos Jogos Olímpicos de Beijing 2008. No caso deste último tema, os debates gerados na Internet (Orkut, MSN, blogs) foram intensos, mas sempre respeitosos. Os ânimos, por vezes, acirraram-se, mas dentro do aceitável quando se deseja defender determinado ponto de vista.

Mas, após o lançamento de nossa edição de aniversário (Nº 12 – outubro de 2007), as coisas se encaminharam de um modo, até então, para nós, sui generis. Nosso entrevistado do mês foi o médico colombiano, até há pouco radicado nos EUA e atualmente morando em São Paulo (Brasil), o Dr. Roberto Giraldo, sabidamente um dos cientistas dissidentes da teoria oficial do HIV/AIDS. Até aí, tudo bem.

Lançada a revista e iniciados alguns debates pela Internet, entre eles vários em comunidades do site de relacionamentos Orkut, os ânimos se acirraram de vez. Não em todas as comunidades onde os debates foram propostos e a entrevista apresentada. Apenas em uma. Uma comunidade de combate à homofobia com mais de 52 mil membros, da qual fazíamos parte.

Esperávamos que, numa comunidade com tantos membros, as pessoas soubessem ser pluralistas e não fundamentalistas quanto ao assunto HIV/AIDS. Os ataques, inicialmente apenas contra as idéias do entrevistado, logo passaram também a ser dirigidos ao editor da Revista Horizonte – Leitura Holística, por conta deste se ter dado a entrevistar o Dr. Roberto Giraldo, desafeto ideológico da maioria dos adeptos da teoria oficialista. Por fim, ficou evidente que o que se propunha era colocar no limbo os cientistas dissidentes e nem sequer lhe dar ouvidos. Como se pode pensar assim em pleno Terceiro Milênio, quando a liberdade de expressão de pensamento está tão difundida? Quando a liberdade de imprensa está sacramentada? Quando a liberdade de discordar em questões científicas e propor teorias alternativas é um fato, e não algo contrário à lei? Aliás, em qual país do mundo os cientistas dissidentes são considerados foras-da-lei? Em nenhum. É tudo, portanto, uma questão de opinião pessoal, a que cada um tem direito.

À medida que a polêmica foi se agravando, junto com as ofensas pessoais, muitas vezes ignoradas pela moderação da comunidade, ficava cada vez mais claro que as pessoas estavam confundido o entrevistador com o entrevistado, por conta de sua fúria por ter o primeiro se dignado a entrevistar um “maluco dissidente”, como muitos diziam. Como se pode cercear o direito de um jornalista entrevistar qualquer pessoa, ainda mais se esta pessoa não fala coisas contra a lei, não é um bandido e nem está sendo processado por ninguém? Não estaria o entrevistado, neste caso, totalmente amparado pela lei, ainda que tratando de um assunto polêmico, mas legal? Óbvio que sim. Mas não parecia tão óbvio para os debatedores daquela comunidade. Contudo, nas demais comunidades onde o debate fôra proposto, as coisas continuavam andando bem, com críticas mordazes, mas dentro do aceitável. Nenhuma comunidade, além daquela, propôs deletar os tópicos do debate.

Como conseqüência dos debates cada vez mais acalorados e desrespeitosos, a moderação daquela comunidade, incapaz de lidar com algo que se mostrou tão polêmico, preferiu ceder às instâncias dos “ortodoxos” e deletar os dois tópicos existentes sobre o assunto, um deles de nossa autoria. De nossa parte, procuramos observar o que acontecia apenas de forma jornalística, tentando concluir os motivos de tal acirramento dos ânimos. Ainda mais que, em outras comunidades e mesmo em nosso blog, isto não estava acontecendo.

Uma das conclusões a que chegamos é a de que, em comunidades onde há um grande número de militantes do movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), a teoria oficialista de que o HIV é o único causador da AIDS reina absoluta. Os motivos disso podem ser vários, mas um talvez salte aos olhos: os homossexuais foram, durante muito tempo, as maiores vítimas do preconceito associado à AIDS, além de serem considerados por setores religiosos fundamentalistas como disseminadores da doença, por conta da promiscuidade.

Quando a teoria oficialista se fixou, mesmo sem todas as bases científicas necessárias, como advertem os dissidentes (e o reconhece o próprio Dr. Luc Montagnier, no documentário espanhol “Sida, La Duda”), e remédios foram desenvolvidos para aumentar a sobrevida dos soropositivos, à custa de uma intoxicação severa, como a causada pelo AZT, o movimento GLBT aderiu à idéia imediatamente, sem qualquer debate ou contraditório, vendo ali a chance de reduzir o ataque aos soropositivos homossexuais. Não é a questão de julgar tal atitude, mesmo porque era uma situação muito séria e premente. Mas não se pode abdicar ao debate por este mesmo motivo.

Voltando ao ponto em questão, a conseqüência final do debate acirrado foi a delecção dos dois tópicos e, por fim, nossa exclusão da dita comunidade, o que chocou alguns membros, que não viam motivo algum para isso. Para nós, a sentença era bem clara: Uma expulsão motivada pela audácia em entrevistar um cientista dissidente e ainda dar notícia do fato! Uma expulsão motivada pela entrevista e pela audácia do entrevistador em defender o direito de seu entrevistado a pensar diferente, baseado no princípio de liberdade de expressão, uma vez que o Dr. Giraldo não é um fora-da-lei, nem está sub judice, tem titulação suficiente para argumentar cientificamente e, até onde sabemos, não padece de problemas mentais.

É lamentável uma situação dessas num país como o Brasil, que saiu de uma Ditadura Militar há pouco mais de 20 anos, que passou duas décadas sem liberdade plena de expressão. É lamentável que a referida atitude tenha partido de pessoas jovens, que não sofreram os horrores da privação de liberdade de pensamento. É lamentável perceber como, em plena era da informação, da Internet em milhões de lares, da facilidade em se pesquisar as bases de qualquer assunto em poucos minutos, os jovens pareçam tão desinformados e tão intolerantes quando instados a buscar subsídios para defender suas posturas fixas. Aliás, esta parece uma postura comum em todas as idades: para quê contestar conceitos já estabelecidos, se é mais cômodo aceitá-los e pronto? Isso não combina com os tempos atuais, definitivamente.

Eis alguns dos argumentos mais absurdos que apareceram no referido debate deletado:

“Por favor, o assunto é sério demais! (...) Nem vou entrar no mérito. É totalmente absurdo. (...) Desculpe, não posso sequer ler esta bobagem. * Taí um bom caso de tópico a ser deletado!” [Este foi um dos primeiros comentários!]

“Protesto formal. Vou pedir pessoalmente para a moderação que esse tópico seja deletado, pois ele contém informações (...) que são criminosas, levianas e inverídicas sobre a questão. (...) eu não posso admitir a divulgação dessa informação perigosa e sem nenhum fundamento médico.” [Informações criminosas? Em qual país são consideradas assim? Informações perigosas porque fazem pensar?]

“Realmente este 'Dr.' deveria estar preso ou se tratando.” [Se é assim, por que discutir o assunto não é ilegal?]

“Eu acho que a comunidade médica/científica deveria dar um basta nesta especulação absurda de uma vez por todas.” [Se não o fez é porque não pode. Como calar cerca de 5 mil cientistas dissidentes, entre eles, dois Prêmios Nobel?]

“(...) se o Sr. Paulo [editor] e o próprio Dr. [Giraldo] acreditam nesta teoria, será que aceitariam receber sangue contaminado pelo HIV sem tomar medicamentos nos cinco anos seguintes?” [Confundindo o entrevistador com o entrevistado, como já dissemos. A idéia de contaminação consentida, proposta pelo Dr. Peter Duesberg para si mesmo, mas em condições estritamente científicas, como forma de comprovar sua teoria, nunca foi aceita por nenhum laboratório do mundo. Acaso aceitariam se nos dispuséssemos?]

Abaixo, trecho de nossa justificativa junto à moderação, muito útil para apresentar a opinião editorial da Revista Horizonte – Leitura Holística daqui por diante:

“Impedir que os membros do Orkut tenham acesso ao conteúdo de debates sobre assuntos polêmicos, mas não contrários à lei, uma vez que tais debates são públicos, já que qualquer 'orkuteiro' pode lê-los sem participar da comunidade é, no mínimo, uma atitude contestável pelo senso comum.”

Depois disso, ocorreu a expulsão sumária... Lamentável num país livre!

Posto isso, a Revista Horizonte – Leitura Holística, através de seu editor, declara o seguinte:

Continuaremos a tratar de assuntos polêmicos, seja nas entrevistas ou nos artigos em geral, desde que embasados na lei de liberdade de expressão. Esclarecemos que SEMPRE estamos abertos ao contraditório, ao contraponto. Desta forma, qualquer pessoa que discorde do que foi tratado em um artigo ou entrevista, pode propor outro artigo ou outro entrevistado, para que os leitores tirem suas próprias conclusões. Comprometemo-nos a dar espaço a todos os lados de qualquer questão polêmica, desde que os autores ou entrevistados tenham argumentos substanciais e acrescentem algo de útil ao debate. Por uma questão de equilíbrio de argumentos, preferimos que um “rebatedor”, seja articulista ou entrevistado, tenha, pelo menos, o mesmo grau de titulação daquele a quem rebate e que pertença à mesma área. Assim, os leitores terão argumentos mais ou menos equivalentes em visões opostas.

Utilizando esta regra, considerando que o Dr. Roberto Giraldo é médico especialista em infectologia e imunologia, seu “rebatedor” deveria, no mínimo, pertencer à mesma área ou ter titulação semelhante, para que seus contra-argumentos fossem considerados justos e suscetíveis de confrontação. Isso responde e satisfaz uma pergunta feita a alguns de nossos leitores nos últimos dias: O que você prefere, que um doutor dissidente da teoria oficial do HIV/AIDS, especialista em imunologia, seja contestado em outra entrevista por um clínico geral ou por outro especialista na área, partidário da teoria oficialista? A resposta é óbvia, não é mesmo?

Ficamos, então, disponíveis, se em algum momento um especialista oficialista quiser se manifestar através da Revista Horizonte – Leitura Holística.

Não poderíamos encerrar sem um enorme elogio a nossos milhares de leitores. Deles, recebemos várias avaliações sobre a entrevista do Dr. Giraldo, favoráveis ou não a suas idéias. Contudo, em todas as situações nossos leitores foram, como sempre, corteses, educados, conscientes e interessados em informar-se mais sobre o assunto. Queremos esclarecer que as críticas pesadas à nossa atitude de entrevistar o Dr. Giraldo partiram de pessoas que mal conhecem a Revista Horizonte – Leitura Holística. Algumas, por sinal, revelaram não saber a diferença entre visão holística e “mistificação”.

Manifestamos, mais uma vez, nosso repúdio a atitudes de intolerância, cerceamento do direito de expressão do pensamento, ofensas pessoais por idéias esposadas, argumentos passionais e hostilidade, gerados por qualquer assunto polêmico permitido por lei tratado em qualquer veículo de informação midiática ou de expressão individual (como é o Orkut) em qualquer lugar do mundo. Afinal, perder a linha, é perder a razão!

Fraternalmente,

Paulo Stekel
(editor)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

 

Entrevista: Dr. Roberto Giraldo - Repensando a AIDS

Entrevista concedida a Paulo Stekel por um dos mais importantes cientistas da Hipótese Alternativa da AIDS



Sempre é bom termos acesso aos dois lados de uma questão, não acham? Afinal, isso faz parte da liberdade de expressão e de informação, tão propalada hoje em dia. Por que, então, no que se refere à AIDS e suas causas, não temos um contraponto? Só há uma versão? Definitivamente, não. Há um contraponto, sim, e é formado por um grupo de cientistas idôneos e de muitos simpatizantes que formam um grupo conhecido como “dissidentes da hipótese HIV/AIDS”, ou seja, pessoas que contestam que o vírus HIV seja o causador da AIDS.

Um dos mais importantes destes cientistas, que querem apenas o direito a uma pesquisa aberta e transparente da questão, é o nosso entrevistado especial desta edição de um ano de Horizonte – Leitura Holística: o médico colombiano de renome internacional, Dr. Roberto Giraldo.

Especialista em AIDS e agentes estressantes imunológicos, o Dr. Roberto Giraldo é médico, especialista em Medicina Interna, com ênfase em enfermidades infecciosas, pela Universidade de Antioquia, na Colômbia. Desde 1993, trabalha nos laboratórios de imunologia e de diagnóstico molecular do "New York Presbyterian Hospital, Weill Cornell Medical Center", em Nova York, EUA. Foi presidente do "Rethinking AIDS" (http://www.rethinkingaids.com), grupo internacional que busca uma reavaliação científica da AIDS.

Há quatro décadas tem se dedicado a atividades clínicas, acadêmicas e investigativas em diferentes aspectos das doenças infecciosas, imunológicas e tropicais em várias regiões da Colômbia, EUA, Europa e África.

A maior parte de sua carreira investigativa tem sido no campo das imunodeficiências secundárias ou adquiridas, especialmente aquelas que ocorrem nos países subdesenvolvidos.

De 1979 a 1987 exerceu sua profissão em uma região da selva colombiana. Alí teve a oportunidade de trabalhar ombro a ombro com curandeiros tradicionais e de explorar as diferentes condições médicas relacionadas com a pobreza e a desnutrição, tais como as infecções, as parasitoses e toda uma gama de imunodeficiências.

É investigador independente da AIDS desde 1981, tendo várias publicações sobre o tema. Em 1997 escreveu o livro “El SIDA y los agentes estressantes inmunológicos” [A AIDS e os agentes estressantes imunológicos], afirmando que “a AIDS não é uma doença infecciosa nem se transmite sexualmente. Ela é uma síndrome tóxico-nutricional causada pelo alarmante incremento mundial de agentes estressantes para o sistema imunológico”.

Desde o ano 2000 faz parte de um painel internacional de especialistas para assessorar o governo do Presidente Thabo Mbeki, da África do Sul, em assuntos relacionados à AIDS. Em 2003 foi convidado pelos Ministros da Saúde de 14 países da África e apresentou-lhes sua proposta de “Terapia nutricional para o tratamento e a prevenção da AIDS”.

Por mais que o assunto seja polêmico – e é – a leitura das respostas claras e precisas do Dr. Giraldo fará com que você, leitor, pelo menos pense sobre o assunto. Se desejar saber mais sobre o assunto, acesse o site do Dr. Giraldo (http://www.robertogiraldo.com). Ali, você encontrará os links de centenas de sites pelo mundo afora de cientistas, agentes de saúde, jorrnalistas, escritores, pesquisadores e políticos que pensam como o Dr. Giraldo.

Horizonte: Em seus artigos há constante referência aos “Agentes Estressores Imunológicos”. O que são estes agentes?

Dr. Giraldo: Agentes estressores para o sistema imunológico são aqueles agentes tóxicos que em alguma forma alteram o funcionamento do sistema imunológico. Eles são conhecidos há muitos anos ou décadas. Hans Selye, por exemplo, sabia desde 1936 que tudo aquilo que o corpo humano perceba como ameaça, desencadeia no corpo uma resposta que ele chamou “Resposta ao Estresse” e aquilo que desencadeava essa resposta ele os chamou agentes estressores ou estressantes. Desde essa época ele sabia que todo tipo de estresse crônico causava diminuição de linfócitos (linfopenia). Eu uso a mesma terminologia, citando sempre a fonte, como uma homenagem a esse que considero o maior cientista da medicina do século passado (Séc. XX).

Os agentes estressantes imunológicos que se sabe que alteram o sistema imunológico são de cinco tipos: (1) químicos, tais como as drogas psicoativas, conservantes de alimentos, agroquímicos, contaminantes do ar, água, solo, detergentes, drogas da medicina alopática, etc; (2) físicos, tais como todas as radiações elétricas, eletrônicas e eletromagnéticas: telefones celulares, inalâmbricos, antenas, transformadores de energia, cosmopatias e geopatias, etc.; (3) biológicos: sêmen, sangue, vacinas;(4) nutricionais, tais como a falta de comida ou a comida de pouco nível nutricional e (5) mentais, tais como a ansiedade, as dúvidas, o pânico. Para nosso corpo e para o sistema imunológico em particular, usar cocaína é o mesmo que não comer; ter doenças parasitárias secundárias à desnutrição e à pobreza, é o mesmo que dormir próximo a um transformador de luz: o corpo reage sempre da mesma forma, como se sabe desde as primeiras investigações de Selye. Estas intoxicações crônicas, com o tempo deterioram o sistema imunológico, e se não param, o colapsam causando a AIDS: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

A medicina só conhece as intoxicações agudas por álcool, tálio, fosforados orgânicos, mas não sabe nada acerca das intoxicações crônicas causadas pela exposição múltipla, repetida e crônica a agentes estressantes imunológicos.

Horizonte: O Sr. faz parte de um grupo encabeçado principalmente pelo Dr. Peter Duesberg, grupo este considerado “dissidente” da teoria vigente de que a AIDS é causada pelo vírus HIV. Quantos cientistas “dissidentes” há hoje no mundo? E, se o vírus HIV não é o causador da AIDS, o que é exatamente o quadro clínico identificado pela teoria oficial como sendo AIDS?

Dr. Giraldo: “Rethinking AIDS” conta com cerca de cinco mil médicos, cientistas, outros profissionais, alguns Prêmios Nobel e ativistas. Há cerca de 400 sites de Internet com nossa informação. É o único lugar onde a “oficialidade” não tem conseguido censurar o debate científico.

Por cerca de 25 anos a Organização Mundial da Saúde e a ONUAIDS, seguindo as diretrizes do Ministério de Saúde dos EUA, tem estado disseminando por todo o planeta que HIV = AIDS e que AIDS = HIV. E as pessoas, ao ler nossos argumentos de que não existe o HIV, ou que o fenômeno conhecido como HIV, não é um vírus real, elas pensam (equivocadamente) que tampouco existe AIDS.

Claro que existe AIDS, mas não é causada por HIV!! Esta é uma síndrome tóxica e nutricional causada pelo alarmante incremento mundial de agentes estressantes imunológicos. O fato de que exista AIDS em todas as classes sociais é um indicativo de que nossa espécie está em perigo. Crer que o HIV é sua causa, não permite que se tomem as medidas necessárias e possíveis para o bem da espécie humana. A simples crença absurda no HIV como a causa da AIDS, está pondo em grande perigo a sobrevivência de nossa espécie.

AIDS é o maior estado de deterioração que o ser humano pode tolerar. Não pode existir algo pior que a AIDS. Na AIDS não só o sistema imunológico está deteriorado, mas todos os demais sistemas estão também intoxicados.

A exposição múltipla, repetida e crônica a agentes estressantes imunológicos vai deteriorando o sistema imunológico e chega um momento em que ele se colapsa e começam na pessoa, ao mesmo tiempo, as manifestações clínicas de infecções oportunistas (pela deterioração da parte de defesa do sistema imunológico), tumores oportunistas (pela deterioração da parte de vigilância do sistema imunológico) e múltiplas doenças metabólicas como perda de peso, queda de cabelo, diarréia e demência (pela deterioração da parte de equilíbrio homeostático do sistema imunológico).

Horizonte: Quantas pessoas supostamente se infectaram com o HIV até hoje? Dessas, quantas morreram por imunodeficiência? O número oficial de infectados e mesmo de mortos é suficiente para justificar a teoria corrente de que a AIDS é causada por vírus e, portanto, tende a se disseminar rapidamente?

Dr. Giraldo: Nem uma só pessoa se infectou com HIV até hoje! Ninguém pode infectar-se com um vírus que não existe!!! Ser soropositivo (reagir positivamente nas provas de Elisa e de Western blot), não significa estar infectado, senão estar um pouco mais intoxicado que os que ainda continuam reagindo negativamente.

Para os “oficialistas” (aqueles que creem erroneamente que o HIV é a causa da AIDS) ser soropositivo indica estar infectado. Entretanto, as mesmas cifras oficiais de soropositividade não podem explicar-se por transmissão sexual, nem sangüínea, nem da mãe ao filho. Nos países da África subsaariana existe uma soropositividade de 15 a 40%; e ali mais de 60% dos casos é em mulheres. No continente americano, o Haiti é o país com uma soropositividade maior: 5,6%, mas nunca tão alta como a soropositividade da África. Por que??? Os EUA têm uma soropositividade de 0,7% e ali mais de 90% é em homens homossexuais. Por que??? E Espanha, México, Venezuela, Colômbia e Brasil têm uma positividade de apenas 0,6%. Se a soropositividade é devida a transmissão sexual, nos pareceria, pois, como se na África se vivesse em um permanente ato sexual e os espanhóis, mexicanos, venezuelanos, colombianos e brasileiros não tivessem muita vida sexual. Estas diferenças só podem ser explicadas por uma diferença na qualidade e na quantidade de exposição a agentes estressantes imunológicos. A não ser que se nos demonstre que existe um vírus que sabe quem é pobre e mulher para atacá-la na África e quem é gay e rico para atacá-lo nos EUA e na Europa. Assim não se comporta nenhum vírus conhecido!!!!!

Horizonte: Segundo o Sr. e outros cientistas dissidentes a AIDS não é transmitida sexualmente. Que impacto essa afirmação tem causado junto aos serviços governamentais de saúde e às ONGs que defendem os direitos dos soropositivos, dos homossexuais, etc.?

Dr. Giraldo: Em 08 de Dezembro de 2003, em um debate internacional sobre este tema no Parlamento Europeu em Bruxelas, os representantes da OMS e da ONUAIDS, falavam da “transmissão da AIDS” como se isto fosse um fato demonstrado cientificamente. Então lhes perguntamos onde estava a publicação das investigações que se deveria ter feito para assegurar que a AIDS se transmitia sexualmente, pelo sangue ou da mãe ao filho. E eles responderam que essa pesquisa não se requeria, posto que todo mundo sabe já que se transmite. As pessoas do mundo não sabem ainda que isso da transmissão da AIDS é um rumor que saiu em 1981 do Ministério de Saúde dos EUA (CDC) e que com o tempo se converteu em mito ou verdade absoluta. A transmissão da AIDS nunca foi demonstrada cientificamente!!!!!

As pessoas e instituições que defendem a transmissão, que têm promovido a promiscuidade sexual com isso de “use camisinha e faça o que quiser”, que intoxicam a milhares nos EUA e Europa ao fornecer-lhes seringas “sem HIV” para que se injetem com drogas que destróem o sistema imunológico e causam a AIDS, não aceitam nossos pontos de vista. Ademais, muitas dessas pessoas e instituições vivem do HIV (ganham um soldo) por fazer isso e por isso se opõem e continuarão se opondo com todas as suas forças a uma mudança para a verdade. Não importando-lhes quantos milhares morram de AIDS.

Houve até agora 25 milhões de mortes por AIDS. Hitler matou entre 5 e 8 milhões de pessoas, mas o da AIDS é o pior genocídio da historia humana e agora se faz em nome da ciência. Errados estavam os judeus que ajudaram a embarcar a outros judeus nos trens pensando que iriam à “terra prometida” quando, na realidade, terminaram nos fornos dos campos de concentração. Igualmente equivocadas estão todas essas pessoas que defendem e fazem propaganda das idéias oficiais do HIV/AIDS. Quantos africanos e quantos homens gays estão ajudando “inocentemente” a matar a seus irmãos. Que horror!!

Horizonte: Qual é a confiabilidade dos testes atualmente existentes para a detecção do HIV: Elisa, Western Blot e Carga Viral? O quê eles realmente detectam?

Dr. Giraldo: As provas de Elisa e de Western blot detectam anticorpos contra o que supostamente são proteínas do HIV. A prova de PCR ou de Carga Viral supostamente faz cópias de fragmentos do ácido nucleico do HIV. Mas como o HIV jamais foi isolado e purificado, como ocorreu com todos os vírus verdadeiros, essas proteínas e esses fragmentos de ácido nucleico têm que ter outra origem. Jamais essas proteínas e esses fragmentos de ácido nucleico foram extraídos diretamente do interior de uma partícula viral de HIV. Elas foram encontradas em cultivos e se supôs que correspondiam a um vírus desintegrado. Mas, onde está o vírus integrado, as partículas virais íntegras, sem romper? Não existe um só tubo de laboratório com partículas virais de HIV, simplesmente porque HIV não é um vírus.

Essas proteínas e esses fragmentos de ácido nucleico são liberados por células de cultivos estressados com químicos ou são liberados ao sangue pelas pessoas expostas, geralmente por longos períodos de tempo, a uma variedade de agentes estressantes imunológicos. Os anticorpos que detectamos em Elisa e em Western blot são anticorpos anti essas proteínas liberadas durante o estresse crônico, e as cópias de ácido nucléico detectadas na arbitrariamente chamada “Carga Viral” são cópias de fragmentos de ácido nucleico liberados pelas pessoas submetidas a uma variedade de estresse. O que essas provas estão detectando é o nível de estresse crônico da pessoa, o grau de intoxicação de seus tecidos. Durante as respostas ao estresse de toda a vida, as pessoas liberam radicais livres do tipo dos agentes oxidantes e por isso as pessoas soropositivas e aquelas com AIDS, têm grandes níveis de estresse oxidativo e seus elementos antioxidantes se encontram diminuídos em seu sangue. Têm baixos niveis de vitaminas C, E, A, betacarotenos, zinco, selênio, magnésio, manganês.

Indiretamente, o que detectam as mal-chamadas “provas de HIV” são níveis de oxidação e de intoxicação da pessoa.

Horizonte: Em quais países a teoria alternativa de que a AIDS não é causada por um vírus, muito menos pelo HIV, tem encontrado menos resistência?

Dr. Giraldo: Em nenhum! Temos tido resistência em todos os países do mundo, mas nossas idéias são aceitas mais facilmente nos países subdesenvolvidos e mais concretamente nos países latino-americanos tais como México, Colômbia, Peru, Bolívia, Argentina, Venezuela e Brasil. Nestes países nossos argumentos científicos são cada vez mais aceitos.

Horizonte: No dia 31 de agosto deste ano a “Iniciativa Sul-Africana da Vacina Contra AIDS” anunciou ter obtido bons resultados com uma vacina testada em 480 pessoas não-infectadas, a maioria das quais teve resposta imunológica positiva. A organização teria afirmado, entre outras coisas, que um sistema imunológico saudável contribui para evitar a contaminação, enquanto pessoas com tal sistema comprometido têm mais chances de contraírem o HIV. Isso reforça qual das teorias, a vigente ou a alternativa? Afinal, todos nos perguntamos: por que até hoje não há uma cura para a AIDS?

Dr. Giraldo: As vacinas da virologia clássica se aplicam para que a pessoa forme anticorpos contra, por exemplo, o vírus da poliomielite, do sarampo, da caxumba, da varíola, da hepatite B. Mas como será possível criar uma vacina contra um vírus que jamais se demonstrou sua existência real?

Ademais, as pessoas “soropositivas” já têm anticorpos contra o que elas crêem que é HIV. Elas estariam vacinadas em forma natural... Ou será que o que se pretende é criar uma vacina que converta os soronegativos em soropositivos, para logo as indústrias farmacêuticas estarem “em festa” vendendo anti-retrovirais para esses “infectados”? Nada, mas absolutamente nada da “ciência do HIV” tem lógica. Tudo isso não é mais que ficção científica...

Horizonte: Considerando que a teoria dos dissidentes seja a verdadeira, surge a pergunta óbvia: por que se teria cometido um erro tão grande na determinação do agente causador da AIDS?

Dr. Giraldo: A resposta a esta pergunta é um livro que estou terminando de escrever e que espero que esteja publicado no começo de 2008. Cinco fatos ajudaram a cometer este erro: (1) Preconceito microbiológico – devido ao qual todas as epidemias são causadas por micróbios. (2) Homofobia – como os primeiros casos de AIDS ocurreram na comunidade gay dos EUA, seus cientistas decidiram arbitrariamente, sem fazer nenhuma pesquisa, que se transmitia sexualmente e, mais concretamente, por relações anais. (3) Racismo – devido ao qual os investigadores brancos decidiram que a origem da AIDS está na África negra. (4) Corrupção social – recordar que a visão da AIDS como doença viral nasce de um crime (roubo do “HIV”) por parte do Dr. Robert Gallo, diretor do laboratório de virologia do Instituto Nacional de Câncer do governo dos EUA, que roubou do Dr. Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris. E (5) pela Crise do estabelecimento científico – não se controlam os experimentos, se descobrem vírus em coletivas de imprensa, como ocurreu com o HIV em 23 de abril de 1984, quando, às 2 horas da tarde, na cidade de Washington, Robert Gallo e a ministra de saúde de Ronald Reagan, fizeram uma coletiva de imprensa na qual se informou que “investigadores do governo dos EUA haviam descoberto o vírus da AIDS”.

Horizonte: Há alternativas para tratar a imunodeficiência chamada AIDS, uma vez que não seja viral e nem se deva ministrar as drogas conhecidas (AZT, etc.) aos soropostivos, por serem muito tóxicas, podendo matar o paciente a médio prazo? Quais seriam estas alternativas?

Dr. Giraldo: As chamadas doenças incuráveis, o são porque nenhuma doença se pode curar com métodos externos. O que faz a medicina integral é que, por meio de terapias naturais, a pessoa consiga despertar sua medicina interior e sua farmácia interior, aquelas com que somos criados e que trazemos conosco mesmo desde o nascimento.

Toda a doença para que exista deve ser permitida por nossa consciência e, igualmente, para que termine deve partir do reconhecimento de nossa própria psicopatologia: ciúme, raiva, medo, ódio, rancor, etc.

Em geral, as pessoas soropositivas têm alguns denominadores comuns: depressivos, paranóicos, arrogantes, autodestrutivos... Para curar-se de AIDS ou evitar que esta começe, o soropositivo deve começar com aceitar, ver ou perceber sua psicopatologia.

Horizonte: Entre as alternativas preventivas e mesmo de tratamento para pessoas com o “quadro” chamado AIDS, qual o papel daquelas consideradas complementares ou holísticas, como fitoterapia, florais, reiki, etc.?

Dr. Giraldo: Já expliquei isso na pergunta anterior: Elas não curam, só melhoram desequilíbrios dos processos fisiopatológicos e ajudam a acordar (despertar) nosso médico interior.

Devemos ter medo daqueles terapeutas alternativos, chame-se acupunturista, ou homeopata, ou bioenergético, etc, que crêm ter a cura da AIDS. Esta está dentro de cada pessoa!

Horizonte: Agradecemos muito a gentileza em conceder-nos esta entrevista. Gostaríamos que, em suas palavras finais, o Sr. sugerisse a nossos leitores como estes podem evitar as imunodeficiências em geral, sejam elas virais ou não.

Dr. Giraldo: Em meu site da Internet www.robertogiraldo.com há muitos artigos com argumentos científicos que nos ajudam a entender isto melhor. Sugiro começar com “Tratamento e prevenção da AIDS: guia de princípios básicos para uma alternativa eficiente, fácil e de baixo custo” e “Terapia nutricional para o tratamento e a prevenção da AIDS: bases científicas”.

 

Entrevista: Monja Coen - "A vida em harmonia com a própria vida"

Entrevista concedida a Paulo Stekel


[foto de Verônica Campos]

Temos um particular apreço por Monja Coen Sensei. A conhecemos pessoalmente em Brasília, no mesmo dia em que entrevistamos para uma produtora de vídeo o rabino Henry Sobel, em 2005. O mau humor evidente do rabino naquele dia, que nos concedeu apenas três minutos cronometrados de uma entrevista com pouca boa vontade, foi recompensado pela serenidade e “objetividade zen” da Monja Coen, exemplo de vida religiosa e de ser humano. Não que, sendo também humana, ela não tenha momentos de mau humor. Mas o mau humor zen... sabem como é!

Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo, com sede no Japão, e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001. Foi ordenada monja em 1983, quando foi para o Japão, lá permanecendo por 12 anos, sendo 8 dos primeiros anos no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo.

Retornou ao Brasil em 1995, e liderou as atividades no Templo Busshinji (São Paulo), sede da tradição Soto Shu para a América do Sul, durante seis anos. Foi, em 1997, a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano.
Participa de encontros educacionais, interreligiosos e promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não-violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos.

Horizonte: O que é ser "Zen"? Depende de uma prática budista ou é mais uma atitude de vida?

Monja Coen: Zen Budismo é uma das tradições religiosas budistas. É a prática da vida em harmonia com a própria vida.

Horizonte: É apenas impressão ou muitos praticantes budistas brasileiros - independente da escola - encaram a prática muitas vezes como um "modismo", uma simples "reunião social" ou algo para motivo de status? Ocorre o mesmo no Oriente? Isso contribui de alguma forma para a divulgação do Budismo?

Monja Coen: Há muitas pessoas à procura de alguma coisa que não sabem exatamente o que é. Quem se aproxima é porque tem algum relacionamento. O Zen Budismo, o Budismo em geral, é muito pequeno no Brasil. Já no Oriente é a religião tradicional. O que convida brasileiros a se interessarem? A procura de si mesmos, a procura de um significado para vida-morte, a procura da verdade e do caminho.  Nem sempre as pessoas têm clareza sobre isso.

Horizonte: Atualmente o Budismo tem se aproxi-mado do Cristianismo através do diálogo inter-religioso. Que ações a comunidade budista brasileira tem realizado socialmente em prol dos menos afor-tunados? Perguntamos isso porque muitas pessoas nos relatam a impressão de que, pelo menos no Brasil, o Budismo tem sido uma "prática de elite". Isso reflete a realidade ou é uma falsa impressão?

Monja Coen: O Budismo é muito pequenino no Brasil. As tradições japonesas aqui no Brasil mantêm creches, escolas, centros assistenciais, hospitais, asilos para idosos - alguns em parceria com grupos cristãos, outros indepen-dentes. Nossa comunidade faz trabalho voluntário no Hospital Emílio Ribas, atendendo pacientes e cuidadores e também na Casa de Acolhida de Pinheiros, com crianças e adolescentes de rua. Definitivamente muito pouco, mas é o que podemos fazer agora.  Há muitas formas de trabalho social e uma delas é a de transformar as mentes discriminadoras e preconceituosas de elites que mantêm as diferenças sociais. Mais do que assistencialismo temos de transformar culturas e sociedades. Se prestar atenção, note que o Cristianismo chegou ao Brasil através dos imigrantes portugueses - uma elite na época.

Horizonte: A sra. já foi casada no Japão. Como foi isso? Por que algumas escolas budistas japonesas permitem o casamento a monges? Isso foi produto do reconhecimento de uma questão natural, como afirmam os monges da Terra Pura, já que, no passado, a maioria dos monges tinham relacionamentos às escondidas?

Monja Coen: A grande maioria dos monges são casados no Japão. Desde cerca de uns duzentos anos, quando em comum acordo com as lideranças políticas, as lideranças religiosas optaram por permitir o casamento dos monásticos. Foram várias as causas, uma delas a que você mencionou. Mas não foi a única.

Horizonte: Mesmo no Budismo há preconceito contra a mulher, especialmente quanto a esta ocupar os postos mais elevados na hierarquia? Essa postura não contradiz os ensinamentos do Buda?

Monja Coen: Sim. Qualquer discriminação ou precon-ceito é contrária aos ensinamentos de Buda. Entretanto, o próprio Senhor Buda discriminou contra as mulheres e fez oito regras especiais para que se tornassem monjas. Hoje, quando estudamos em profundidade o assunto, temos de verificar como era a sociedade local na época e percebemos o avanço de Xaquiamuni Buda ao permitir, mesmo que com regras especiais, que as mulheres se tornassem monásticas. Assim, podemos perceber que mesmo os seres mais elevados estão sujeitos à Lei da Causalidade e envolvidos pelos valores locais, regionais e culturais. A sabedoria con-siste em percebê-los e transformá-los. Para isso vivemos.

Horizonte: Seu trabalho atualmente é praticamente independente, correto? O lado bom disso não seria incentivar trabalhos mais independentes, uma forma de adaptação ao conflito e de assegurar que os ensinamentos sejam transmitidos sem prejuízo?

Monja Coen: Sem dúvida aprendemos com as várias experiências da vida. Devo admitir que tem sido muito estimulante trabalhar de maneira mais livre e independente.

Horizonte: O Budismo no Ocidente tem cerca de um século. Algumas adaptações já são sentidas e se fala num "budismo ocidental". Isso ocorreu no Tibete, que se adaptou à forma indiana de prática e a mesclou com sua religião xamânica original (o Bön). O "Budismo Ocidental" será uma mescla com o Cristianismo?

Monja Coen: Não sei. Espero que não. Espero que possamos manter as tradições separadas e nos respeitar mutuamente. O Budismo Brasileiro será mais arroz com feijão do que sopa de misô. Mas ainda faltam muitos e muitos anos para falarmos em Budismo brasileiro. Nos Estados Unidos já se fala em Budismo Americano, com características definitivamente diferentes das orientais. Mas aqui no Brasil ainda engatinhamos. O que acontecerá?

Horizonte: A sra. vê a Internet como um dos meios adequados para divulgação do Budismo neste mundo globalizado? Isso pode contribuir para uma união maior entre as diversas escolas budistas?

Monja Coen: Sim.

Horizonte: A sra. pertence a alguns movimentos que buscam a união entre as religiões. Claro que uma "união doutrinária" é difícil, já que cada uma tem uma estrutura própria. Mas a união de propósitos - o bem-estar da humanidade e do planeta como um todo - parece viável. Como a sra. vê essa tendência?

Monja Coen: A Iniciativa das Religiões Unidas tem o propósito de criar culturas de paz, justiça e cura da Terra. Não é uma proposta fácil de se realizar. Mas acredito que a transformação de uma sociedade violenta e corrupta em uma sociedade mais justa e não violenta depende também do respeito e compreensão entre as religiões do mundo.

Horizonte: Agradecemos muito sua gentileza em conceder esta entrevista a "Horizonte -Leitura Holística". Gostaríamos que deixasse uma mensagem para nossos leitores, se possível sobre o que cada um, independente da prática religiosa, pode fazer para melhorar o planeta, as condições ambientais, e diminuir a violência, o materialismo e o sofrimento geral.

Monja Coen: Perceber que somos a vida da Terra. Não viemos nem iremos a nenhum outro lugar. Deixamos marcas com nossa existência. Visíveis e invisíveis. Que possamos deixar marcas de amor e ternura, compaixão e sabedoria para que todos os seres se beneficiem e todos possam viver em harmonia e fartura. É cuidando que somos cuidadas. É servindo que somos servidas. É fazendo o bem que nos beneficiamos. Interligados, interconectados com toda a vida do universo. Tudo sempre retorna a nós mesmos. Somos a vida. Mãos em prece. Monja Coen.

 

Fundamentalismo X Universalismo – Rumos do Terceiro Milênio

Paulo Stekel



Religião X Espiritualidade

Nunca assuntos como religião e espiritualidade foram tão tratados e retratados na grande mídia como atualmente. Não se trata mais de pauta exclusiva de mídias religiosas. Contudo, essa maior visibilidade não tem, necessariamente, contribuído para desfazer velhos equívocos e preconceitos relativos ao que seja a espiritualidade.

Primeiramente, “religião” e “espiritualidade” não são a mesma coisa. Há um consenso quase geral de que “religião” se refere a uma prática coletiva, baseada numa crença institucionalizada, enquanto “espiritualidade” se refere aos sentimentos e às abordagens individuais com relação ao transcendente e subjetivo, de certa forma “independentes” do institucionalizado. A religião seria como “(co)ordenamos” o transcendente numa “norma” coletiva, para que nos entendamos uns aos outros como fiéis e nos identifiquemos como grupo; a espiritualidade seria como “sentimos” o transcendente em nosso íntimo, como o vivenciamos, independente de qualquer norma coletiva fundamentalmente estabelecida. A experiência mística tem a ver, então, mais com espiritualidade do que com religião, por ser mais aberta e destituída de “norma”, sem a qual a religião mesma não se mantém organizada. Parece o velho (e bíblico) embate entre o sacerdote (religião – norma) e o profeta ou místico (espiritualidade – espontânea, transcendental, ligada a Estados Ampliados de Consciência).

No campo científico podemos dizer que o que concerne à religião foi absorvido pela Religião Comparada e pela História das Religiões. O que concerne à espiritualidade foi absorvido pela Psicologia, sobretudo a Transpessoal. Então, a religião é um campo mais objetivo (fatos), enquanto a espiritualidade é um campo puramente subjetivo (estados de consciência). Podemos vislumbrar uma complementaridade aí. Mas há, também, pontos de conflito. Da religião nasce o conceito de “fundamentalismo”; da espiritualidade nasce o conceito de “universalismo”. Para qual dos dois caminha a visão religiosa/espiritual da humanidade?

Situando o “Fundamentalismo Religioso”

O termo “fundamentalismo” se refe a movimentos (religiosos, ideológicos, políticos, econômicos, étnicos, etc.) cujos adeptos aderem de modo muito estrito aos princípios fundamentais. De modo pejorativo, o termo muitas vezes se refere a grupos religiosos intransigentes quanto aos princípios de suas fés ou a movimentos étnicos extremistas com motivações ou inspirações apenas nominalmente religiosas.

Em resumo, o fundamentalista religioso acredita em seus dogmas (a norma) como verdade absoluta (algo subjetivo, terreno do Transcendental, não da norma!), indiscutível, recusando-se a qualquer diálogo no qual tenha que ceder. Desejando voltar ao que considera “princípios fundamentais” ou vigentes na fundação de sua religião, acaba por tornar-se um dissidente do grupo maior, resistindo a identificar-se com este, por julgar ter o mesmo se desviado da “fé original” por quaisquer modernizações, concessões, abolição de normas meramente culturais ou adequações ritualísticas simplificantes mais recentes. Ou seja, o fundamentalismo é claramente anti-modernista, dogmatista e fanático! Aliás, “fanatismo”, “intolerância” e “extremismo” são termos geralmente associados ao fundamentalismo religioso, e parece que lhe caem bem, uma vez que, enquanto o mundo caminha para o diálogo inter-religioso, o ecumenismo, a liberdade de expressão religiosa e a transreligiosidade, os fundamentalistas se apegam a questões menores com veemente intransigência e ignorância, crendo em princípios religiosos “infalíveis” e historicamente precisos.
O fundamentalismo religioso sempre existiu em praticamente todas as religiões institucionalizadas – ele é a “própria força de coerção da norma”, força por vezes violenta ao extremo. Mas, a nosso ver, a norma não é a verdadeira “religiosidade”, termo por vezes utilizado como sinônimo de “espiritualidade”. A verdadeira vivência religiosa/espiritual é interna e não depende de uma relação normatizada de grupo, ainda que tal relação possa ser útil para o processo subjetivo.

Por vezes os fundamentalistas religiosos chegam a constituir milícias para lutar “em nome da fé”, ainda que haja outros interesses implícitos nesta expressão e a “fé” acabe sendo responsabilizada por sua insanidade. Há correntes fundamentalistas entre os adeptos do Cristianismo (lembre-se das Cruzadas), do Islamismo (Al-Qaeda e congêneres), do Judaísmo (os judeus haredi, ultra-ortodoxos representados pelo grupo Neturei Karta), do Protestantismo (especialmente nos EUA), etc.

Os próprios fundamentalistas não gostam do termo. Nem mesmo os fundamentalistas cristãos, que o criaram. A idéia de fundamentalismo surgiu entre os protestantes dos EUA, no início do Século XX, com a publicação, em Los Angeles, do livro “Os Fundamentos”, patrocinado por dois empresários (Lyman e Milton Stewart) e escrito por eruditos evangélicos da época. No começo, os fundamentalistas cristãos se chamavam a si mesmos desta forma, e com orgulho. Mas, quando, a partir de 1980, a mídia começou a descrever facções islâmicas como o Hezbollah como sendo fundamentalistas (conflitos do Líbano) e o termo ganhou conotação negativa, os fundamentalistas cristãos mudaram de abordagem. Passaram a considerar apenas o “seu” fundamentalismo como positivo, sendo os demais, negativos.

Nos movimentos islâmicos, não é diferente. Mesmo os grupos que aceitam ser considerados fundamentalistas repudiam o ser rotulados junto com facções que usam seqüestro, assassinato e atos terroristas para alcançar seus objetivos. Isso deveria ser suficiente para nos mostrar que fundamentalismo não tem, necessariamente, nada a ver com terrorismo. Contudo, isso não está claro para certos grupos de poder... A paranóia da equivocada associação “necessária” entre fundamentalismo e terrorismo está aí e tem acarretado sérias conseqüências para todos nós.

O Livro de Estilos da Associated Press recomenda que o termo “fundamentalista” não seja usado para qualquer grupo que não aplica o termo a si mesmo. Assim, os “fundamentalistas cristãos” poderiam ser referidos desta forma, mas os grupos islâmicos, não. Mas a editoria da maior parte das mídias não segue esta recomendação, e o termo vai ganhando conotação mais ampla e diversa da original (resignificação), o que, aliás, é um fenômeno lingüístico natural e bem conhecido dos estudiosos. No Manual de Redação da Folha de São Paulo há a ressalva: “ser fundamentalista não implica ter atitudes extremas. Quem o faz é denominado extremista e não fundamentalista.”

No Cristianismo, o fundamentalismo foi uma reação ao modernismo que se espalhava nas igrejas dos EUA no início do Século XX. Sua declaração de fé simplificada inclui doutrinas consideradas fundamentais do Evangelho (daí o nome “fundamentalismo”) como: a inerrância, infalibilidade, suficiência, inspiração e preservação da Bíblia; nascimento virginal, divindade, expiação vicária, ressurrreição corpórea e segunda vinda de Jesus Cristo; premilenismo; historicidade dos milagres; separação dos apóstatas e dos ecumênicos (?).

Os fundamentalistas islâmicos se baseiam numa espécie de luta ideológico-religiosa (não necessariamente com violência) contra a cultura ocidental judaico-cristã, que julgam suprimir o Islam autêntico que, para eles, seria a submissão ao modo de vida prescrito na determinação divina contida na Charia (a lei islâmica).

No Judaísmo os fundamentalistas estão representados pelos judeus Haredi, que se julgam os “verdadeiros judeus da Torah”. Eles se alimentam, se vestem e vivem estritamente no modo religioso que consideram fundamental. O grupo Neturei Karta é um bom exemplo.

Há ainda um crescente fundamentalismo hinduísta, no qual as mulheres tem sido as maiores vítimas – registre-se o dowry death (morte por causa do dote) e a vida miserável e sem direitos que as mulheres de religião hinduísta vivem.

Os grupos fundamentalistas em geral reforçam a existência de um agudo limite entre uma “visão sagrada” da vida e a do “mundo secular”, de natureza profana. Há uma razão histórica para isso: na Antigüidade, e ainda em sociedades tribais, não há separação entre a vida comum e a vida sagrada. Esse fenômeno de separação entre sagrado e profano é relativamente moderno, pós-Revolução Francesa. Mesmo em países muito desenvolvidos o laicismo encontra resistência em alguns setores da sociedade, devido a questões religiosas consideradas “intocáveis” (fundamentais!). Antes do nascimento do laicismo, quando o sagrado abarcada toda a vida humana em sociedade, a condição laica era o conceito estranho e incômodo. Atualmente, as últimas resistências da antiga norma é que se tornaram o fundamentalismo tão comentado.

Universalismo: o outro extremo?

A idéia de universalidade tem mais a ver com livre expressão religiosa e espiritualidade do que com norma ou dogma religioso. Neste sentido podemos falar de uma força antagônica ao fundamentalismo, de caráter mundial e que se expande a cada dia, à qual comumente se chama “universalismo”. Suas características são diametralmente opostas às do fundamentalismo religioso.

Universalismo é um termo com várias acepções, dependendo da corrente de pensamento. Na verdade, referimo-nos aqui ao que também se conhece no Brasil por “Espiritualismo Universalista”. Trata-se de uma corrente de pensamento não-religiosa (não enfatiza a “norma”, o dogma) e anti-materialista, que combina espiritualidade e universalismo. Tem relações com o espiritualismo laico e com o ecumenismo, de onde parece partir em sua origem.

A ideologia do Espiritualismo Universalista, daqui por diante referido apenas como “Universalismo”, se baseia em teorias orientais como o carma e a reencarnação, e na idéia de que o indivíduo, ao invés de aderir com exclusividade a qualquer credo, sistema, doutrina, fé, religião, instituição, mestre ou movimento, deve fazer sua síntese pessoal de tudo o que se relaciona à espiritualidade – uma síntese de Ciência, Filosofia e Religião, no entender da mística russa Helena Blavatsky (1831-1891), fundadora da Sociedade Teosófica, cujas idéias parecem ser a origem do universalismo.

Os princípios do Universalismo são o ecumenismo, o pluralismo, a visão holística, a multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade, a interdisciplinaridade e uma espécie de cidadania planetária e cósmica. Como se pode ver, o Universalismo flerta com a Psicologia Transpessoal, que se encarrega de fazer o seu “lobby científico”, ou seja, tenta fazer com que a Ciência acadêmica veja a espiritualidade como assunto sério e digno de ser estudado em moldes científicos.

Como se pode perceber, opondo-se a posturas sectárias, exclusivistas, fanáticas e maniqueístas e valorizando a liberdade de expressão, o discernimento e a dialética, o Universalismo se opõe claramente a qualquer visão fundamentalista que pregue uma verdade absoluta dentro de qualquer doutrina particular. Ninguém detém a posse de qualquer verdade absoluta ou relativa. O que existe é o autogoverno do indivíduo em consonância com a ética universal (o “anarquismo cósmico” de Huberto Rohden) buscando o “seu” caminho próprio, sem o comando de terceiros ou de instituições sacerdotais.

Entre os pressupostos mais importantes do Universalismo, temos: as religiões são criações humanas e não imposições divinas; nenhuma corrente de pensamento pode monopolizar as verdades relativas ou absolutas; há muitos caminhos para se atingir a realização espiritual, dentro e fora das religiões (religião E espiritualidade!); a ética (amor incondicional, fraternidade) é mais importante que a fé escolhida; não há alguém que possa ser considerado o “melhor” guru ou mestre espiritual da humanidade; tudo o que contribui para o esclarecimento espiritual e da consciência é válido e relevante, merecendo respeito e avaliação sem preconceito.

No Brasil, há muitos pesquisadores e religiosos considerados universalistas: Huberto Rohden (filósofo de Santa Catarina, ideólogo da Filosofia Univérsica), Osvaldo Polidoro (teólogo paulista, propositor do Divinismo), Hercílio Maes (advogado, autor de obras psicografadas atribuídas ao espírito de Ramatis, que abriram novos horizontes ao Espiritismo no Brasil), Alziro Zarur (radialista, fundador da LBV – Legião da Boa Vontade), José Hermógenes (praticante de Yoga bastante inserido em levar espiritualidade a setores esquecidos da sociedade), Waldo Vieira (médico e dentista, criador da Conscienciologia e especialista em projeção astral), entre outros.

Fora do Brasil há inúmeros representantes do Universalismo, alguns apenas de modo relativo e outros totalmente imersos nele: Pietro Ubaldi (espiritualista italiano), Ralph Waldo Emerson (filósofo dos EUA), Carl Gustav Jung (psiquiatra suíço), Ken Wilber (psicólogo transpessoal dos EUA), Khalil Gibran (poeta libanês-americano), além de três gurus indianos muito apreciados no Ocidente – Swami Vivekananda, Paramahansa Yogananda e Ramakrishna. A Sociedade Teosófica, por sua proposta, bem como os principais autores ligados a ela desde sua fundação (1875), também pode ser considerada como pertencendo ao movimento universalista.

No Brasil, os principais adeptos do Universalismo são pessoas que militam em meio religioso reencarnacionista e têm formação cultural e ideológica influenciada por correntes como espiritismo, hinduísmo, budismo, umbanda, teosofia, conscienciologia e esoterismo. Aliás, apenas para constar, a única religião genuinamente brasileira, a Umbanda, consegue ter em sua doutrina e ritualística elementos provenientes de praticamente todas estas correntes citadas.

Visões em rota de colisão?

Não resta dúvida, portanto, da visão antagônica existente entre fundamentalistas e universalistas. Os fundamentalistas representam o último suspiro da “religião” (o processo coletivo) como instituição desatualizada, preconceituosa, radical, intolerante e opressora; os universalistas representam o primeiro alento da “espiritualidade” (o processo individual) como uma proposta emergente de natureza inserida socialmente, aberta ao diálogo, tolerante e libertadora. Antevemos um embate ideológico entre as duas correntes para muito breve. Não se trata de profecia, mas de lógica. Se ambas as visões continuarem a se expandir, haverá um choque em pouco tempo.

Algumas práticas religiosas parecem favorecer a expansão de visões universalistas, enquanto outras as repudiam e chegam até a fomentar visões fundamentalistas. As correntes citadas anteriormente (espiritismo, umbanda, teosofia, etc.), além da Fé Baha'í, Seicho-No-Ie e práticas similares, parecem facilitar expressões universalistas; o judaísmo e o cristianismo católico parecem ser neutros com relação a tais expressões; mas religiões, como o protestantismo evangélico (neo-pentecostal), o islamismo, o zoroastrismo e correntes ortodoxas do hinduísmo, que nem sequer permitem conversões a outras religiões sem diversos tipos de obstáculos e “penalidades” (“divinas” e humanas), fomentam visões fundamentalistas com muita freqüência.

À medida que o mundo evolui, que a tecnologia inova, que a sociedade se modifica, que as questões sociais, ambientais e de direitos humanos se tornam a ordem do dia, as visões universalistas, destituídas de preconceitos, tendem a ser bem aceitas por boa parcela da humanidade, pois seus meios são o amor incondicional e a não-violência. Mas visões fundamentalistas, geralmente preconceituosas, intransigentes, anti-tecnológicas, pouco interessadas em macro-mudanças sociais e muitas vezes responsáveis por severas privações de direitos humanos (de mulheres, homossexuais, doentes mentais, minorias étnicas e religiosas), tendem a causar tumulto e violência no meio social, pois suas armas são a coerção e o amedrontamento.

Quando visões fundamentalistas são as mais influentes numa nação, como ocorre em algumas repúblicas islâmicas e em certas regiões indianas administradas por setores hinduístas ortodoxos, os violentos atos coercitivos de tais visões são minimizados, apoiados e até patrocinados pelo governo! Os primeiros a sofrer, são as mulheres, seguindo-se os homossexuais e os membros de outras religiões. O ataque a qualquer religião a partir do Estado só serve para fazer despontar visões fundamentalistas muito perigosas. Os fundamentalistas, por outro lado, dizem que a visão universalista desagrega a religião. Isso não é verdade. A religião tem desagregado a si mesma desde muito tempo, devido a seu radicalismo e negação em seguir o rumo dos tempos, que é o rumo ditado pela consciência coletiva humana!

Num mundo universalista cada indivíduo teria a plena liberdade de seguir qualquer religião que desejasse, ou nenhuma. E, num mundo fundamentalista? Se fosse um mundo “plurifundamentalista” (com várias visões fundamentalistas, em seus respectivos nichos), seria uma batalha sem fim. Se fosse “monofundamentalista” (apenas uma visão), estaríamos irremediavelmente perdidos! Apenas uma visão universalista pode garantir a liberdade humana para o Terceiro Milênio. Não se trata de “desagregar” a religião, mas, pelo contrário, recolocá-la em seu devido lugar na alma humana, como o veículo de “reintegração”, de “religação” do Ser com sua Consciência Universal. Esta tendência já é marcante, pelo menos no continente americano inteiro e partes da Europa, e não há como voltar atrás. Na África e Ásia há mais resistência, pela influência de religiões tribais, de religiões em expansão (como o Islamismo) e de visões culturais equivocadas milenares.

Ironicamente, a Ásia proveu o Ocidente do material que serviu de base ao Universalismo (carma, reencarnação, etc.); na verdade, as religiões asiáticas tiveram participação indireta, por influência mesmo. Contudo, em seu meio, tais religiões continuaram enclausuradas em seu radicalismo. Apenas o Budismo parece ter quebrado esse padrão, especialmente a partir da invasão do Tibete (década de 1950). O Hinduísmo ainda não o fez de fato, apesar de estar penetrando no continente americano com certa força e sendo obrigado a fazer algumas concessões ritualísticas.

Por outro lado, o Ocidente parece ter agora condições de prover o Oriente de uma visão de síntese dos dois mundos: o Universalismo. O Oriente resiste mais a ela do que o Ocidente resistiu às crenças orientais no Século XIX. Isso porque acirram-se os fundamentalismos.

A defesa de um mundo laico e ao mesmo tempo universalista

Ainda que todo religioso e mesmo um universalista possa manifestar o desejo de que o mundo fosse mais ligado ao sagrado no nível institucional e governamental, a História mostra que essa pode ser uma experiência dolorosa. Isso seria não apenas um “fundamentalismo de Estado”, mas um abismante “fundamentalismo universal”, uma contradição evidente. Isso ocorre quando tornamos regra o aspecto “norma” da espiritualidade (o coletivo, a religião instituída) e não o seu aspecto “subjetivo-transcendental” (o individual, a “religiosidade”).
Um mundo laico não se opõe de forma alguma ao Universalismo, já que o último enfatiza a prática individual e não o proselitismo. Um mundo laico, todavia, se opõe ao Fundamentalismo, porque este último prega um proselitismo vergonhoso e agressivo, que interfere em questões sociais importantes, como os direitos humanos. O Universalismo é amigo dos direitos humanos e do laicismo do Estado; o Fundamentalismo não defende direitos humanos que se relacionem com questões de fé e não vê o laicismo com bons olhos.

Mas há ainda que diferenciar “laicismo” de “laicidade”, para efeito de nossa análise.

O “laicismo” é uma doutrina filosófica que defende e promove a separação do Estado das igrejas e das comunidades religiosas, assim como a neutralidade do mesmo em matéria de religião. Não se trata de ateísmo ou de agnosticismo, apenas de “separação” das esferas “Estado” e “religião”.

A “laicidade” é a forma institucional que toma nas sociedades democráticas a relação política entre o cidadão e o Estado, e entre os próprios cidadãos. O Estado não exerce qualquer poder religioso e a religião não exerce qualquer poder político. Há uma separação entre o domínio público (onde se exerce a cidadania) e o domínio privado (onde se exercem as liberdades individuais e coexistem as diferenças biológicas, sociais e culturais). O espaço público é indivisível: ninguém, cidadão ou grupo, pode impôr suas convicções a outros. A Laicidade garante a todos o direito de adotar uma convicção, de mudar de convicção ou de não adotar nenhuma. Não é “irreligião”, mas indiferente e incompetente em matéria de doutrinas e crenças, o Estado laico só se ocupa do que releva do interesse público. Assim, garante a liberdade religiosa e não fomenta fundamentalismos nem fornece privilégios a determinadas correntes religiosas. Mesmo a tolerância está excluída do Estado laico, pois as leis valem para todos, maioria e minorias.

Neste contexto mais específico de “laicidade” ainda podemos afirmar que não há qualquer incompatibilidade entre um Estado ou mesmo um mundo laico e uma visão de Universalismo. Afinal, uma visão laica cuida do interesse público, coletivo, enquanto o Universalismo cuida do indivíduo espiritual. Mas a religião, que também cuida do coletivo, esta sim, pode entrar em choque com um Estado ou mundo laico. Isso porque o foco é o mesmo: o interesse coletivo. Historicamente, isso tem levado a confrontos.

Finalizando, encontramos, então, relações entre a religião institucionalizada e o fundamentalismo, mas também entre a laicidade e o universalismo. A religião institucionalizada, ao recusar-se a reavaliações e adaptações, fomenta visões fundamentalistas em seu meio e se opõe ao Estado laico, que as rechaça, por serem intolerantes e excludentes. O Estado laico, por sua vez, fomenta visões amplas como o Universalismo, seja por afinidade de princípios, como a igualdade, a inclusão, o bem comum e a livre expressão, seja por não encontrar o segundo qualquer resistência por parte do Estado laico.

Mas a religião institucionalizada, mesmo que não-fundamentalista, luta para obter do Estado laico privilégios em detrimento de outras fés. Vemos isso no Brasil, onde a Igreja Católica faz um ferrenho lobby para obter recursos e patrocínios do Estado para suas procissões, visitas do Sumo Pontífice e eventos pastorais. Nos EUA, são as igrejas protestantes. No mundo muçulmano, que não é laico, esse “patrocínio” é oficializado. No antigo Tibete, que também não era laico, o apoio do governo ao budismo vajrayana era oficial, mas havia respeito pelas religiões hinduísta e islâmica presentes no país, e sem conflitos. E, ainda é assim no Governo Tibetano no Exílio (o próprio Dalai Lama tem enfatizado uma certa universalidade espiritual em seus discursos). Mas essa atitude é um tanto rara e se deve mais ao espírito tolerante, compreensivo e compassivo do ensinamento budista. Além do mais, os budistas não têm dificuldades em adaptar-se culturalmente, o que diminui o risco de se confundir prática cultural com crença ou dogma “fundamental”, uma das causas do fundamentalismo.

O perigoso equívoco: fundamentalismo = terrorismo

Podemos apontar vários culpados pelo grande e explosivo equívoco de que o fundamentalismo está sempre associado ao terrorismo: a mídia, os políticos, a opinião pública. Mas poucos são os religiosos realmente engajados em desfazê-lo. Quando o tentam, sua atitude parece modesta e tímida. No meio islâmico isso é evidente. Os poucos líderes religiosos que falam de modo enfático sobre o equívoco parecem ser, a mais das vezes, figuras exóticas de opinião esdrúxula e não “a voz do Islã”. Por que? Porque não são a voz do Islã. Se fossem, talvez obtivessem melhor resultado. O Islã, como qualquer outra religião, é seccionado. Possui muitas facções e os líderes só têm autoridade em círculos relativamente diminutos. Não há um “papa islâmico”, nem mesmo um líder carismático moderno capaz de congregar todas as facções. Considerando a situação atual, talvez um tal líder benevolente e carismático fosse desejável...

A carência de líderes moderados no Islã tem contribuído para o aumento de atitudes extremas perpetradas por fiéis islâmicos que se ligam a organizações que se dizem pertencentes ao Islã mas que, na verdade, são apenas grupos políticos de métodos terroristas. O terrorismo em si não tem nada a ver com o fundamentalismo, seja religioso ou não. Terrorismo é, no mínimo, uma forma extrema de forçar o outro lado a negociar. E, a negociação nem sempre envolve religião (lembre-se os separatistas bascos, por exemplo); se a envolve, nem sempre tem a ver com o Islã (lembre-se da luta entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte). É bom não confundir as coisas, para evitar juízos depreciativos e perigosos, fomentadores de discriminação religiosa, xenofobia e racismo.

A proibição das conversões no Islã também fomentam fundamentalismos. O islamismo se defende das conversões através da condenação à morte ou da prisão do apóstata. Em muitos países muçulmanos, mesmo os laicos, o direito de propagar o Islã é um direito natural e não há necessidade de lei; já, o direito de propagar uma outra religião é considerado, de fato ou por lei, inaceitável. Ou seja, dois pesos e duas medidas.

A propaganda islâmica é um dever do Estado, mas a propaganda cristã (chamada tabshir, lit. “evangelização”, em árabe) é proibida por lei. A Arábia Saudita é tão radical neste ponto que até mesmo o site da Saudi Arab Airlines traz escrito com clareza que em seus vôos são proibidas bíblias, crucifixos e qualquer sinal religioso não-islâmico. Ou seja, se você for à Arábia Saudita, só poderá manifestar sua religiosidade se for muçulmano...

“A verdadeira e única igreja...”

A propósito, é bom lembrar que o embate mais violento do Século XXI será o das religiões, como foi profetizado por André Malraux, ministro da Cultura do presidente francês Charles de Gaule, ao dizer que “o Século XX é das ideologias, mas o século XXI será das religiões”.

O embate moderno revive o fanatismo de antanho. O exemplo mais recente se deu quando, no dia 10 de Julho último, foi aberto ao público o documento do Vaticano intitulado “Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a igreja”, no qual se reafirma o dogma de que “a Igreja Católica é a verdadeira e única igreja de Cristo”, reforçando que as igrejas protestantes não devem ser consideradas como igrejas (“...não podem ser consideradas igrejas, dado que não contemplam o sacerdócio e não adotam a eucaristia, que simboliza a comunhão com Cristo”). Mas, sem querer ser mal-intencionado na pergunta, teologicamente a verdadeira “igreja” não é invisível, uma vez que o próprio Cristo não fundou nenhuma instituição? Desconsidera-se o fato de que, nos primeiros séculos da era cristã cada igreja crescia e se desenvolvia em completa autonomia em relação às demais? O documento traz a posição da Congregação para a Doutrina da Fé que foi ratificada pelo Papa Bento XVI, mas foi considerada por muitos religiosos como “ofensiva e danosa” à conversação ecumênica e interreligiosa. Realmente é danosa, pois trata-se de um retrocesso à Idade Média e equipara o radicalismo católico ao radicalismo islâmico, ou seja, é pólvora pura! No tocante ao ecumenismo, a Igreja Católica tem decidido com quem dialoga. Tanto que, na reunião ecumênica do Papa Bento XVI quando de sua visita ao Brasil, neste ano, não estavam incluídos representantes do candomblé e dos cultos neopentecostais. Caminhamos, então, para o “pseudo-ecumenismo”?

Ciência E Espiritualidade X Religião

Isto posto, não nos admira que a Ciência tem se aproximado mais da espiritualidade como um possível campo de pesquisa do que da religião institucionalizada. Desde os tempos de Freud e Jung, e mesmo antes, a Ciência flertou com a religião, mas logo a largou de mão, por concluir que esta última tinha mais conseqüências opressivas sobre o indivíduo do que se poderia imaginar, isto é, o efeito da “política institucional religiosa”, no entender de Fernando Savater. Com o advento da proposta transpessoal, a partir de Abraham Maslow, a Ciência voltou-se para a espiritualidade, por ter mais a ver com o indivíduo, que é o foco da Psicologia. Ao focar no indivíduo, a Ciência – e, especialmente, a Psicologia – encontrou algo de bom no mundo do subjetivo-espiritual. A religião passou a ser vista, então, pela Ciência, como a “norma coletiva”, e a espiritualidade, como “a fonte” de todo o transcendental.

Nos últimos dez ou cinco anos multiplicam-se pelo mundo Ocidental as jornadas, congressos, cursos e seminários científicos abordando a espiritualidade, especialmente no âmbito da Medicina, da Psicologia e da História. Brasil e EUA são os pioneiros, seguidos de modo mais modesto pela Europa. Esse diálogo entre Ciência e espiritualidade é salutar para o Universalismo, pois reforça a idéia de que a verdade não pertence a uma única religião ou doutrina. Para os fundamentalistas, esse diálogo é pérfido, por demonstrar exatamente isso...

Parece haver certa polarização religiosa da população mundial hoje: há cerca de 1,7 bilhões de cristãos e cerca de 1,3 bilhões de muçulmanos. O terceiro maior grupo é o dos que não professam qualquer religião - ateus, agnósticos, naturalistas ou bright e mesmo os “sem religião, mas com espiritualidade”, como muitos se definem. O terceiro grupo poderia, no futuro, se aproximar de uma visão universalista sem problemas. Os dois primeiros, correm o risco de caminhar para acirrados fundamentalismos e conflitos visando impôr a influência de suas respectivas políticas institucionais sobre determinadas sociedades ou grupos étnicos. Seria lastimável se isso acontecesse. Devemos enfatizar e apoiar atitudes inclusivas e promotoras do bem estar humano integral, não atitudes exclusivas, fanáticas, pretensiosas e agressivas, em qualquer medida que seja.

 

A Ciência se aproxima da Espiritualidade ?

uma análise crítica do I Congresso Brasileiro de Espiritualidade e Religiosidade na Saúde Mental – Parte 1

Paulo Stekel



Promovido pelo CISAME (Centro Interdisciplicinar de Saúde Mental) e pelo ProntoPsiquiatria (Centro Psiquiátrico de Pronto Atendimento), que atuam junto à Clínica São José, em Porto Alegre (RS), o I Congresso Brasileiro de Espiritualidade e Religiosidade na Saúde Mental foi uma experiência singular e reveladora. Realizado entre 20 e 22 de setembro último, contou com a presença de dezenas de conferencistas, entre eles muitos cientistas, mas também alguns representantes religiosos.
A pergunta-título desta matéria não é despropositada. Realmente ficamos na dúvida se a aproximação tão falada entre ciência e espiritualidade se constitui em algo palpável ou ainda engatinha em meio a preconceitos e despreparo dos cientistas para tratar do assunto. Parece-nos que a segunda hipótese é a verdadeira. Mas é louvável a idéia de uma aproximação, e algumas conquistas estão aparecendo.

Já no início do evento, em uma palestra pública intitulada "Transtorno de Pânico e Religiosidade", Cláudia Wachleski (UFRGS) mostrava que:
“(...)pensamentos nocivos e emoções descontroladas provocam estados ansiosos e depressivos. (...) Religiosidade é a ligação com uma força maior que está dentro de nós, com a espiritualidade interior pertencente ao ser humano. (...) A Psicoterapia pode incorporar a exploração dos aspectos espiritual/religioso mais facilmente, ajudando nas questões de saúde mental."

Durante a Conferência 1, Paulo Dalgalarrondo, prof. Titular de Psicopatologia da UNICAMP, apresentou um panorama das relações entre espiritualidade e saúde. Sua definição de “espiritualidade”, que se diferencia da religião organizada e mesmo da “religiosidade” foi como sendo:
“(...) uma dimensão mais pessoal e existencial; relativamente independente de formas socialmente organizadas de religiosidade; relação com um poder ou força superior; crescimento em todo o mundo de pessoas que se definem como sem religião, mas com espiritualidade. (...) É algo mais emocional e independente.”

Dalgalarrondo apresentou, ainda, um dado interessante: em quase todas as culturas, as mulheres são mais religiosas que os homens, mas são estes que mandam. No séc. XX, se pensava que a causa era o fato das mulheres serem mais socializadas para a religião. Hoje, se pensa no “comportamente de risco”, que é maior entre os homens e desestimula a busca espiritual. Os homens homossexuais são mais religiosos que os heterossexuais, mas as mulheres homossexuais são menos religiosas que as heterossexuais e mesmo que os homens heterossexuais. Não são dados conclusivos, é claro, mas devem ser considerados.
Importante foi a diferença entre “fenômenos religiosos” e “fenômenos psicopatológicos", feita por Dalgalarrondo. Enquanto os fenômenos religiosos têm como características principais conteúdos compartilhados, de natureza visual, que alargam a vida do indivíduo, fazendo-o sentir-se “agindo”, os psicopatológicos são bizarros, idiossincráticos, causam alucinações auditivas, desintegram a personalidade e o indivíduo sente-se passivo na experiência. Poucos dados contradizem o fato de que a prática espiritual diminui a incidência no uso de drogas, álcool e depressão, melhorando a saúde mental.

A única coisa que parece gritar a nossos ouvidos é que, quando cientistas falam sobre espiritualidade, mesmo lhe dando algum crédito, temos a sensação de que dizem baixinho: “É uma ilusão que faz bem à saúde!” Esta foi, pelo menos, a opinião passada diretamente a nós por diversos participantes do congresso, alguns deles, psicólogos com idéias nitidamente espiritualistas.

Letícia Alminhana (UFJF/MG) falou sobre os efeitos das técnicas mente-corpo no tratamento do câncer. Explicou o que seria a psiconeuroimunologia, uma ciência envolvendo a consciência (psique), o sistema nervoso e o sistema imunológico (glandular). Em suas pesquisas, tem usado técnicas de relaxamento durante sessões de quimioterapia, além de visualização criativa (imagens livres), meditação, respiração abdominal, postura relaxada, mantras e focalização da atenção.

Sérgio Lopes (AME/RS), ao falar dos chamados Estados Alterados de Consciência, propõe que se os chame Estados Ampliados de Consciência, por representarem exatamente situações de aumento de consciência. Tais estados são de 4 tipos: Beta (12-20 ciclos/seg, vigília), Alfa (8-12 ciclos/seg, meditação e relaxamento), Theta (3-8 ciclos/seg, sono) e Deltha (menos de 3 ciclos/seg, pré-coma, catalepsia, meditação dos monges budistas na qual há um consumo sutil de energia).
Para Lopes, os estados ampliados de consciência têm as seguintes características: inefabilidade (são sem uma explicação de ordem racional), qualidade noética (como revelações, cheias de significado simbólico e importância), transitoriedade (não podem ser mantidos por muito tempo, como o estado de consciência ordinário) e passividade (sensação de que a própria vontade está adormecida e agarrada por uma força superior).


[No início do evento, foi apresentada a esquete "Estressado, Estressadíssimo, Estressadérrimo", pelo Grupo de Teatro Janela Aberta]

Na opinião de Wellington Zangari (USP), ainda ocorre em algumas universidades do Brasil um cerceamento do debate sobre espiritualidade nos cursos de Psicologia. Por isso defendeu a heterodoxia em Psicologia. Noticiou que o CAPS, o CNPq e a FAPESP já dão bolsas de pesquisa na área de estados alterados de consciência, mas que o Brasil está atrasado na pesquisa, comparado aos EUA, onde se tem escrito muito sobre uma “Psicologia Anomalística”, que estuda experiências alegadamente anômalas (paranormais), isto é, fenômenos raros. No Brasil, essa pesquisa é praticamente desconhecida.
Zangari foi um dos poucos cientistas que, durante o congresso teve a coragem de se fazer a seguinte pergunta (e respondê-la):
“E, se os processos anômalos de interação entre o ser humano e o meio existirem [isto é, não forem a mera “ilusão boa para a saúde”, como dissemos há pouco]? Então, nossa visão tradicional da separabilidade entre um indivíduo e outro terá que ser revista.”

Carlos Durgante (CISAME/RS) afirmou que espírito, mente e corpo estão se tornando objeto de estudo das neurociências. Na verdade, tais pesquisas iniciaram por volta de 1970, com o antropólogo Eugene D'Aquilli (EUA) e sua Neuroteologia, que procura explicar como a mente funciona para criar as experiências religiosas.
Segundo Durgante, pesquisas feitas com monges tibetanos, freiras católicas e evangélicos, demonstram a ativação do circuito cortical fronto-parietal e estruturas do lobo temporal quando se tem uma experiência religiosa. A meditação reorganizaria o cérebro, permitindo controlar e modificar as reações automáticas. Dessa forma, as experiências religiosas ajudariam na imunidade, na circulação sangüínea e na saúde em geral.
Por fim, Durgante deixou a pergunta: “Estaríamos todos nós predispostos a sentir uma idéia da divindade a partir dos nossos processos cerebrais?” Sua resposta criteriosa: “De qualquer forma, não se pode afirmar que 'Deus' está no cérebro.” Contudo, não faltam cientistas materialistas tentando localizar Deus e a sede de toda a experiência religiosa/espiritual nos circuitos cerebrais. Confundem, então, o veículo com o motorista e ainda se consideram cientistas...

Continuando essa linha de raciocínio, Júlio Peres (USP) explicou que as neurociências vão do nível molecular até o nível mental, e que isso é visão holística. Porém, correlatos neurais não significam que o cérebro produza as experiências religiosas.
Peres criticou – e outros o fizeram de modo enfático ao longo do evento – a interpretação sensacionalista e equivocada dos estudos neurocientíficos pela mídia não especializada. Apenas se esqueceu de criticar a atitude contrária, ou seja, o aproveitamento da mídia por parte de cientistas especializados, mas mal-intencionados, desejosos de divulgar suas teses materialistas. A mídia pode ter sua parcela de culpa, sim, mas que produz ciência duvidosa não é a mídia; ela apenas noticia.

Uma das primeiras falas de Marcelo Mazza (USP) parece evidenciar o modo como neurocientistas vêem a questão espiritual:
“O assunto deve ser considerado pela comunidade científica com mais respeito. (...) Fé, religiosidade, espiritualidade é o que se está estudando e não Deus, que está fora do escopo científico. Cuidado com os termos que parecem bem aceitos no senso comum, mas que não são assim.” [Foi uma referência ao “Deus está no cérebro?” de Carlos Durgante, minutos antes.]
Essa afirmação de Mazza deixa escapar a tônica da atual pesquisa neurocientífica sobre espiritualidade: estudar os efeitos sobre o organismo e o indivíduo, mas nunca se perguntar sobre a realidade ou não daquilo que a espiritualidade e a religião propõem, dada a subjetividade do processo. Nos encontramos, então, diante de um novo tabu em Ciência?
Para Mazza, a crença é a aceitação de algo como verdade, ou pensar que algo pode ser verdade. Ela pode ser explícita (“pode ser verdade”) ou implícita (“se tem certeza de que é verdade”). Já a fé é racional, mas não é lógica. O lógico segue regras, o racional não. Não ter religião (mas ter espiritualidade) é não ter fé histórica (a crença instituída, de grupo), mas ter fé moral (a espiritualidade como algo individual). A fé histórica é o rito, a fé moral é a certeza, “a fé pelo que ela é”, nas palavras textuais de Mazza.
Depois deste discurso, e de definir o self como uma integração entre cérebro, mente e alma (que ele talvez entenda como um mero processo cerebral!), desqualificou a chamada “foto kirlian” (bioeletrografia), dizendo que “a relação sinal/ruído é muito ruim, e se deve ter cuidado ao pesquisar com aparelhos assim”.
Mazza encerrou sua apresentação com a afirmação da criadora da Neurofilosofia, Patricia Churchland:

“Tudo que nós vivenciamos, nós vivenciamos por meio de nossos cérebros.”

[Continua na próxima edição]


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