domingo, 9 de dezembro de 2007

 

Buda e Cristo - conexões e diferenças

Paulo Stekel



Buda: Análise histórica

Há muitos anos que ouvimos (e procuramos responder) a insistentes perguntas de cristãos e de adeptos da “nova era” que flertam com o Universalismo sobre a relação existente entre Buda e Cristo. É difícil estabelecer relações diretas e definitivas quando falamos de duas religiões bem distintas, como são o Cristianismo e o Budismo. Uma é teísta e a outra não fala em Deus. Mas ambas falam do amor, ao próximo num caso e a todos os seres em outro.

O Budismo é mais antigo que o Cristianismo em mais de 500 anos. A data exata do nascimento de Buda é motivo de controvérsia, mas não é importante nas crenças budistas. Esta prática religiosa centra-se na essência do Dharma (a Lei cósmica, a essência ou realidade absoluta das coisas) e não em crenças pseudo-históricas. A idéia de que o ser humano pode se tornar um Buda, um Iluminado, subsistiria mesmo se fosse provada a não-existência do Buda histórico.

De qualquer forma, a data do nascimento de Buda é móvel; cai no primeiro dia da lua cheia de maio, sob o signo de Touro. É conhecida como “Festival de Vesak”, sendo Vesak o nome para o mês de maio no antigo calendário páli. Já, a data da Iluminação e morte do Buda varia conforme a tradição. No Budismo chinês e japonês é comemorada no dia 08 de dezembro.

O Buda nasceu numa família real em pleno tempo do Bramanismo, uma religião confusa e cheia de rituais, fomentando um sistema injusto de castas, um preconceito étnico oficialmente estabelecido e com efeitos até hoje. A inferioridade da mulher também era algo reprovável na visão bramânica, bem como a total dependência da sociedade a rituais vãos e de significado esquecido. Portanto, a educação religiosa de Buda, ainda chamado Sidarta Gautama, foi dentro destes princípios, dos quais o atual Hinduísmo ainda esposa muitos.

Quando Gautama se tornou um Iluminado, essa idéia de Liberação não era estranha ao Bramanismo. Na verdade, desenvolvera-se ali e no Jainismo, uma religião baseada na não-violência extrema e no carma. Contudo, depois de ter alcançado o estado mental conhecido por Iluminação, Buda contestou o sistema de castas, a hipocrisia dos sacerdotes, o comercialismo religioso escondido nos rituais propiciatórios, a inferioridade da mulher, a superstição e outros absurdos. Buda não atribuiu a si qualquer divindade, tendo alcançado a Iluminação pelo seu próprio esforço e méritos acumulados ao longo de muitas vidas.

Buda pregou durante décadas o caminho que conduz à cessação do sofrimento, ou Caminho do Meio, como alternativamente é chamado o Buddha-Dharma (O Dharma do Buddha ou “budismo”, na visão ocidental). Encontrou forte oposição dos brâmanes e donos do poder em sua época, mas morreu em idade avançada, passando então, segundo diz a tradição, ao Nirvana, o estado do “apagar-se [como uma chama]”, um estado de mente pura, clara, desperta, não-condicionada ao mundo fenomênico relativo, mas o que bem se poderia chamar de “estado absoluto”. Este “absoluto” é entendido como “Deus” no Ocidente. Mas Buda não é um deus e nenhum deus lhe pode franquear ou interditar a Iluminação. Morreu aos 80 anos, tendo pregado por cerca de 45 anos.

Cristo: análise histórica

A origem do Cristianismo não está completamente desvendada, ainda que a arqueologia se esmere em tentá-lo. Sabe-se, contudo, que 25 de dezembro não deve ter sido a data do nascimento de Jesus Cristo.

A New Catholic Encyclopedia reconhece o seguinte: “A data do nascimento de Cristo não é conhecida. Os Evangelhos não indicam nem o dia nem o mês (...). Segundo a hipótese sugerida por H. Usener (...) e aceita pela maioria dos peritos hoje em dia, designou-se ao nascimento de Cristo a data do solstício do inverno (25 de dezembro no calendário juliano, 6 de janeiro no egípcio), porque, nesse dia, à medida que o sol começava seu retorno aos céus setentrionais, os devotos pagãos de Mitra celebravam o dies natalis Solis Invicti (aniversário natalício do sol invencível). Em 25 de dezembro de 274, Aureliano mandou proclamar o deus-sol como o principal padroeiro do império e dedicou um templo a ele no Campo de Marte. O Natal se originou numa época em que o culto do sol era particularmente forte em Roma.” — (1967), Vol. III, p. 656.

A questão da existência ou não do Cristo histórico é mais polêmica do que a do Buda histórico. Para o budista, a não-existência de um Gautama Buddha não abalaria as bases do Dharma, pois todos os seres um dia serão Budas. A não-existência de um não excluiria os demais. Quanto ao Cristo, a questão é mais complexa. Sendo ele considerado o Filho de Deus e uma das pessoas da Trindade, sua não-existência histórica abalaria o importante pilar do “Verbo feito carne”, se entendido apenas de modo histórico. Mas, entendido de modo místico, nem este pilar seria abalado. A visão dos antigos gnósticos se aproximava desta última: um Cristo místico e não necessariamente histórico. Encontramos o primeiro paralelo entre Buda e Cristo: um Buda potencial (em cada ser) e um Cristo místico são perfeitamente possíveis e relacionáveis.

O Cristo nasceu numa família pobre em pleno tempo do Judaísmo dividido entre a seita dos fariseus e saduceus, uma época de acirrado debate entre uma visão ritualística e uma visão contemplativa da Torah, a Lei de Moisés. Politicamente, havia ainda um pendor libertário, manifestado na espera de um Messias libertador, já que os judeus estavam sob domínio romano, que se seguiu ao longo domínio helênico. A dependência da sociedade à lei deuteronômica de Moisés, que incluía o apedrejamento de criminosos e adúlteros, foi algo que Jesus não aprovou. Ainda que o texto canônico diga que ele não pretendia substituir a Lei de Moisés, mesmo assim colocou o mandamento do “não matarás” em alta posição em sua doutrina. É o mesmo princípio da não-violência pregado por Buda e o primeiro dos cinco “mandamentos” ou preceitos budistas. Portanto, a educação religiosa de Cristo foi dentro dos princípios judaicos anteriores à Diáspora (70 d.C.).

Quando Jesus autodeclarou-se O Cristo (o Messias judaico), essa idéia de Libertação por um Messias enviado por Deus não era estranha ao Judaísmo, uma vez que vários Profetas do Antigo Testamento, entre eles Isaías, o anunciavam. Contudo, depois de ter se anunciado como o Messias a seus discípulos, Jesus contestou o sistema religioso e político de sua época, a hipocrisia dos sacerdotes (como fez o Buda), as injustiças sociais, o comercialismo religioso junto ao Templo, a paranóia do Sábado em detrimento do bem ao próximo, a superstição e outros absurdos. Jesus atribuiu a si participação direta na divindade, como o Filho, a Segunda Pessoa da Trindade. Nisso, ele se diferencia completamente de Buda. Morreu aos 33 anos, segundo o texto canônico. Cristo é o deus dos cristãos; Buda é apenas o ideal, o exemplo dos budistas...

Conexões

A parte as diferenças óbvias, não podemos deixar de reconhecer as semelhanças entre Buda e Cristo. Ambos contestaram o sistema opressor de suas respectivas épocas, acolheram sem preconceito todo o tipo de ser humano e transmitiram seus ensinamentos indistintamente a quem estivesse interessado em ouví-los. Ambos viveram como mendicantes até o fim da vida e dependeram inteiramente da compaixão e generosidade das pessoas para sua sobrevivência e de seus discípulos. Ambos enfatizaram a não-violência e o amor incondicional por todos, estabelecendo-os como fundamentos máximos de suas doutrinas. Por fim, ambos deixaram discípulos mas não criaram religião alguma, ficando tal tarefa a cargo de seus seguidores ao longo dos séculos. Ambos carnalizaram o exemplo espiritual. Os homens é que transformaram o exemplo em instituição.

Ainda que a religião institucionalizada (tanto o Budismo quanto o Cristianismo) tenha suas vantagens, passa a ser religião morta quando os princípios essenciais são esquecidos. A religião viva é a prática da essência transmitida pelos grandes seres, uma essência que é atemporal, acultural e não-geográfica. A religião viva se adapta aos tempos sem perder sua essência. O Budismo tem sobrevivido assim. O Cristianismo também passou por adaptações, mas precisa corrigir alguns desvios e entrar na corrente evolutiva do Terceiro Milênio. Ambas as religiões têm suas escolas, linhagens e divisões, cada uma com sua particularidade. O principal ponto em comum de ambas é o amor incondicional, chamado de compaixão por todos os seres no Budismo.

O próprio Dalai Lama, ao ser indagado sobre o que era o Cristo para ele, teria respondido que, considerando o que está descrito no Novo Testamento, as atitudes do Cristo correspondem às de um Buda! Ou seja, o Budismo pode absorver a noção de um Cristo sem dificuldades. Poderia o Cristianismo absorver a idéia de um Buda, um ser humano perfeito? O Cristianismo Gnóstico poderia, com toda a certeza. O Cristo gnóstico é o homem perfeito, nascido do homem de dores, exatamente como o Buda...

Diferenças

Como dizíamos no início, sempre nos perguntam sobre a relação entre Buda e Cristo. Mas a pergunta mais intrigante é aquela que quer saber quem é mais elevado: Buda ou Cristo? Alguém ligado ao movimento “nova era” perguntou-nos se o Buda constitui um “nível evolutivo” inferior ao de um Cristo! Como podemos dizê-lo, se as noções de Buda e de Cristo estão intimamente relacionadas a seus respectivos sistemas religiosos e não têm conexões diretas?

Na verdade, a noção de um Buda como um nível imediatamente inferior ao de “um” Cristo vem da Teosofia (a Sabedoria Divina, descrita por Helena Blavatsky), de uma noção equivocada, assim pensamos. Confrontar sistemas diferentes e colocá-los hierarquicamente, um como superior a outro, é algo muito perigoso e politicamente incorreto nos dias de hoje. Usando da sinceridade devida aqui, a noção de Buda como “pouco” inferior a Cristo veio de cristãos ligados à Teosofia e ao movimento “nova era” (Leadbeater, Alice Bailey, etc.), mas não é aceita pelos budistas, mesmo os universalistas. Muitos teósofos são budistas com pendores universalistas, de modo que podemos dizer que essa é uma noção equivocada de Teosofia, que coloca a sabedoria de todos os seres de luz no mesmo patamar.

Isto posto, fica claro que o ideal é entendermos cada um – Buda e Cristo – como exemplos completos e até complementares (na visão de um universalista), mas não confrontáveis hierarquicamente. Não são “níveis evolutivos”, como querem alguns, mas exemplos completos de perfeição. São, então, equivalentes, feitas as devidas diferenciações doutrinárias.

Por exemplo, o Cristianismo é teísta e o Budismo, antes de negar Deus, prefere não falar muito sobre ele, já que sua noção não concorre no processo de Iluminação. Importantes para a Iluminação são a ética, a sabedoria e a meditação. No Cristianismo o processo desejado é a Salvação da alma e, para isso, a crença em Deus é importante, pois é ele quem salva. Neste caso, importantes para a Salvação são a ética (os mandamentos), a sabedoria (as obras) e a oração (a fé).

A oração contemplativa é um tipo de meditação; a meditação com mantras é um tipo de oração. Isso tanto é verdade que se tem tornado comum monges budistas aprenderem a oração em mosteiros cristãos e monges cristãos aprenderem a meditação em mosteiros budistas. É a prova da complementaridade citada acima. No momento em que os seguidores de Buda e de Cristo se encontram e vivem uma experiência espiritual sem se deterem nos pontos de divergência, mas nos de convergência, que não são poucos, ambos os grupos têm muito a ganhar, reavivando suas respectivas práticas.

A lógica que nos inspira este raciocínio antifundamentalista é o seguinte pensamento: para o praticante sincero de qualquer religião, a proposta de sua fé não pode depender da superioridade ou inferioridade de qualquer outra fé para ter seu lugar na conta dos caminhos espirituais possíveis. A fé do outro é a melhor proposta “para o outro”. Podemos estabelecer um diálogo produtivo com o outro, mas não podemos demovê-lo de sua fé, a não ser que tenhamos certeza de ter em mãos uma fé muito melhor que a dele, o que seria, concordemos todos, uma atitude petulante e sem possibilidade de comprovação. Ou seja, eticamente, é correto dizer: o indivíduo pode “se converter” de livre e espontânea vontade, mas não pode “ser convertido” por pressão ou lavagem cerebral. A conversão deve ser um processo de convicção, não de conveniência. Ah, se os fundamentalistas de plantão entendessem isso! As religiões precisam se conhecer, não competir entre si. A espiritualidade transcende a religião instituída. Buda e Cristo se entenderiam muito mais que seus discípulos, desconfiamos...

Noções equivocadas

É fácil encontrar na literatura mística dos últimos 120 anos as noções mais absurdas envolvendo Buda e Cristo. Algumas são mesmo inviáveis ou uma miscelânea caótica e sem sentido.

Dizem, por exemplo, que o Cristo e o Buda são irmãos, que o Buda previu a vinda de Cristo, que o Buda é a encarnação da Luz, enquanto o Cristo é a encarnação do Amor... Ambos só podem ser irmãos no sentido de que todos o somos; Buda não previu a vinda de Cristo porque não falou do Messianismo judaico, que não era noção conhecida na Índia de 500 a.C. e ainda não completamente formada mesmo na Palestina; ambos encarnam a Luz e o Amor, ou podemos imaginar Iluminação sem amor?

Não se pode negar que “a religião Budista é altamente sincretista, pois Buda não é considerando um Deus, permitindo assim seus seguidores conviverem com outras religiões” (Almanaque Abril, 2004, p.134). Assim, saindo da Índia, o Budismo se adaptou à China, ao Japão e ao Tibete. Agora adapta-se lentamente ao Ocidente. Mas as noções básicas em todas as adaptações são as mesmas: Buda é o exemplo para a nossa própria Iluminação!

O Cristianismo também adaptou-se. A Igreja Ocidental (Romana) não é igual à Oriental (Ortodoxa) e ambas diferem dos Protestantes. Mas as noções básicas são as mesmas: a Salvação só é possível em Jesus Cristo, o Filho de Deus.

É bastante difícil conciliar uma noção de Buda exemplo para a Iluminação (por esforço próprio) com a de Cristo conduzente à Salvação (por vontade de Deus). Por isso nascem noções estranhas tentando uma conciliação: os teosofistas consideram Cristo um nível superior ao Buda; os Baha'ìs consideram Buda um Profeta, como Jesus; alguns budistas consideram Cristo um Buda ou um bodhisattva, por sua ética. Mas são opiniões pessoais, não tradicionais.

As tradições podem “flertar”, mas não podem se fundir. Se fundindo, geram uma terceira coisa e deixam de existir como tradições independentes. Ou seja, se um dia a tradição budista e a cristã se fundissem (seria possível?), Budismo e Cristianismo deixariam de existir e gerariam uma nova tradição. Cada tradição espiritual tem um valor por si mesma e desaparece quando se mescla a outra. Uma tradição é um conhecimento enclausurado em um tempo e um espaço, mas trazendo uma sabedoria essencial revelada ou desenvolvida neste tempo e espaço. É um todo completo inspirador e, conforme ouvimos dizer o Lama Padma Samten certa vez, “uma tradição completa deve ter respostas para todas as perguntas”. Ou seja, deve responder a todas as questões básicas da existência.

Mas há semelhanças entre Budismo e Cristianismo que não se pode negar: ambos, Buda e Cristo, nasceram de “mães imaculadas”; os nomes das mães até se assemelham em som – Maya e Maria; enquanto o Cristianismo católico reverencia Maria com um culto especial, o Budismo Tibetano reverencia Arya Tara, um arhat feminino, como a manifestação feminina da iluminação; a missão de Buda foi profetizada pelo sábio Asita, enquanto a de Cristo o foi por Simeão (Lucas II.25-34); Buda contestou o sistema de castas, franqueando a Iluminação a todos, indistintamente – Jesus contestou a hereditariedade judia, que excluía do culto aqueles que não possuíssem o caráter genético; Buda foi tentado pelo demônio Mara (a ilusão do ego) e Cristo por Satanás (o apego ao mundo); Buda, antes da Iluminação, jejuou intensamente e praticou austeridades violentas – Cristo jejuou por quarenta dias e quarenta noites no deserto; no início, os monges budistas passavam por meditações intensas em cavernas e mortificações semelhantes às do Buda antes da Iluminação – os cristãos, por vezes, se entregam a mortificações e autoflagelações.

Aqui se faz necessária uma nota.

No Budismo não há mais essas penitências, no máximo jejuns ou retiros espirituais com pouca alimentação. Sacrifício só se for pelo próximo. Mas, antes do Séc. I, não era assim, pois os monges isolavam-se da sociedade e faziam grandes sacrifícios em retiros nas cavernas, com disciplinas pesadíssimas de meditação e jejuns. Há quem pense que isso mudou porque, talvez, os missionários Cristãos da época tenham influenciado os grandes Mestres Budistas a mudarem seus conceitos de sacrifício monástico para o sacrifício pelo próximo. Não há indício histórico disso. A raiz dessa mudança está nas idéias do Mahayana e na noção clássica de Caminho do Meio (evitar os extremos).

A reencarnação já foi inerente a Buda e Cristo?

Não se pode deixar de perceber a grande semelhança entre a procura dos Reis Magos pelo menino Jesus e a tradição do Budismo tibetano que costuma procurar crianças consideradas reencarnações de Mestres espirituais, tais como os lamas (Instrutores), os tradutores e os regentes políticos, como o Dalai Lama.

O Budismo encontra uma explicação para isso, pois defende a Reencarnação. Grandes Mestres voltam a encarnar sucessivamente por amor à humanidade, para que os seres cessem seus sofrimentos. “Poderiam ficar nas regiões paradisíacas, celestes, gozando da boa-venturança, mas o amor lhes move ao sacrifício de se manifestarem fisicamente, com todas as dores, humilhações e intolerâncias que isso traz.” (DAS, 2001, p.128-129)

O Cristianismo tem nessa passagem atualmente apenas a exposição do cumprimento das profecias, pois não aceita mais a reencarnação. Mas, até os seis primeiros séculos do Cristianismo a crença na reencarnação era comum:

“A crença na reencarnação constituía um dos dogmas das comunidades cristãs primitivas, mas depois foi considerada herética e banida da teologia cristã no Segundo Concilio de Constantinopla em 553 d.C.” (KERSTEN, 1998, p.28)

Os sábios reis Magos, oriundos da Pérsia, terra de conhecimentos mágicos, astrológicos e místicos, chegaram exatamente no ponto certo do encontro do menino.

Este é o mesmo procedimento utilizado pelos lamas do Tibete, ainda hoje. “No séc. XIX, uma expedição foi criada com a missão de encontrar a reencarnação do atual 14º Dalai Lama, e esta se baseou em pistas dadas em vida pelo Dalai Lama anterior; nas indicações de um monge funcionário do governo com poderes para ver o futuro, denominado de Oráculo; nas meditações e visões do monge regente do Tibete; e nos cálculos dos astrólogos do governo, pois a astrologia é largamente utilizada pelo governo e cidadãos tibetanos em geral”. (KERSTEN,1988, p.98-100)

Assim, podemos encontrar um ponto de convergência importante entre Budismo e Cristianismo, que na origem, aceitava a reencarnação.

Declarações de autoridade

O trecho mais forte do Novo Testamento sobre a superioridade de Jesus é o que diz: "Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." (João 14.6)

Isso foi interpretado erroneamente ao longo dos séculos como sendo o Cristianismo o único caminho, gerando lutas violentas contra supostos paganismos, heresias, idolatrias, etc.

Para Thich Nhat Hahn, o monge budista vietnamita, o trecho de João tem a seguinte versão: “Quando Jesus disse 'Eu sou o caminho', Ele quis dizer que, para termos um verdadeiro relacionamento com Deus, precisamos praticar Seu caminho. (...) O 'Eu' na declaração Dele é a própria vida, a vida Dele, que é o caminho.” (HANH, 1997, p.69)

Ou seja, o valor dos ensinamentos de Cristo não está em suas palavras, mas em sua vida. Não está numa Igreja, que seja a única ou a melhor entre as demais. A separação entre o "eu" e a vida é uma idéia essencialmente budista. E a afirmação da inexistência do eu foi estabelecida pelo budismo para se opor ao forte conceito de castas hindu, que reforçava a idéia da superioridade de um eu em função de sua hereditariedade, desprezando e oprimindo as classes hereditariamente desfavorecidas, algo semelhante à idéia da descendência judaica, estabelecida no Antigo Testamento.

Mas o Buda, como Cristo, também se apresentou em diversas ocasiões como “Único”, ou como “O Mais Iluminado”. Logo após a iluminação, mudou seu nome de Siddharta Gautama para "O Iluminado", e ao reencontrar seu pai depois de vários anos, autodenominou-se "O Mestre da Verdade". Devemos entender esta declaração de autoridade como a autoridade de todos os Budas, já que, segundo o Budismo, nos iluminaremos um dia, por força de nosso próprio mérito e prática adequada.

Mesmo assim, o Budismo não se tornou sectário, adotando o respeito compassivo e positivamente sincrético onde tenha se propagado, adquirindo também o respeito das outras religiões. Um bom exemplo é a relação pacífica entre budistas e muçulmanos no Tibete anterior à invasão chinesa. O próprio Hinduísmo, que declinou após o advento do Budismo, considera o Buda como o 9º Avatar (encarnação) do seu Deus Vishnu, reverenciando-o, portanto. Da mesma forma, os muçulmanos consideram Jesus Cristo um Profeta e o reverenciam como tal.

Sincretismo X Sectarismo

Enquanto o Cristianismo se utiliza do proselitismo para converter novos fiéis, o que várias vezes foi motivo de conflitos com povos “pagãos”, o Budismo não vai por esta corrente. O Budismo se dissemina desde a origem através do sincretismo com as práticas “pagãs” que encontra em sua expansão. Assim, no Tibete, mesclou-se com a antiga religião Bön, na China com o Taoísmo, no Japão com o Xintoísmo. Talvez, no Ocidente, venha a mesclar-se com conceitos cristãos, sem, como já dissemos, fundir-se com o Cristianismo. Para o Dalai Lama, o Budismo considera um missionário como um erro bastante grave, inadmissível até, “pois se alguém tenta propagar sua religião e outro faz o mesmo, tornam-se ambos concorrentes e vêm os conflitos”. E isso é a causa dos grandes embates religiosos atualmente!

Para o Cristianismo, sincretismo é algo negativo, uma deturpação e conluio com o paganismo; para o Budismo, pode ser um aliado na divulgação da doutrina de Buda (o Buddha-Dharma). Visões opostas do mesmo fenômeno... Sincretismo x Sectarismo. Não se deixa de ser budista ao parar para observar a religião do outro e sincretizar-se com ela, mantendo a essência da doutrina; se deixaria de ser cristão neste mesmo caso? É impossível entrar em contato com outra cultura sem sofrer influência. E esta influência é uma via de mão dupla!

Sincretismo (budista) parece harmonizar-se perfeitamente com a noção de Ecumenismo (cristão). Mas sectarismo só parece rimar com fanatismo ou com o fundamentalismo, que não vê valor espiritual algum na prática “do outro”...

Mas Buda e Cristo, do alto de seus tronos de glória, olham serenamente para estas picuinhas humanas e lamentam que seus ensinamentos sejam praticados em essência por poucos. Afinal, um verdadeiro religioso exalta a humanidade inteira e a eleva, independente da doutrina que espose.

Comments:
Boa tarde.

Muito obrigado pelo convite a colocar um comentário.

Só tenho a dizer-lhe, que considero que o seu modo de expôr as diferenças e as semelhanças entre Cristo e Buda, me parecem muitíssimo saudáveis.

especulativamente - artur.
 
Show!!!

 
Caríssimo mestre Paulo! Já tinha lido esse seu artigo. conto o reli com outros olhos, mais atento e muito mais aberto. É ótimo, lúcido e esclarecedor. Só não consigo concordar amplamente com sua afirmação sobre o hermetismo das tradições. Pelo que se conhece, não há nenhuma tradição que continue pura, sem nenhuma influência dos lugares onde chegam. Veja o exemplo do Budismo Tibetano e do Cristianismo Romano. Como encontrar o que é apenas referente e característico de apenas uma tradição? Paz para todos os seres!
 
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